8:06Liberdade, Liberdade

por Fernando Muniz 

        Primeiro abandonou o emprego. No momento em que os médicos começaram a rejeitar seus pedidos de licença, entendeu que era o fim. Pois seus males não eram físicos. Aquele monte de gente na repartição, uns a interferir na vida dos outros, o falatório sem fim, fuxicos, tudo aquilo agredia os seus nervos. Era um desgosto com esse mundo, entranhado em seus pensamentos, sufocante.

Sair de lá foi uma alforria. Não se continha no dia em que assinou a rescisão, com a perspectiva de nunca mais cruzar os portões daquele prédio cinza e mal cuidado.

A seguir, amigos e parentes se foram, seja pela morte ou distanciamento. Sumiram os convites para almoços, natais ou meros chás com as antigas colegas de escola. Isso também trouxe um alívio tremendo; adeus às convenções sociais e aos seus ritos. Principalmente, livrou-se da obrigação de repetir mesuras em eventos que, para ela, nunca fizeram muito sentido. Conviver com o próximo, por sinal, a mortificava deveras.

Os gatos também contribuíram. O passar do tempo, devastador, provou a ela que o melhor é não tê-los, na medida em que partiram sem a menor consideração a ela.

Agora, no ambiente alvo e imaculado de sua sala de estar, sem quadros ou qualquer enfeite, deita-se na companhia de pensamentos, imperturbáveis devido ao vidro duplo que a coloca a salvo de quaisquer ruídos de um mundo que ela desistiu de tentar compreender. Ali, envolta pela espessura do seu apartamento, bloco de concreto a lhe envolver feito casulo, a serenidade reina, enfim.

Ou deveria reinar, não fosse um barulho insistente, vindo da cozinha. Uma goteira, constante e intrusa, causa-lhe um desconforto cada vez maior.

Pensa em arrancar a maldita pia, ou mesmo, toda a tubulação do apartamento. Enquanto empunha um martelo pondera que isso implicaria em criar sujeira e, pior, no contato com pedreiros e encanadores.

Fecha a porta da cozinha, cobre os cantos com panos de chão e retorna ao sofá da sala. Mas não consegue esquecer o barulho da goteira, que, mesmo não ouvindo, sabe que está lá, a espreitá-la.

Vira-se para a janela, ali, logo atrás das cortinas e tem um súbito clarão. Mira os ferrolhos, tão fáceis de abrir, que não existiriam se o seu apartamento fosse algumas dezenas de andares mais baixo.

Um pássaro pousa no parapeito, quase junto a ela, ali, toda de branco e pés para fora, com o vento a desgrenhar seus cabelos. Uma sensação de paz a invade.

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