6:49Na padaria, desconcertante

por Sérgio Brandão

A voz era de uma senhora sentada atrás de mim, reclamando da vida. Uma voz forte, um pouco grossa e de um volume não muito comum. Uns decibéis a mais. Eu estava comendo um sanduíche numa padaria. 

Fiquei o tempo todo de costas,  tentando imaginar seu rosto. Resisti não olhando.

Lanche terminado, chegamos juntos na fila para pagar a conta. Ela ficou à minha frente. Cabelo desgrenhado, provavelmente com alguns dias sem ver um pente, morena, alta, calça jeans, uma blusa creme bem justa que revelava mais da metade de uma barriga bem avantajada. Calculei uns 50 anos de idade, mas bem judiada. 

Na fila, trocou as reclamações que fazia da vida. Passou a reclamar da Europa. 

Não havia ninguém junto com ela. Elegia alguém na fila ou quem ainda estivesse sentado e atacava. Mirava no fundo do olho da vítima e, sem tomar fôlego, disparava. Não adiantava fazer de conta que a conversa não era com você. Ela falava mais alto ainda quando desprezada, até que a vítima  olhasse para ela e dissesse algo. 

Em alguns casos ela se contentou com um meio sorriso. 

Claro que lá pelas tantas simpatizou comigo, mas antes passou pela menina do caixa e a responsabilizou pela crise financeira da Europa. Então, pude perceber que não se tratava de conversa para ser jogada fora. Com a menina ela falou sobre a dívida pública da Espanha , cheia de argumentos. Chegou até a repercutir alguns temas que ganharam destaque recentemente. Percebi que ela oscilava entre lucidez e momentos de alucinações.

Não demorou muito e perguntou se eu conhecia a Europa?  Achei que ia engatar a conversa da dívida espanhola novamente, mas me derrubou com uma outra conversa. A bola da vez passou a ser o  marido dela. “Um verdadeiro canalha”  – disse ela. Tão canalha que nem um lanche miserável destes ele é capaz de me pagar. Virou pra mim e disse apontando o dedo:  “Você que não é canalha e nem meu marido, pode pagar o que consumi?”  

A cena foi tão absurda, inesperada e tão bem amarrada por ela, que silenciou a padaria inteira. Todos ficaram me olhando. Fiquei me sentindo o marido canalha por alguns instantes, mas a situação e a construção de tudo foi tão envolvente que comecei a rir. Junto comigo todo o restaurante também achou graça – mas do meu constrangimento. 

Firme, ela continuou me olhando, esperando uma resposta. Por alguns segundos conseguiu tirar toda a atenção que estava nela e passou pra mim, tudo muito rapidamente. 

Pelo inusitado, ainda dei uma olhada de canto de olho para ver se não tinha nenhuma câmera escondida. Me passou pela cabeça uma destas cenas de pegadinha no Faustão ou Silvio Santos. Eu não queria ser vítima de um golpe. Mas que golpe? Um simples lanche, pensei. Tudo isso deve ter levado uns 15 segundos. Até que respondi que sim, pagaria o lanche. Ela abre um meio sorriso, vem até onde estou, me entrega a comanda, agradece, me deseja uma boa tarde e sai. 

O mico custou 8 reais e 10 centavos. Tenho passado sempre por este lugar. Nunca vi esta mulher, ninguém sabe quem é.

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