20:14Ivan Schmidt, adeus

O último texto publicado pelo Ivan Schmidt aqui neste espaço foi no final de julho. Versava sobre a volta do “Centrão” na política. Parece que a vida dos que têm mais de sessenta viaja na velocidade da luz – e a internet ajuda a turbinar. Ele parou de mandar sua colaboração e um dia perguntei, por email, se estava tudo bem. Ele foi comedido na resposta, ao contrário do que fazia nos textos que abrangiam análises do panorama da província e do país – mas sua paixão era mesmo a literatura. Apesar de ser um experiente jornalista e de eu já ter ouvido falar sobre sua capacidade profissional desde que cheguei em Curitiba em 1978, não o conhecia pessoalmente. Ele entrou no blog nem sei direito como, mas recebeu um convite e parecia estar esperando a chance. Faz anos. Ivan foi embora para sempre hoje. Eu sabia que tinha passado um sufoco pouco antes da nosso última conversa. Fiquei aguardando sua recuperação e a colaboração sempre publicada perto do final de semana, porque a ideia era de que os interessados saboreassem tanta informação no final de semana de descanso. Como ele devorava tantos livros, era um assunto que eu gostaria de perguntar para aprender. Porque leio vários aos picadinhos – e alguns ficam esperando a conclusão por anos, como a Montanha Mágica, do Thomas Mann. Sem saber, tínhamos um abastecedor em comum, o Marino, vendedor de livros em domicílio, mas isso é outra história. Nossas tratativas para um encontro pessoal duraram semanas, meses. Até que um dia conseguimos. Ele saiu da sede da Associação Comercial do Paraná, onde trabalhava, e sentamos para dois dedos de prosa num café na Praça Santos Andrade. A admiração aumentou porque o Ivan tinha muita história profissional e pessoal para contar, que é o que vale. Resumiu – e o resumo dava umas cinco vidas. Por coincidência, o fotógrafo Maringas Maciel, que parece estar em todos os lugares do Centro ao mesmo tempo, apareceu, clicou e registrou o que passei a chamar de encontro histórico, mesmo porque ao vê-lo sabia que estava diante do russo Boris Iéltsin, tal a semelhança. Hoje, quando fui informado que não poderei mais vê-lo, olhei a imagem e confirmei que, de fato, aquilo foi histórico – de vida. Sim, eu o vi num outro momento, na sala da presidência da ACP, quando foi chamado e apareceu com um caderninho de anotações na mão. Pensei: “Taí um profissional!”  Sempre foi, pelo relato de amigos em comum e que o conheciam muito mais do que eu. Reportou, leu e escreveu até onde pode, porque esse é o alimento de quem escolhe e tem o dom para trilhar o caminho. Passou o que entendeu ser importante. Todos agradecemos. Amém.

10 ideias sobre “Ivan Schmidt, adeus

  1. SERGIO SILVESTRE

    Pois é,fico sentido até por que a gente se enturma mesmo a distancia e sem nunca ter visto ou tocado,sou um chato sensível e choro por todos que se vão,principalmente aqueles que de alguma forma foram lidos e comentados.Que Deus lhe de um bom lugar Schmidt

  2. Célio Heitor Guimarães

    Que notícia triste, ZB! Não tive a alegria de conhecer pessoalmente o Ivan, mas o admirava e respeitava profundamente. Pelo talento, pela capacidade de análise, pela firmeza de posições. Ele orgulhava a cultura e a inteligência paranaenses, ainda que, ao que parece, tenha nascido em solo catarinense. Andávamos juntos no velho “O Estado do Paraná”; depois, nos reencontramos aqui neste território democrático. Gostaria muito de saber mais sobre o Ivan Schmidt. E de como terá sido o reencontro dele com Walmor Marcellino. Meu sincero pesar a seus familiares.

  3. wilson portes

    Adeus, amigo Ivan:
    Jamais imaginei usar essas três singelas palavras para despedir-me desse tão respeitado colega de profissão, mas, que, acima de tudo, era um bom companheiro de trabalho, com quem compartilhei, no dia-a-dia do seu sagrado templo de realização e meditação, situado no 6o. andar da ACP, memoráveis tertúlias de cunho político ou filosófico, artes em que era mestre e onde nadava de braçadas.

    Tchau. amigo Ivan, sua curta passagem por este conflagrado planeta deixará seu nome gravado, de forma perene, nos anais da história do Jornalismo paranaense, como um dos mais destacados integrantes dessa plêiade de valorosos profissionais dessa nossa cada vez mais esquecida profissão.

    Pena que às segundas-feiras não mais comentaremos detalhes não escritos de suas saborosas análises, publicadas na coluna do Zé Beto. Vamos, então, reler cada uma delas e meditar sobre a profundidades dos temas que elas guardam.

    No mais, muito obrigado, Ivan.

    Wilson Portes

  4. Birn Neto

    Nesses momentos lembro de Ernest Hemingway em POR QUEM OS SINOS DOBRAM… Lá naquela cidadezinha da Espanha, durante a guerra civil, era costume da igreja tocar o sino quando alguém morria. E à indagação sobre quem teria morrido, o personagem respondeu que os sinos badalavam não por quem morria, mas por quem ficava. Porque quando alguém morre, se vai… quem fica, fica mais pobre, fica menor, pois não pode contar mais com que se foi. Então, no caso do Ivan, estamos mais pobres, menores, porque, agora, não podemos contar mais com a inteligência dos textos dele.

  5. Parreiras Rodrigues

    Pois é, e eu o tinha sempre às mãos que as enchia de informações, de conhecimentos, principalmente quando falávamos sobre Ditadura e os assuntos seguintes, Diretas Já, Anistia. Nossos últimos papos aconteceram no DER. Eu labutava na então Sucepar, depois Suderhsa, Suceam, hoje Instituto das Águas. antes onde tentava, em vão, combater erosão com bambu.

  6. Bittencourt

    Pois é, seu Zé: e lá se foi o nosso parceiro de letrinhas. No caso desta parceria fui um pouco mais feliz do que você, pois pude partilhar de umas boas temporadas ao lado do Ivan, na assessoria da Secretaria da Agricultura, e nuns outros trabalhos corporativos ou políticos. E mais: muitas caminhadas pela Rua XV, entre a Boca Maldita e a Universidade (na ACP). Os temas eram variados e iam desde o momento político até a influência dos raios gama nas margaridas do campo.
    Prosear com o Ivan era tão bom quanto lê-lo, e agora resta a segunda opção. De literatura, então, era uma aula e uma análise, a exemplo das publicadas no O Estado do Paraná, no Correio de Notícias e neste Blog do Zé Beto. Nossa eterna discussão sobre “Pergunte ao pó”, de John Fante, na tradução de Paulo Leminski, sobre a caminhada do personagem, sempre causou muitos risos.
    Sem contar com a sua singela coleção de envelopes – das correspondências, com a grafia errônea do seu sobrenome, que iam de “Ximite” a “Chimiten”, passando por dezenas de composições possíveis e engraçadas.
    E assim se foi meu parceiro de prosa e caminhada. E também das boas risadas.
    Caramba, tô caminhando menos, ficando mais sózinho e, ainda por cima, carrancudo.

    Bitte

  7. Ivânia Helena Schmidt Robbi

    Me alegra profundamente ler todas essas palavras que vocês escrevem dele e pra ele.
    Se foi cedo, mas esteve ativo e pleno na atividade que mais amava, o jornalismo, até vésperas do seu primeiro sintoma que o guiou para uma cardiopatia grave e lhe tirou desta vida.
    Melhor assim, pra ele.
    Sai da cena no auge, não é amigos?
    Para nós sobra a saudade, as boas histórias, o ensinamento, o legado.
    Para mim, que sou sua primeira filha deixa mais, a semente do escritor plantada no seu neto, meu primogênito João Vitor Schmidt Robbi, oficialmente designado por ele, numa espécie de testamento como “curador oficial dos meus livros”.
    A vida realmente continua.
    Agradeço por todo carinho e amizade.

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