6:05O coração do Brasil

por Ivan Schmidt

Não foram muitos os romancistas brasileiros (todos do século passado) que deixaram obras de interpretação da vida nacional, a exemplo de João Guimarães Rosa (Grande sertão: veredas), Érico Veríssimo (O tempo e o vento), João Ubaldo Ribeiro (Viva o povo brasileiro) e Antonio Callado (Quarup).

Callado, um dos melhores repórteres brasileiros da segunda metade do século 20, trabalhou nos jornais cariocas Correio da Manhã e Jornal do Brasil e, por vários anos durante a Segunda Guerra Mundial, atuou nas emissões em português da BBC de Londres. Cobriu também a Guerra do Vietnã para o Jornal do Brasil, antes de dedicar-se quase inteiramente à carreira de romancista com o lançamento de Ascensão de Salviano, Sempreviva, A madona de cedro, Expedição Montaigne, Reflexos do baile (que considerava seu melhor trabalho) e outros sucessos.

Mesmo restritos ao campo da ficção, mas nem por isso prejudicados na intenção de explicar o Brasil para principiantes, os quatro romances nomeados acima devem pouco a outras obras de interpretação redigidas com base nos saberes acumulados pelas ciências da antropologia, sociologia e política, tais como Os sertões (Euclides da Cunha), Casa Grande&Senzala (Gilberto Freire) e Raízes do Brasil (Sérgio Buarque de Holanda), para ficar com os clássicos.

Publicado em 1967 pela Nova Fronteira (RJ), Quarup completa 50 anos de circulação ininterrupta em 2017, o que se comprova pelas inúmeras edições tiradas ao longo do tempo e a reedição da obra completa de Antonio Callado que faria 100 anos em 26 de janeiro passado, ele que nasceu em 1917 (Niterói) e morreu em 1997, aos 80 anos, no Rio de Janeiro.

A todos esses romancistas (e a Antonio Callado em particular) deve-se o tributo específico de reconhecer os dons premonitórios que perpassam a obra romanesca, com alguns vislumbres verdadeiramente proféticos, como a chegada dos personagens da trama ao ponto exato em que deveriam fincar o marco referente ao centro geográfico do Brasil, a 10 graus e 20 minutos ao sul do Equador e 53 graus e 12 minutos a oeste do Meridiano de Greenwich, nos confins da mata ainda intocada do Xingu.

Diga-se de passagem que o romance Quarup, um ritual fúnebre das tribos do Brasil Central, pretende contar a história das décadas de 50 e 60, melhor dizendo, aquele período marcado pelos episódios do suicídio do então presidente Getúlio Vargas, em 1954, e o golpe militar que seria deflagrado 10 anos depois, em 1964.

Um dado curioso dessa visão premonitória é que o romance foi publicado em 1967, um ano antes da promulgação do Ato Institucional nº 5, o ditado castrense que deu corpo, espírito e alma à ditadura militar no país.

Nando, um dos protagonistas do romance é um padre que abandona os votos sacerdotais para viver entre os índios do Xingu sonhando com uma sociedade igualitária, mas acaba sendo atraído para a luta armada contra o regime de exceção, como o fizeram muitos da geração do próprio Antonio Callado.

Voltando à epopeia da localização do centro geográfico, numa alusão à expedição dos irmãos Villas-Bôas ao Brasil Central no início dos anos 40 (a Roncador-Xingu), o grupo descrito por Antonio Callado chega ao ponto culminante e descobre, atônito, que o local está totalmente tomado por um imenso formigueiro de saúvas, fato que acaba exacerbando a imaginação etílica de Fontoura, experimentado sertanista que sonhou a vida inteira com esse momento, e que com o ouvido colado no chão e já coberto pelas formigas vorazes, revela escutar o bater surdo do coração propriamente dito da terra brasileira, numa das passagens mais impressionantes da narrativa. Pouco depois ele morre.

O coração do Brasil transformado num formidável viveiro de saúvas é uma imagem perfeita do sentimento do autor do romance, que infelizmente não viveu para testemunhar o estado de podridão que assola a política brasileira.

Mas é quase certo que ao escrever o romance deverá ter rememorado a constatação do naturalista francês Auguste de Saint-Hilaire, que palmilhou grande parte do nosso território nos idos de 1820, registrando criteriosamente suas impressões de viagem.

E se transformando no autor de uma frase candente e ainda hoje crucial: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”, frase que anos mais tarde o romancista Lima Barreto colocaria na boca de um dos personagens aparecidos em Policarpo Quaresma.

Não se sabe se a liberdade literária de Callado o levou a fazer uma referência exclusiva às formigas. Tendo em vista a inexistência desse dado biográfico, coloco-me entre os que acreditam piamente que para além da mera coincidência, o autor estava pensando, mesmo por tabela, na qualidade moral de grande parcela de políticos nacionais.

Quando o padrão ia ser fincado no ponto em que se encontravam as coordenadas do centro geográfico, numa espécie de grande depressão do terreno, o encarregado do serviço deu um urro e saiu sapateando e berrando: “Formiga. Isto é o maior panelão de saúva do Brasil”.

Callado escreveu com irresistível senso de humor: “E de longe se viam as formigas despertadas pelo movimento das pessoas, pela fixação do padrão, milhares, milhões de saúvas, como se os grãos de terra do mundo tivessem começado a andar transformados em içá, sabitu, tanajura”.

Os membros da expedição viram-se compelidos a bater em retirada, pois a impressão era a de estar diante do buraco que “fornece formiga ao resto do Brasil”.

Sem forçar a barra e fazendo inteira justiça aos premonitórios Saint-Hilaire, Lima Barreto e Antonio Callado, do exato local do centro geográfico do Brasil, as saúvas se espalharam por todo o território e, a essa altura, fazendo uma concessão ao imaginário ou ao emblemático, o observador se depara com uma concentração da espécie mais destruidora das temíveis saúvas em Brasília, a capital federal, situada a 15º47’38’’S e 47º52’58’’O.

Convenhamos, num ponto não muito distante do centro geográfico brasileiro hoje fixado no município de Peixoto de Azevedo, no Estado de Mato Grosso, vizinho ao Tocantins, alcançado depois de pequeno deslocamento na direção leste.

Do gênero Atta e da família dos formicídeos, a popular formiga saúva é conhecida em mais de 200 espécies disseminadas nos países ocidentais e predominantes nas regiões neotropicais, como as selvas brasileiras.

A saúva brasiliense normalmente vestida de terno e gravata, cabelos empastados de gel e sapatos bem lustrados, não mais anda picando e carregando sobre o resistente costado quitinoso fragmentos de grama e capim. Prefere os ministérios e seus inesgotáveis cabides de empregos, as duas casas do Congresso e os tribunais superiores e repartições da República que oferecem milhares de postos de trabalho muito bem remunerados com a garantia da vitaliciedade. Onde se podem pendurar parentes, áulicos e bajuladores.

Como se percebe há muitos anos, a saúva característica do cerrado adora se lambuzar com o fermento da Babilônia, no dizer apocalíptico “a mãe de todas as prostituições”, de uns tempos para cá transplantada para o Planalto Central, ou seja, a inescrupulosa promiscuidade entre o público e o privado.

Isto se perpetra sob o interesse pecuniário da nova ordem dirigente encarnada na estrutura organizacional das megaempresas da construção pesada, que chegaram a criar departamentos de propina (as gongóricas ações estruturais) a fim de dividir os zilhões que faturam (ou faturavam) sem o menor constrangimento de articular verdadeiras quadrilhas para repartir com o exército de facínoras úteis que juram inocência, o farto butim que escorre para seus cofres.

Ausente da literatura brasileira da atualidade, a intenção de interpretar o Brasil como fizeram Callado, Veríssimo, Rosa e João Ubaldo, enveredou pela trilha da ciência política, sendo muitas as opções de leitura (algumas superficiais e oportunistas) sobre os governos de Lula e Dilma e, mais recentemente, sobre a devassa realizada pela Operação Lava Jato e o juiz Sergio Moro.

Em outro tempo também desafiador para o país, a vigência do golpe de 1964, parte da intelectualidade se dispôs a enfrentar o risco de explicar o Brasil. O romance de Antonio Callado, 50 anos depois é lido como um épico porque mostra a luta de alguns idealistas contra o arbítrio e o mandonismo, pela reconquista das liberdades políticas e da igualdade de direitos especialmente pelos mais pobres.

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