7:01Marasmo, desinteresse e apatia

por Ivan Schmidt 

Menos de 20 dias separam o cidadão habilitado a votar no primeiro turno das eleições para prefeituras e câmaras em todos os municípios do país. O governo militar passou as eleições (as permitidas, claro) para o dia 15 de novembro em homenagem à República, rompendo com a tradição do dia 3 de outubro, incorporado com a derrubada da ditadura de Getúlio Vargas em 1945 e obviamente inspirado nos ideais da Revolução de 30, que fora deflagrada no dia 3 de outubro daquele ano.

É possível que alguma alma bem-intencionada tenha sugerido a realização de eleições no dia de 3 de outubro, argumentando que o simbolismo da data tivesse um peso preponderante no processo da redemocratização brasileira, afinal uma quimera que estamos perseguindo até hoje.

Pois é, no próximo dia 2 de outubro (um domingo) os eleitores voltam às suas seções eleitorais para a escolha, pelo voto direto na urna eletrônica do prefeito e vereadores de suas cidades.

Para começar, e a constatação parece ser nacional, nunca de se viu uma campanha política tão desanimada e desanimadora quanto a atual, que, aliás, foi abreviada para o alívio de muita gente que não mais suporta a empáfia e a ubiquidade de certos candidatos. Um dado positivo é que esses foram obrigados a buscar o corpo a corpo com os eleitores, tanto pela diminuição do espaço no radio e na televisão, quanto pela escassez de recursos financeiros necessários para o custeio do componente mais oneroso na contabilidade das campanhas.

Por um lado, isso trouxe uma grande vantagem para o próprio eleitor, que não mais será engambelado a votar no candidato com mais dinheiro para contratar os melhores marqueteiros e publicitários. Exemplo dessa prática foi visível na campanha do banqueiro paranaense José Eduardo Andrade Vieira para o Senado, quando o candidato foi apresentado ao eleitor como uma espécie de super-heroi, que só tirava o chapéu estilo Stetson da cabeça para arremessá-lo ao sortudo que o apanhava no meio da plateia de seus comícios.

Tudo bem, já se passaram vários anos e Andrade Vieira não mais está entre os vivos, mas a pergunta ainda faz algum sentido: “Alguém é capaz de lembrar alguma declaração do candidato em suas andanças pelo Paraná, a não ser aquele enorme chapéu branco voando pelo ar?”.

A fim de poupar a paciência dos leitores nem vou fazer referência às espetaculosas campanhas televisivas dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff, aliás, motivos de sobra para incrementar a preocupação de ambos com a probabilidade de serem chamados a se explicar perante a Justiça.

Em Curitiba a impressão colhida da campanha eleitoral é a de marasmo, desinteresse e apatia do eleitor, diante da falta de expressão política da maioria dos candidatos a prefeito. Despontam como favoritos o ex-prefeito Rafael Greca, o atual Gustavo Fruet e o deputado estadual Requião Filho, nessa ordem. Segundo a última pesquisa do Ibope conhecida no dia 23 de agosto passado, Greca tinha 36% das intenções de voto, Gustavo 24% e Requião Filho 21%, configurando um segundo turno em que tanto Fruet quanto Requião poderiam vir a ser o adversário direto de Greca.

Mas, além disso, não há surpresa na constatação de que os dois primeiros colocados somam exatamente 60% das intenções de voto da população, tornando mais uma vez evidente a exibição do matiz conservador da maioria absoluta dos eleitores. Outro fator a ser levado em consideração pelos analistas é o fraco desempenho do candidato Ney Leprevost (PSD), para quem não surtiu o efeito esperado o apoio de Ratinho Junior, indicando na pior das hipóteses que seu alardeado potencial de votos minguou.

O Ibope anuncia para essa segunda-feira (19) uma nova rodada de pesquisa em Curitiba, que a depender dos índices apurados certamente funcionará como uma espécie de divisor das águas da atual campanha. Faltando pouco tempo para a eleição, esse será o momento de avaliar com mais propriedade quem dispõe de mais balas na agulha ou garrafas vazias para vender.

Convenhamos que a grande surpresa está sendo o desempenho de Maurício Requião, filho do senador Roberto Requião, fato que leva muitos observadores a supor que índice tão convincente de intenções é decorrente da possibilidade real do eleitor não saber direito de quem se trata, se o pai ou o filho. Um arguto observador chegou a opinar que nessa querela só está faltando a presença da terceira pessoa, o Espírito Santo, cuja ausência pode ser compreendida pela conspícua atenção requerida por intere$$es outros na feérica Miami.

Por outro lado, percebe-se também que a tendência claramente demonstrada pelo eleitorado genuinamente conservador é o desejo da volta (essa palavra lhe sugere alguma coisa?) do modelo implantado pelo ex-prefeito Jaime Lerner. Um dos candidatos, exatamente o que está à frente nas pesquisas se propõe a fazer a viagem de volta, embora acuse seu oponente mais próximo, Gustavo Fruet, de falar de futuro, mas estar sempre olhando pelo retrovisor.

Ora, mesmo sem contar com o apoio pessoal de Lerner (de quem foi obsequioso pajem) a ponto de ser ungido como seu herdeiro na prefeitura Greca também está olhando para o passado, tanto que pretende “voltar” no tempo e no espaço para reconstruir uma cidade que consiga solucionar (não explica como fará isso), gravíssimos problemas sociais e econômicos como o desemprego, o gargalo do trânsito, a mobilidade urbana, o transporte de massa, a segurança e muitos outros hoje existentes.

O urbanista Rafael Greca ainda não revelou o que pensa sobre a carga excessiva de automóveis na cidade, atualmente habitada por 1,8 milhão de pessoas e congestionada por número quase equivalente (ou maior) de carros. Nesse aspecto, parece não ter prestado atenção a uma das últimas manifestações de Lerner sobre o assunto, em entrevista ao caderno “Eu&Fim de Semana” do jornal Valor Econômico (2.9.16).

Em resposta específica sobre carros, Lerner disse textualmente: “Não sou contra. Tenho um neto com carro que usa transporte público. O carro é o cigarro do futuro. Vinte anos atrás, quem imaginaria que seria proibido fumar em todos os recintos fechados? Imagina se na França, na Espanha, no Japão, as pessoas achariam isso possível. No entanto, aconteceu. Com o carro vai acontecer o mesmo. As cidades não se viabilizam mais com o uso do carro no dia a dia. Porque do jeito que está, circular passa a ser uma tortura”.

Admito que a questão crucial está em pensar numa cidade para os próximos 20 anos, pelo menos, e não na proposta inexequível de fazer a roda do tempo retroceder pelo mesmo período, como se fosse possível transformar as pessoas em personagens proustianos em busca do tempo perdido.

Fruet administrou a cidade (assim como os prefeitos de outras capitais e cidades maiores), deparando-se com uma gama de problemas que os antecessores no posto não conheceram. É preciso lembrar que o ufanismo ilimitado em torno das vantagens de Curitiba, que teve início com Jaime Lerner, atraiu milhares de novos habitantes para a cidade, assim como novos investimentos, posto que insuficientes para reduzir os sérios impactos da ocupação desordenada de áreas urbanas, saneamento ambiental, preservação do meio ambiente, mobilidade, habitação digna, empregos e escola, entre outros.

Todavia, um recurso abundante no arsenal dos que se lançam ao embate político, mas altamente oportunista, é lançar sobre o atual ocupante do cargo pretendido, nesse caso a prefeitura municipal, toda a responsabilidade pelas mazelas que brotaram como cogumelos nos últimos anos.

O cenário da campanha em Curitiba é típico. O prefeito está sendo responsabilizado pela extrema dificuldade das famílias que vivem na periferia, moradores de rua, pichações, uso de drogas, baixa escolaridade e falta de oportunidades de trabalho.

Na verdade, mesmo sem ter feito uma gestão marcada por projetos altissonantes e midiáticos, a exceção brasileira é Eduardo Paes, prefeito do Rio, que preparou a cidade a cavaleiro de copiosos investimentos privados para a Olimpíada, o prefeito Gustavo Fruet não se intimida diante dessas provocações e tem respostas plausíveis para as questões que lhe são apresentadas, sem atacar a honorabilidade dos oponentes.

Basta ter um mínimo de capacidade de raciocínio para entender que o prefeito não é um rei Midas, dotado do poder sobrenatural de transformar pedras em ouro.

Sereno e pragmático, um animal político que vive intensamente os desafios do aqui e agora, Gustavo mostrou mais de uma vez que se agiganta na luta política e tira forças de onde todos imaginam ser impossível. No primeiro domingo de outubro teremos a resposta.

 

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