9:15Meu pai

por Sergio Brandão

Passei anos vendo meu pai chegar do trabalho e, depois de uma cachaça, ir direto pro banho. Passava o dia todo fora.

Saía do banheiro de pijama. A expressão era de missão cumprida. Tava na cara que aquele era o melhor lugar do mundo, de onde só saía porque precisava. Voltar era glorioso.

Se não estivessem todos em casa, perguntava de um por um, como uma chamada.

Sua janta era café e pão. Cortava o pão francês em quatro pedaço de tiras longas. Gostava de molhar o pão no café. Aproximava a boca da xícara para não respingar pela mesa e no pijama.

Nos dias frios, encerrava a primeira parte do ritual fumando um cigarrinho na ponta da mesa. Em dias quentes ia pra porta da cozinha. Com uma das mãos se apoiava no caixilho. Aquele cigarro era devorado em tragadas longas. A expressão de prazer o acompanhava até a sala onde sentava nas cadeiras da mesa de jantar. Abria mão do sofá. Dizia que dava sono mais cedo.

Se estivesse lendo algo, voltaria para a cozinha onde terminaria a noite. Se não, ficava na sala, com a TV, se passasse um bom filme. Fugia de novela.

Às vezes gostava de ficar na janela do quarto dele que dava para a rua. Se divertia com um vizinho que gastava a embreagem e mais de meia hora pra tirar um Fusca da garagem.

Hoje, cheguei da rua e fui direto pro banho. Saí de pijama e fui jantar. Não tomei café e nem cortei pão em longas tiras, mas me deu uma enorme saudades dele.

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