6:29O drama da segunda idade

por João Pereira Coutinho

Meus pensamentos estão com Emile Ratelband, o aposentado holandês que não se conforma com a idade. O homem tem 69 anos. Mas sente-se com 49 –no corpo e na mente. Por que motivo não pode Emile alterar a sua certidão de nascimento?

O gesto, inofensivo para os outros, teria impacto salvífico na sua particular existência. As oportunidades de trabalho seriam mais generosas –apesar de tudo, existe uma diferença entre ser um profissional de meia-idade ou a caminho da terceira.

E, em matéria sentimental, ter 49 funcionaria como bônus. Pelo menos, no aplicativo de encontros Tinder, no qual o pessoal se comporta como no açougue: as carnes mais frescas têm mais sucesso comercial.

Emile Ratelband tem razão. Começo pelo óbvio, que não me canso de relembrar às plateias politicamente corretas: vivemos na era vitimária, em que todo mundo pode ser uma vítima em potência. Mulheres, gays, negros. Ou, então, homens, héteros, brancos –há sempre um motivo qualquer para chorar.

Nessa orgia de dor, só os velhos parecem excluídos da comiseração universal. O que não deixa de ser injusto: os velhos são as vítimas reais da era contemporânea.

Numa cultura que celebra a velocidade, a juventude e a saúde com uma paixão patológica, os velhos são silenciosamente jogados para as margens da sociedade. A sociedade que trabalha. A sociedade que cria. A sociedade que se diverte.

É como se, a partir de uma certa idade, as pessoas deixassem de existir socialmente. Para quando cotas para os mais velhos –nas universidades, nas empresas, nos programas de televisão?

Mas Emile também tem razão quando compara a sua causa com todos aqueles que decidem mudar de gênero no registro.

Houve um tempo, hoje tido por arcaico, em que a biologia era determinante. Um homem ou uma mulher eram definidos pela configuração anatômica. Esse determinismo biológico ignorava, quando não desprezava, a subjetividade do indivíduo em matéria sexual.

O mesmo ocorre com Emile. Biologicamente, ele beira os 70. Mas, subjetivamente, ele sente-se com menos 20 anos. Devemos permitir que a tirania fisiológica tenha a última palavra na definição da nossa idade?

Penso que não. E, falando de Emile, falo também de mim próprio. Embora, no meu caso, a luta seja a inversa. Tenho 42. Sinto-me com 72. Quando falo com o meu advogado sobre o assunto, ele nunca me leva a sério. “O que você quer é receber dinheiro sem trabalhar.”

Protesto e digo que não. Ou, melhor, digo que sim. Mas apenas porque é justo: se tenho 72 anos subjetivos, e se em Portugal é possível pedir a aposentadoria aos 67, sinto que o Estado já me deve cinco anos.

Mas a questão não é apenas subjetiva; é real e cotidiana. As especialidades médicas que frequento começam na letra A (de alergologia) e terminam na R (de reumatologia). Minto: já fui ao U (de urologia; probleminha sem importância) e o médico, um péssimo piadista, despediu-se de mim com um “adeus, até à próstata!”.

Tenho exames médicos que são usualmente confundidos com os exames do meu avô. A minha dentição já não é a original.

E, sobre os hábitos de vida, aqui fica um dia típico: acordo às 10h; começo a mexer-me às 10h30; consigo levantar-me da cama às 11h; regresso para a cama às 12h depois do exercício (pilates em banho de imersão).

O almoço é ligeiro, quase sempre à base de líquidos (escoceses e irlandeses). Finalmente, sesta.

Quando acordo, leio, escrevo e converso (tudo sozinho). Só então desligo o aparelho auditivo para reuniões com os meus credores.

O jantar, usualmente excessivo, é em casa. Exercícios de reanimação também. Estou no sarcófago antes das 12 badaladas.

Será que tudo isso tem validade em tribunal? Espero que sim –e tenho a família, ou a parte dela que não levei à loucura, pronta para testemunhar.

Se, apesar de tudo, nenhum juiz se comover com o meu caso, só vejo uma saída: permuta de identidade. Que o mesmo é dizer: o holandês fica com a minha falsa juventude e eu não me importo de ficar com a idade dele e as benesses correspondentes.

Só não garanto que a minha identidade fará sucesso no mercado de trabalho: tenho uma fama que me precede e só o mundo das letras seria capaz de tolerar uma existência tão horizontal.

Sobre o Tinder, avança sem medo, Emile. Se for preciso, fazemos um primeiro encontro a três: você, a moça e o meu urologista para apoiar.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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