16:28Mario Filho, o criador de multidões

por Nelson Rodrigues

Há seis anos morria Mario Filho. Há seis anos, batia o telefone. Eram quatro horas da manhã. Portanto, há seis anos, e às quatro horas da manhã, morria Mario Filho. Eu queria dizer duas palavras sobre meu irmão (ainda bem que, em nosso idioma, duas palavras são duzentas, trezentas ou mil. Mil palavras). Imaginem que, dois ou três dias depois de sua morte, Manchete pediu-me para escrever sobre ele. Ora, por um mês, dois, três meses, tive uma obsessão fanática: falar dele e só dele. E ninguém precisaria pedir. Minha vontade era sair, de porta em porta, dizendo a amigos, conhecidos e até desconhecidos: “Mario Filho foi o único grande homem que eu conheci”. Minha sensação é que, diante dele, todos nós somos pequeninos como aqueles anões de Velásquez. Tivemos cinquenta anos de intimidade e, portanto, meio século de convivência exemplar e implacável.

Vou começar dizendo que Mario Filho foi de uma bondade desesperadora. Bom a cada minuto. Bom de uma bondade, que, por vezes, nos agredia e humilhava. Se ele aparecesse com um passarinho em cada ombro, não me admiraria nada, nada. Vejamos os seus retratos. Era uma cara feita de alegria. Grato à vida, nunca se arrependeu de ser humano, de ser nosso semelhante. A euforia de ter nascido o acompanhou por toda a vida. Era um ser atravessado de luz como um santo de vitral.

Meu Deus, eu gostaria de dar uma ideia da extensão, dinamismo e profundidade de sua obra. Mas antes preciso dizer que Mario Filho era um desses homens fluviais que nascem de raro em raro. Disse fluvial e explico: imaginem um rio que banhasse e fertilizasse várias gerações. Assim foi Mario Filho. Há mais de quarenta anos, não há, na crônica de todo o Brasil, vocação, não há talento que não tenha recebido a sua luz decisiva. Morreu e continuamos a viver das rendas do seu gênio

Hoje, eu e meus colegas andamos por aí, realizados, bem vestidos, temos automóveis, aos sábados frequentamos boates; passamos de fronte erguida e o nosso palpite tem a imodéstia do Juízo Final. Mas gostaria de perguntar: o que era e como era a crônica esportiva antes de Mario Filho? Simplesmente não era, simplesmente não existia. Sim, a crônica esportiva estava na sua pré-história, roendo pedra nas cavernas.

Não vejam impiedade nas minhas palavras, mas a simples e exata veracidade histórica. Bem me lembro do tempo em que comecei a escrever esporte. Meus companheiros de seção eram pobres-diabos, mais humilhados e mais ofendidos do que o Marmeladov de Crime e castigo. Um deles, quando ria ou sorria, mostrava uma antologia de focos dentários. Era costume, então, entre os clubes, oferecer um lanche à crônica. E o que nos fascinava não era o gol, ou pênalti, ou a vitória. Nada mais pungente e plangente do que a voracidade com que agredíamos os guaranás e os sanduíches.

Até que, um dia, Mario Filho apareceu. Pode-se datar o nascimento da nossa crônica esportiva. Foi quando ele publicou uma imensa entrevista com Marcos de Mendonça. O famoso goleiro, retirado há anos, anunciava a sua volta. O patético, porém, não era o fato em si, mas a sua escandalosa valorização jornalística. A matéria inundava um espaço jamais concedido ao futebol: meia página. Os nossos clássicos e as nossas peladas não mereciam mais que meia dúzia de linhas. E o pior era a linguagem da velha crônica. Mario Filho trouxe a palavra viva, úmida, suada. Naquele tempo, os estilistas da seção de esporte assim redigiam a notícia do grande jogo: “Será levado a efeito amanhã, às tantas horas, no aprazível field da rua Paissandu, o esperado prélio” etc. etc. E o cronista que alcançava esse nível julgava-se um Flaubert.

A entrevista de Mario Filho foi um duro impacto, sobretudo na linguagem. Ela saiu por volta de 1927. Em meia página, ele profanou o bom gosto vigente até em jornal de modinhas. Dir-se-ia um novo idioma atirado na cara do leitor. O público teria todo o direito de perguntar: “Mas que língua é essa?”. Mesmo os melhores jornalistas da época escreviam de fraque. No teatro, Leopoldo Fróis falava com sotaque lisboeta. A simplicidade era uma vergonha.

E não foi só. Havia também, no seu texto, uma visão inesperada do futebol e do craque, um tratamento lírico, dramático e humorístico que ninguém usara antes. Posso dizer que, desde então, ninguém influiu mais na imprensa brasileira. O próprio artigo de fundo deixou de ter a pose do mordomo de filme policial inglês. Como dizia o Raul Brandão, o pintor das igrejas e grã-finas: “A imprensa deixava de ser besta”. Mario Filho inventou uma nova distância entre o futebol e o público. Graças a ele, o leitor tornou-se tão próximo, tão íntimo do fato. E, nas reportagens seguintes, iria enriquecer o vocabulário da crônica de uma gíria irresistível. E, então, o futebol invadiu o recinto sagrado da primeira página. Bom tempo em que só o assassinato do Rei de Portugal merecia manchete. E, súbito, o grande jogo começou a aparecer, no alto da página, em oito colunas frenéticas.

Tudo mudou, tudo: títulos, subtítulos, legendas, clichês. Abria-se a página de esporte e lá vinha o soco visual: o crioulão do Flamengo enchendo a página. E não era a pose hirta. Mario Filho acabou com o craque perfilado. O jogador aparecia em pleno movimento, crispado no seu esforço. E as figuras plásticas, elásticas, davam às páginas tensão e dramatismo. E, com isso, o diretor, o secretário e o gerente descobriram o futebol e o respectivo profissional. O cronista esportivo começou a mudar até fisicamente. Por outro lado, seus ternos, gravatas e sapatos acompanharam a fulminante ascensão social e econômica. Sim, fomos profissionalizados por Mário Filho.

O rio continuou fazendo o seu curso generoso, umedecendo e fecundando a aridez do caminho. Mas não vou contar tudo o que ele fez, porque esse homem não parou nunca. Com seu formidável élan promocional, trouxe novas massas para o futebol. A geração do Maracanã não imagina como a multidão é, na cidade, um fenômeno recente. Vejam as fotografias do Rio antigo. O brasileiro andava só. Quando três sujeitos se juntavam, as instituições tremiam. Em nossos velhos campos de futebol, o público era ralo, era escasso. Eis o que eu queria dizer: Mario Filho foi, no futebol brasileiro, um criador de multidões.

Foi ele, e só ele o autor do Fla-Flu. Ora, o Fla-Flu, sem esta abreviação mágica, existia desde 1911, ou 12. Até que Mario Filho resolveu promover o velho clássico, tão velho que era anterior à Primeira Batalha do Marne, anterior ao fuzilamento de Mata-Hari. Preliminarmente, mudou o nome do clássico para Fla-Flu. Em seguida, montou todo um folclore fascinante sobre o jogo superconhecido e desgastado. Eram os mesmos clubes, as mesmas camisas, os mesmos jogadores. E, de repente, o Fla-Flu extroverteu todo o patético, todo o sortilégio que trazia no ventre. Senhoras, que não sabiam nem quem era a bola, compareciam ao jogo, magnetizadas pelo mito. A multidão do Fla-Flu é um milagre de Mario Filho.

Foi dirigir o Jornal dos Sports e continuou como chefe da página de esportes de O Globo. Neste último, escreveu sua famosa coluna “Da Primeira Fila”. A massa de figuras, de fatos, de ambientes, que ele dinamizou nas suas evocações, chega a ser inverossímil. Muitos escritos “Da Primeira Fila” tem o nível do melhor Hemingway.

No Jornal dos Sports e no O Globo fez toda a batalha do Maracanã. Queriam sepultar o estádio em Jacarepaguá. Ele percebeu o óbvio ululante, isto é, que Jacarepaguá era quase outro país, quase outro idioma. O Maracanã, hoje “Mario Filho”, foi uma de suas vitórias mais empolgantes. Criou a Copa Rio, um acontecimento de futebol mundial; o Rio-São Paulo, hoje “Roberto Gomes Pedrosa”. Um dia, trouxe os remadores de Cambridge e pôs, na Lagoa, meio milhão de pessoas. Criou “Os Jogos da Primavera”, “Os Jogos Infantis”, o “Torneio de Pelada”, com 16 mil jogadores. Era assim esse homem: com 57 anos, tinha a plenitude do infante dionisíaco. Muitas vezes eu o vi levantar-se de sua cadeira, no estádio. E sua presença inundava o Maracanã.

Amigos, o verdadeiro rosto é o último e repito: o rosto do morto não mente, não trai, não finge. Fui velar Mário Filho. Muitas vezes debrucei-me sobre ele. Jamais alguém teve, em vida, um rosto tão doce, tão compassivo, e tão irmão. E as duas mãos entrelaçadas e com que estremecido amor.

O maior estádio do mundo tem o seu nome. Pena é que não o tenham enterrado lá. Com o Maracanã por túmulo. Mario Filho mereceria que o velassem multidões imortais.

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