7:45O eleitor está com a palavra

por Ivan Schmidt 

Nove entre 10 eleitores curitibanos (ou seriam 11?), já não têm qualquer dúvida quanto à eleição do candidato Rafael Greca para o cargo de prefeito da capital, com base na pesquisa Ibope divulgada no início da semana, apesar das tentativas de sustar a divulgação dos índices apurados pelas coligações lideradas pelos candidatos Gustavo Fruet e Ney Leprevost.

Greca puxa a fila com inacreditáveis 45%, registrando o crescimento de 17 pontos percentuais em relação à pesquisa anterior, aparecendo a seguir Fruet (16%), Requião Filho (8%) e Leprevost (6%). A soma das intenções desses três candidatos é ainda 15 pontos menor que a do ex-prefeito, deputado e ministro, que por mais que se esforce não consegue sequer definir o vulto do segundo colocado na corrida. Para muitos a fatura será liquidada já no dia 2 de outubro com a dispensa do segundo turno, eventualidade em que Greca ganharia de qualquer adversário.

O dado instigante dessa eleição – sobre o qual os analistas decerto vão se debruçar – não é outro senão a ressurreição política do engenheiro Rafael Greca, ele que na eleição passada para a prefeitura Curitiba, quando contou com o apoio ostensivo do senador Roberto Requião e de seu partido, o PMDB, foi literalmente esquecido pelo eleitorado da mesma cidade que ele jura amar de paixão.

A saga da contínua evasão de votos da cornucópia de Requião ganhou melancólica relevância em 2016, e seu demonstrativo aparece na trajetória subitamente inversa do bom desempenho inicial de Requião Filho, que despencou dos 16% da pesquisa anterior para os 8% da atual, votos que obviamente lhe foram tirados pelo recriador da nau capitânea da frota de Pedro Álvares Cabral, nas comemorações dos 500 anos do descobrimento. Não custa lembrar que a réplica de tão mal feita foi a pique.

Muito mais que a pouca vivência política de Requião Filho, o estrago feito em seu estoque de votos poderá ser atribuído ao ocaso eleitoral do pai, tristemente evidenciado pela visão maniqueísta em defesa da presidente Dilma Rousseff e da clamorosa falácia ideológica do socialismo bolivariano do século 21, hoje reduzido a um quadro de fome e desespero para milhões de venezuelanos.

Uma explicação para a derrocada eleitoral sofrida pelo jovem deputado estadual pode estar no fato de que o cidadão das camadas médias da população curitibana é, em termos de política, um conservador de carteirinha. A observação também pode explicar a pálida performance do prefeito Gustavo Fruet, que caiu de 19% para os atuais 16%, votos a meu ver capturados também por Rafael, justamente o nome que seduziu a maioria dos eleitores que – é da tradição – também já votou em políticos da extração de Plínio Salgado, Ademar de Barros e Afif Domingos, entre outros.

A campanha de Greca foi calcada nas realizações da primeira gestão na prefeitura de Curitiba, nos anos 90, onde chegou como candidato imbatível graças ao cinematográfico carisma do então prefeito Jaime Lerner, homem que dominava o marketing como sua prancheta de urbanista, cuja força foi suficiente para eleger por dois mandatos outro de seus assessores, o insosso tecnocrata Cássio Taniguchi. Ora, se o primeiro mandato de Greca na prefeitura foi tudo aquilo o que ele anda dizendo, por que não foi eleito há quatro anos?

Há quem diga que o povo não mais acredita em palavra de político, mas não é bem assim. O favorito na corrida para a prefeitura de Curitiba está na política desde os anos 80 do século passado, tendo estreado como um dos inúmeros luas pretas que se tornaram “coordenadores” da campanha de Saul Raiz ao governo do Paraná, embora a vitória tivesse sido de José Richa.

Logo depois chegaria à Câmara Municipal, Assembleia Legislativa, prefeitura e Câmara dos Deputados, figurando também no primeiro ministério de Fernando Henrique Cardoso.

Então, fica no ar a pergunta: Greca será o prefeito de Curitiba de 2017 a 2020, por seus méritos próprios ou pelos defeitos e/ou inexperiência dos demais candidatos?

A última palavra é do eleitor. Que seja clara e democrática.

6 ideias sobre “O eleitor está com a palavra

  1. Wilson Portes

    Caro Ivan, por integrar a parcela de milhares de leitores de suas percucientes análises dos costumes e idiossincrasias da dita sociedade curitibana, concordo com suas últimas observações em gênero, número e grau.
    Tenho apenas uma breve, mas, indispensável corrigenda no início do seu texto, quando você escreve que a soma dos percentuais dos três menos pontuados candidatos é 15 vezes menor que a do líder da pesquisa (o certo é: 15 pontos a menos que a soma dos outros três)
    Como diria o Ibrahim Sued (só para os mais antigo:~”Sorry, periferia…)

  2. Estatística

    É tão mentiroso quanto sua circunferência. O candidato do Jaime Lerner para sucedê-lo era o Cássio e o Rafael atropelou a convenção do partido. Usou as idéias já desenvolvidas pelo IPPUC e deixou que o órgão definhasse. Abraçou-se ao Requião por este estar na crista da onda e passou a criticar seu criador. Falso como moeda de três centavos.
    O Gustavo sempre dá uma de traído pelos partidos. Queria ser prefeito pelo PMDB e o Rei indicou o cotonete. Queria ser senador e foi traído pelo Piá. Traiu a si mesmo quando colocou como vice uma candidata de um partido que até a véspera criticava.
    O Reizinho perdeu tudo pela boca do próprio pai, sobre quem é melhor nem comentar.
    O Ney não tem o menor carisma e está com aqueçe discursinho engana eleitor de candidato a deputado.
    Pelo jeito o melhor vai ser votar no Ademar: Dos males o menor.

  3. Ivan Schmidt

    Muito obrigado, Wilson, pela atenta correção da brutal diferença que o escriba (ruim de matemática e pior em estatística) apressadamente estabeleceu entre o primeiro e os três candidatos que o perseguem na corrida eleitoral. Valeu!

  4. joão pesado

    Começou errado já no primeiro parágrafo. Não vejo essa onda avassaladora e hegemônica que o articulista aponta. Pelo menos entre as pessoas que converso e nos ambientes que frequento está pau a pau. Se assim não fosse, como explicar o nervosismo da campanha do Greca?

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