11:56Méritos escassos ao PT

por Dirceu Pio

Ao retornar do exílio em 1976, o antropólogo Darcy Ribeiro, talvez o último intelectual realmente de esquerda deste país, disse, em entrevista, que no Brasil as elites nunca permitiram que se desse, de graça, um só palmo de terra para quem quisesse trabalhar.
“Nos Estados Unidos, comparou ele, na fase da colonização, aqueles homens que conseguiam se manter na terra, defendendo-a do ataque de índios e outros invasores, recebiam mais tarde o titulo de propriedade do governo”.
Em 12 anos, o PT não conseguiu derrubar “esse paradigma”. Até o lote da reforma agrária é vendido; é pago em suaves prestações, mas não vai de graça.
Aliás, o PT fez menos Reforma Agrária em 12 anos que FHC em oito. Os números estão no Google, ali reunidos pelo Grupo de Estudos Americanista Cipriano Barata: Dilma Rousseff desapropriou 186 imóveis, num total de 342.503 hectares, incorporou 2.540.772 hectares à reforma agrária e assentou 75.335 famílias. É um resultado pífio quando os números são comparados com os governos Lula (1.987 imóveis, 48.291.182 hectares e 614.088 famílias assentadas) e Fernando Henrique Cardoso (3.539 imóveis, 21.129.935 hectares e 540.704 famílias assentadas).”
Além de fazer menos reforma agrária que o PSDB, o PT permitiu que a concentração fundiária continuasse a galope. Dilma, ao que parece, tinha um acerto de bastidor com o agronegócio: nomeou a presidente da CNA – Confederação Nacional da Agricultura – Katia Abreu, sua ministra da Agricultura e deixou o seu ministro do Desenvolvimento Agrário, o esquerdola Patrus Ananias, a ver navios. Enquanto Ananias pregava a derrubada das cercas do latifúndio, Katia Abreu dizia que nem latifúndio existe mais no Brasil.
No Governo Lula, de 2003 a 2010, as grandes propriedades saltaram de 214, 8 milhões para nada menos de 318 milhões de hectares, ou seja, um aumento de 114 milhões de hectares em menos de oito anos. E o MST falava grosso e já ameaçava incendiar o país.

APROVEITAR HERANÇAS

Embora o PT, muitas vezes, finge que faz mas não faz, como no caso da reforma agrária, não podemos imitá-lo no que ele tem de pior – negar heranças positivas de governos anteriores.
Aquilo que o PT nos deixa de bom, tem de ser continuado, incorporado pela sociedade,  sem a preocupação de que digam “isso é coisa deles, dos petistas”.
Apesar da roubalheira, do descalabro administrativo, o PT  nos deixa muitas coisas decentes e importantes, a começar pela preocupação em ampliar as políticas de combate à fome e oferecer um pé de apoio às famílias atiradas com crueldade na vala  da miséria absoluta.
Pensado pelo PT, inicialmente, como um mecanismo  eleitoreiro, o Bolsa Família pode ser entendido hoje como um instrumento efetivo de promoção social.
A reação ao programa sempre foi muito forte por aqueles que não suportam a ideia que uma família pode ganhar um pequeno soldo mensal sem trabalhar.
Quem se aferra à ideia de que só o trabalho merece remuneração, nunca enxergou o movimento, forte, que chegou a ultrapassar três milhões de pessoas cadastradas que se afastaram, voluntariamente, do Bolsa Família por entender que já haviam superado a condição de miséria extrema.
Fez bem o PT em manter o programa a ferro e fogo até que, ao que parece, fosse apropriado pela sociedade.

MAIS MÉDICOS

Outra boa herança, surgida recentemente no governo Dilma Rousseff, está na ideia de suprir na rede pública a falta de médicos em regiões inóspitas através da contratação de profissionais de qualquer parte do mundo.
Houve e continua a haver forte reação corporativista à ideia e, presumivelmente, se não fosse a determinação petista, teria morrido antes de germinar.
A reação é compreensível: o ensino da Medicina no Brasil passa por já antigo desvirtuamento, visível pelo excesso de especialização e pela falta de médicos generalistas. Na grande maioria, os jovens correm atrás do diploma pensando em ganhar dinheiro.
Com o diploma na mão, se concentram nas cidades mais ricas. Não querem se aventurar, deixar a zona de conforto.
Que venham de Cuba ou da Eritréia, o importante é que aceitem residir e trabalhar nos confins do Brasil. Dentro desse espírito, apoio e sempre apoiarei o Mais Médicos, sem achar, é claro, que isto seria suficiente para manter Dilma  Rousseff no cargo.

ACESSO À UNIVERSIDADE

Outra herança positiva do PT é o regime de cotas – raciais e sociais – para ingresso nas universidades públicas.
Ainda em 1997, segundo dados do Ministério da Educação, apenas 2,2% de pardos e 1,8% de negros entre 18 e 24 anos cursavam ou tinham concluído uma universidade no Brasil. Essa realidade sempre foi conhecida pelas elites dos partidos, mas todos pareciam presos à teoria do mérito, ou seja, as universidades estão aí, tenha mérito e entre.
Isto é algo parecido com a reação de quem desaprova o Bolsa Família: “Dinheiro, só para quem trabalha; acesso à universidade só para quem tem mérito”.
O PT enfrentou as reações e implantou a lei das cotas em 2012. Segundo o Movimento Consciência Negra, em 3 anos, 150 mil negros ingressaram em universidades pelo regime de cotas.
Hoje, já se diz que o regime de cotas deu certo no Brasil.

POLÍTICAS INDÍGENAS

É preciso, entretanto, muito cuidado com a mentira e empulhação na hora de contar os méritos do PT.
O partido sempre passou a ideia, por exemplo, de que foi imbatível na demarcação de terras indígenas.
Fernando Henrique Cardozo desmentiu essa versão em artigo no Facebook em junho de 2013: seu governo demarcou 35,3 milhões de hectares, contra apenas 13,3  milhões demarcados por Lula e apenas 6 milhões demarcados por Dilma Rousseff, até então.
Mais de dois anos após  publicado, o artigo de FHC não foi desmentido.

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