11:38O Episódio

por Fernando Muniz 

Levanta-se cedo e busca um copo d´água em cima do criado-mudo; três Martinis com as amigas, depois de tanto tempo sem beber, cobram tributo.

“Filha, vamos!”. Bate uma preocupação; a caçula vai ficar sozinha, enquanto for levar a mais velha à escola. Normalmente o marido está em casa; hoje não.

No retorno, sente-se estranha. Pensa ser pela falta do café-da-manhã. Mas com o marido em viagem, a mãe fora do país e os irmãos em outras cidades, dá uma coisa ruim, tipo o que sentiu certa vez ao viajar de avião. Não; é o que já sentiu várias vezes, ao viajar de avião. E ao beber. De dar um colapso ali no sinal vermelho, entre um carro importado e a Kombi da frutaria e tudo acabar. De vez. Sem ninguém para acudi-la.

Começa a suar frio. Pega o celular e pensa em ligar para Juju. Não, não, mesmo sendo sua melhor amiga. Muito cedo. Médicos não têm horário; mais conveniente. Liga para o Fabio, amigo psiquiatra, a quem apela quando vai viajar. Mas nem são oito ainda e o homem atende em consultório; tem uma vida regular. Chega em casa e resolve tomar um banho.

Sai do banho e busca o celular. Dane-se o horário; psiquiatras resolvem crises psiquiátricas, afinal. Mas antes de discar resolve tomar outro banho. Para passar o tempo e a ansiedade. Vai que o ataque desaparece.

Onde o marido está mesmo? É longe. Resolve ligar; para pedir socorro, apesar de ele estar a três mil quilômetros de casa e com seis horas de fuso. Duas da madrugada lá; melhor procurar a Juju. Ou não. Começa a suar frio. Manda uma mensagem de voz ao Fabio.

“Tô tendo um ataque de pânico! Mas só de falar com você acho que já passou”. Dá vontade de tomar outro banho.

Fabio demora uns dois minutos e responde. “Rivotril. Tem em casa?”. O sujeito é tão bacana, mas o que responder ante uma pergunta dessas? Por que o procuraria se tivesse?

“Vou deixar a receita no consultório. Fale com a Célia, minha secretária, que ela organiza para você a entrega. Melhor você não dirigir. Que tal tomar um banho? Isso acalma”.

Toca o telefone de casa. “Célia?”

Juju, que nunca liga antes do meio-dia, resolve ligar mais cedo.

“Oi Mari”.

“Menina, deve ser alguma vibração cósmica!”

“Por quê?!”

“Você me ligar!”

“Sério? Nunca pensei nisso. É… é que eu acho que esqueci a minha carteira na tua bolsa. Dá para você dar uma olhadinha?”.

“Venha já aqui!”

“Nossa!”

“Agora! Tô passando mal! Muito mal! Vou morrer!”

“Ai meu deus!”

A caçula acorda. De mau humor. Mas se assusta ao ver a mãe, só de roupão, cabelo desgrenhado após tantos banhos, celular em punho e um ar desolado. “Que que aconteceu, mãe?”. Leva um raspe e começa a reclamar.

Juju chega, espavorida. E esbugalha os olhos. Não sabe se fica em pé ou se senta ao encontrar a mesma pessoa que, horas atrás, de salto alto e batom vermelho, tomava um Martini atrás do outro, feliz da vida, empoderada.

Resolvem dar uma volta no condomínio. O dia, horrível, cinzento e frio, deixa qualquer um depressivo. No caminho Juju tenta dar um abraço na enferma.

“Não pegue em mim, não pegue em mim! Piora o meu pânico!” Mas combinam andar de braços dados. Passam por vizinhos e seus cachorros. Dão meia-volta quando veem se aproximar uma senhora simpática, que mora ao lado da Mari, com suas galochas e empunhando equipamentos de jardinagem. O que dizer a alguém tão feliz e de bem com a vida?

Toca o celular. É a Célia. “Dona Mari, olha só, o motoboy não pode levar o remédio. Vai levar a receita até você, ok? Você tem alguém pra pedir que busque o remédio na farmácia?” Cai a ligação.

“Vamos”.

“Pra onde?!”

“Encontrar um motoboy”.

“Quê?!”.

Mesmo em pânico, Mari liga para a empresa de entregas e não descansa até conseguir falar com o motoboy designado para a entrega. Detalha todos os aspectos da tarefa, anota o telefone dele, número da placa da moto, explica como ele deve fazer para sair de onde está e chegar à farmácia e faz com que o infeliz memorize o trajeto.

“É nóis, fia. Tá tudo dominado”.

“O que você deve fazer ao cruzar o viaduto mesmo? Cuide com o sinaleiro! Ali costuma dar congestionamento. E fure o sinal se for o caso! Estou no meio de uma crise do pânico!”.

Juju se espanta. “Nossa, você consegue pensar em tudo, bem melhor do que eu!”. Mari olha fixo para a amiga; desconfia que ela não tenha condições de ajudar em coisa alguma. Mas, com as chaves na mão, Juju abre a porta do carro.

“Quer que eu dirija?” Mari começa a achar que não foi uma boa ideia sair de casa. Tudo tão grande ao seu redor; tão cinza.

“Imagina! Quem está com ataque é você”.

“Juju, touxe a bolsa?”.

“Ichi, esqueci na tua casa!”

Tentam se concentrar no trânsito, mas avançam o sinal vermelho no primeiro cruzamento.

Na farmácia, a atendente resiste em vender o remédio. Analisa a prescrição, frente e verso, entra na internet para ver se o médico existe mesmo e inspeciona aquelas duas, uma de olhos esbugalhados e outra de robe e cabelos em pé. Alguma coisa não está certa. “Só um momentinho”. Vai atrás da farmacêutica de plantão, em busca de aconselhamento.

“Pode vender, não se preocupe. Os tarja-preta são pra gente assim mesmo. Cada tipo que aparece… Dia desses apareceu um velho chupando o dedão, feito criança. Parecia um tarado”.

Mari, com a caixa nas mãos, sente-se calma. Talvez nem seja o caso de tomar. Vem à mente o marido, que a critica toda vez que tenta se socorrer com remédios. Busca um espelho na bolsa e leva um susto. “Juju, sua louca! Como você me deixou sair assim?”.

Chegam em casa; o almoço está quase pronto. Juju não percebe, mas estaciona o carro na casa vizinha, em cima das flores que a senhorinha simpática acabara de plantar. Não sabe se ri ou chora, se vai à floricultura atrás das plantas que destruiu ou se continua com a Mari, ou, mesmo, se almoça ali ou se pede ajuda à mãe para buscar seus filhos na escola.

Mari dá um sorriso e abraça a amiga.

“Quer um Rivotril, querida?”.

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