7:48Legado da dignidade humana

por Ivan Schmidt

 

O romancista norte-americano nascido em Chicago, Saul Bellow (1915-2005), filho de imigrantes judeus vindos de São Petersburgo para o Canadá e depois para os Estados Unidos, foi um dos autores preferidos da grande massa de leitores exigentes na segunda metade do século passado. Um de seus romances mais brilhantes – O legado de Humboldt – está sendo relançado agora pela Companhia das Letras, em nova tradução de Rubens Figueiredo.

 

O lançamento desse romance deu-se em 1975 e, no ano seguinte, Bellow abiscoitava com todo o mérito o Premio Nobel de Literatura. Nos 30 anos mais produtivos da carreira iniciada com o lançamento de Por um fio (1944), em plena Segunda Guerra Mundial, ele escreveria também A vítima (1947), As aventuras de Augie March (1953), Aqui e agora (1956), Henderson, o rei da chuva (1959), Herzog (1964), O planeta do Sr. Sammler (1970) e Dezembro fatal (1982), entre outros volumes de contos, ensaios, memórias e relatos de viagem.

 

Os primeiros romances de Saul Bellow foram publicados no Brasil, em 1976, pela antiga Bloch, comandada pelo igualmente imigrante russo – Adolfo Bloch –, que deve ter sido aconselhado a editar os livros do norte-americano. É que nessa época Bellow já desfrutava do tratamento dispensado aos verdadeiramente grandes.

 

A consagração de Bellow veio na trilha aberta pela fertilíssima geração que tivera Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, John Steinbeck e Erskine Caldwell e, alguns anos antes William Faulkner, John dos Passos, Sherwood Anderson e Howard Fast, para citar uns poucos (e bons).

 

Com o aparecimento da Nova Fronteira, editora organizada pelo ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda, os romances seguintes de Bellow passaram a sair sob esse selo editorial, responsável pelo lançamento de renomados autores europeus e norte-americanos, assim como de notáveis brasileiros.

 

O legado de Humboldt é uma mistura de Shakespeare, Walt Whitman, Tolstoi, Dostoiévski e Henry James, entremeada por eruditas citações da filosofia grega, especialmente Platão, constantes alusões a Proust, Kafka, Joyce e outros mestres europeus, além da sombra  marcante de George Steiner, divulgador da antroposofia e da filosofia natural, na época, um dos temas que faziam a cabeça dos descolados de Greenwich Village, em Nova York, e a partir daí para todo o ocidente.

 

Bellow também voltava seu interesse para a psicanálise, ciência relativamente nova inventada por Freud, que exercia forte influência sobre norte-americanos abastados que se moviam, aos magotes, na direção dos divãs de afamados analistas, em busca de soluções para as esquisitices da cuca.

 

A saga inicia com o estupendo sucesso do poeta Von Humboldt Fleisher (o nome foi copiado por sua mãe de uma estátua do Central Park), cuja fama instantânea veio com a publicação de Baladas do arlequim. Humboldt tornou-se celebridade com presença obrigatória nas seções literárias dos principais jornais, com direito a fotos nas revistas Time e Newsweek. Choviam convites para palestras em universidades e, afinal, para a cátedra de literatura de Princeton, embora sua passagem aí tenha sido abreviada porque a essa altura o poeta passara a desenvolver séria inclinação para a loucura.

 

Na vida real, Bellow seria testemunha do processo de absorção de filhos e netos de imigrantes judeus pela sociedade e estilo de vida norte-americano ao encarnar a condição de romancista eminentemente judeu e, assim, narrador privilegiado dessa expressiva realidade antropológica (uma de suas paixões), ao transformar o microcosmo em macrocosmo, no dizer autorizado do historiador Eric Hobsbawn, mesmo tratando de outro contexto. Bellow projetou essa experiência nos personagens Von Humboldt Fleisher e Charles Citrine, ilustrando a crônica familiar dos tipos mais estereotipados de judeus de segunda e terceira geração já mergulhados nos negócios, nas profissões liberais, na vida intelectual ou artística e até no crime.

 

Um personagem de sua primeira narrativa havia declarado “sou judeu, filho de imigrantes”. E, décadas de sucesso depois, a mesma declaração voltou a aparecer na fala confiante de outro personagem: “Sou norte-americano, nascido em Chicago”.

 

Citrine era um jovem universitário do Meio Oeste que pensava e falava de literatura o dia todo. Pediu trinta dólares emprestados à namorada e comprou uma passagem da Greyhound com destino a Nova York numa viagem que durou 50 horas. Seu objetivo era conhecer Von Humboldt Fleisher, o poeta, de quem logo se tornou amigo inseparável. Na verdade, por sugestão de Humboldt, uma amizade que os transformaria em irmãos de sangue. E o penhor disso foi a troca de cheques em branco com o compromisso de que jamais fossem apresentados aos respectivos bancos, mesmo porque ambos estavam muito bem de vida, ganhando os tubos com livros, conferências, resenhas, matérias especiais em publicações chiques e, no caso de Citrine, com a caudalosa bilheteria da peça Von Trenck que ficou um ano inteiro em cartaz na Broadway.

 

Mais ou menos no final do primeiro terço do livro, Humboldt, depois de gradativa decadência na vida literária e uma série de detenções pela polícia e internamentos em hospitais de doentes mentais, acaba morrendo em abjeta miséria, abandonado pela mulher e pelos antigos admiradores, incluindo Citrine. Este já havia se mudado para Chicago, mas numa de suas visitas a Nova York viu Humboldt pela última vez, entre as ruas 47 e 48, meio escondido atrás dos carros estacionados no meio fio. O poeta envelhecido, barbudo e cabeludo, malvestido e sujo, mastigava um palito de pretzel.

 

Poucos dias depois Citrine abre o New York Times e se depara com o longo obituário do querido amigo que abandonara e com quem evitou falar, não por outros motivos senão pelas explosões de ciúme, cólera, inveja, maledicência e toda sorte de ofensas morais. A loucura de Humboldt foi algo tão estarrecedor que ele chegou a ser dispensado da cátedra em Princeton. Ninguém mais o suportava, a começar pela mulher Kathleen, que volta e meia aparecia com um olho roxo. Um dia pegou suas coisas e deu no pé.

 

Daí em diante Bellow passa a contar a história de Citrine, intelectual endinheirado pelo amplo sucesso dos livros e da peça Von Trenck, na verdade inspirada na vida de Humboldt, sendo os direitos logo vendidos para o cinema. A bilheteria chegava a render para o autor até oito mil doares por semana, levando-o a lamentar que “o governo, que jamais manifestara interesse prévio por minha pessoa, exigiu imediatamente setenta por cento sobre o fruto do meu esforço criador”. E, algum tempo depois, uma conjura entre o advogado de sua ex-mulher, Denise e um juiz da vara das famílias, Urbanovich, “um ucraniano gordo e careca”, fez com que sua pequena fortuna fosse reduzida a míseros quatro mil dólares.

No capítulo rabos de saia Citrine era especialista. Desde a primeira namorada, Naomi Lutz, que subsidiou a viagem a Nova York, passaram por sua lábia além de Denise com quem se casou e teve duas filhas (Mary e Lish), em épocas diferentes ou ao mesmo tempo Demmie Vonghel, Doris Scheldt e Renata Koffrittz. A última era uma voluptuosa gata com a metade da idade de Citrine, que a descreveu com fino humor: “Estávamos agora no aeroporto Kennedy e, com seu chapéu incomparável e seu casaco comprido de camurça, sua echarpe da Hermès, suas botas elegantes, ela estava tão apta a ser mantida na privacidade e na discrição quanto a Torre de Pisa”.

A parte final do romance é eletrizante porque o panorama cinzento e decadente da vida de Charles Citrine, assim como acontecera com seu amigo Humboldt, é atingido por uma virada enternecedora armada, anos antes, pelo louco de Greenwich Village.  Acostumado a vestir-se nos melhores e mais caros alfaiates e que só usava camisas feitas sob medida e gravatas de seda, chutado por Renata, Citrine vivia agora nos fundos duma pensão de terceira em Madri “na posição de um velho gagá que se comporta como um adolescente. Mais careca e enrugado do que nunca, e os cabelos brancos haviam começado a crescer, compridos e selvagens nas sobrancelhas”.

Foi no meio dessa barafunda que Citrine descobriu o legado de Humboldt. Um filme chamado Caldofredo, baseado num roteiro que ambos haviam escrito de brincadeira numas férias em Princeton, que lotava cinemas em Londres e Paris. O roteiro chegara às mãos dos produtores por lances fortuitos, mas Citrine podia provar a coautoria já que Humboldt tivera a astúcia de mandar pelo correio uma cópia para si mesmo. E o envelope foi guardado por um tio de Humboldt, a essa altura num asilo de velhos, até que Citrine foi buscá-lo entre outros papeis deixados pelo poeta.

Os advogados conseguiram uma boa indenização paga pelos produtores e foi com parte desse dinheiro que Citrine cumpriu a promessa feita ao velho tio de Humboldt. Dar a ele e à mãe, mesmo depois de muitos anos, um sepultamento digno. Afinal, o tio Waldemar tinha dito ao entregar os papeis: “Se este legado tiver algum valor, o primeiro dinheiro deveria ser empregado em desenterrar Humboldt e transferi-lo”.

A última coisa que Citrine viu do amigo foi o ataúde descendo e um pequeno guindaste, com um zumbido rouco, agarrando uma lousa de concreto para depositá-la em cima da caixa de concreto aberta. O diretor do funeral perguntou se alguém tinha uma oração a fazer e Citrine pensou com seus botões: “Ninguém parecia ter ou conhecer alguma”.

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