7:22O Surto

por Fernando Muniz 

Chega à praça principal e começa a fazer exercícios de respiração. Isso sempre o acalmou. De short curto, arames em volta do corpo e graxa nos braços e pernas, começa a se contorcer.

Move-se com alguma espécie de cadência, mas logo ganha confiança e passa a se esticar, como se tentasse tocar o céu, a baixar e levantar os braços, a ficar de joelhos, dar dois passos para frente e dois para trás, para um lado e para o outro, em diversas sequências, nunca repetidas. E repete frases um tanto desconexas, que poderiam formar um poema.

Dois guardas municipais se aproximam. Olham um para o outro, cismados. “Que porra é essa, maluco?!” Prestam atenção ao rapaz, cujas contorções são assistidas por quatro ou cinco pessoas.

Um dos guardas resolve fazer um telefonema.

Dali a uns quinze minutos, enquanto o rapaz se agita mais e mais e suas frases começam a deixar o pessoal do ponto de ônibus apreensivo, dois socorristas do SAMU apresentam-se aos guardas.

“É esse cara aí?”

“É”.

“Coitado. Tá juntando gente, até”. Aproximam-se do rapaz, um pela frente e outro por trás; ele, concentrado em seus movimentos, não se dá conta. A plateia olha para os socorristas com cara de espanto.

Têm dificuldade em agarrar o rapaz, por conta do arame no corpo dele.

“Ei, o que é isso?!”

“Calma, calma, estamos aqui para te ajudar”.

“Mas ajudar em quê?!”

“Fica frio que vamos cuidar de você”.

Os guardas civis aproveitam e partem para cima da plateia. “Bora pessoal, o show acabou”.

“Mas como assim? Isso é absurdo! Que arbitrariedade! Fascismo! Deixa ele se expressar!” – a plateia esboça o seu desagrado.

“Vocês não têm vergonha na cara não?! Tirar sarro de uma pessoa com doença? Tão esperando o quê, ele ficar pelado? Pra casa agora, senão vai todo mundo pra delegacia!”

Os socorristas tentam levar o rapaz à ambulância. Ele resiste. “Peraí, vocês não estão entendendo! É uma per-for-man-ce, tá ligado? Tenho autorização!”

“Vai ser mais difícil do que imaginamos”. Chamam o motorista da ambulância; um estivador, na prática. Que dá um pescoção no rapaz e o prega na maca.

“Pronto. Pode ´aderribá´ o nóia”. O médico plantonista, que permaneceu na ambulância todo esse tempo em um tédio mortal, não pensa duas vezes e aplica uma dose dupla de sedativo. O rapaz apaga, de ficar com a língua de fora. Lançam um lençol sobre ele.

Os guardas municipais entregam ao plantonista uma bolsa, com uns folders e mudas de roupa. Ele encontra documentos. “Bom, desta vez pelo menos vai dar pra preencher os formulários”.

No hospital de clínicas jogam o rapaz em uma cama de campanha, inerte, e ele fica ali, juntando moscas, à espera de uma vaga na enfermaria.

A médica chefe da ala psiquiátrica colhe o depoimento da equipe. Todos satisfeitos em dar informações precisas a respeito da ocorrência.

Um dos socorristas deixa a bolsa do rapaz cair no chão. Ao juntar as coisas, o desastrado encontra um papel com timbre da prefeitura.

Ela apanha o documento. Após a leitura, vira-se para eles. Incrédula.

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