7:20Humor de perdição

por João Pereira Coutinho

1. Até quando teremos Ricky Gervais? Sim, falo do humorista britânico, autor e ator de uma das grandes comédias da história da TV (a série The Office”), e que regressou aos palcos, sete anos depois, para um novo espetáculo de standy-up comedy.

O resultado, disponível na Netflix, é HumanityE, se eu pergunto até quando teremos Ricky Gervais com liberdade absoluta para fazer humor, é por duas razões fundamentais.

A primeira lida com os temas que Ricky Gervais escolhe. Hoje, é fácil fazer piadas politicamente corretas com alvos politicamente corretos —como a religião cristã ou qualquer político conservador. Nesse quesito, Ricky Gervais não é exceção: haverá coisa mais divertida do que o criacionismo fanático?

Mas o humorista vai mais longe, ao tocar nas vacas sagrados do momento –como os direitos das minorias (sobre os transexuais, como a famosa Caitlyn JennerRicky confessa: “Se eu resolvesse mudar quem sou, era mais fácil para mim ser gorila do que mulher”) ou o sentimentalismo dos adultos com as crianças (“Por favor, não me mostre mais fotos dos seus filhos, exceto se eles forem sequestrados”).

Sem falar da maior vaca sagrada de todas —a ideia delirante de que o povo é puro e sábio nas suas decisões ou opiniões (“Vamos remover os avisos de ‘Não beba’ das garrafas de lixívia e, dois anos depois, fazemos um novo referendo sobre o brexit, ok?”).

Para cabeças simples, Gervais é transfóbico, homofóbico, antihumanista e antidemocrata. Mas será que o fato de fazer piadas com certos grupos ou temas transforma uma pessoa num monstro moral?

Esse é o segundo motivo para assistirmos a “Humanity“: as piadas são boas, mas o melhor do espectáculo está nas reflexões sérias que Gervais vai fazendo sobre o clima de “indignação automática” que define o nosso tempo.

O leitor conhece: alguém diz algo; alguém se ofende com algo; alguém tenta proibir o que foi dito.

Antigamente, os adultos seguiam em frente quando viam algo de que não gostavam. Hoje, acrescenta Gervais, são incapazes de lidar com isso porque imaginam que as suas “identidades” —políticas, sexuais, religiosas etc.— são a coisa mais importante do mundo. Quando foi que nos tornamos tão infantis e narcísicos?

Não sei. Mas sei que assistir a “Humanity“, sentirmos as nossas crenças atacadas e ainda rirmos com isso é um verdadeiro teste de maturidade.

2. Fazer uma piada com distúrbios psíquicos não é para qualquer um. Mas Ruben Östlund não é qualquer um.

Em The Square - A Arte da Discórdia”, temos um personagem que sofre de síndrome de Tourette. Ele está sentado na audiência, escutando uma conversa no palco entre uma curadora de arte pretensiosa e um artista pretensioso.

E, quando escuta as frases de ambos, a sua coprolalia é mais forte do que ele: há comentários em voz alta com obscenidades à mistura.

O artista fala da sua obra e ele dispara: “Lixo!” A curadora faz uma nova pergunta ao artista —e o homem vai metralhando a donzela com considerações anatômicas que podemos facilmente imaginar na boca do srHarvey Weinstein (quando usava robe).

A audiência está incomodada. A curadora e o artista também. Mas, quando alguém se atreve a criticar a atitude do homem, há sempre um benemérito que pede respeito e tolerância. Aquilo é doença.

É o melhor momento do filme. Não apenas por razões literais —o contraste insólito entre a seriedade do diálogo e o despropósito daquelas frases— mas porque Östlund consegue, metaforicamente falando, resumir o espírito do filme em uma única cena: uma crítica à arte conceitual contemporânea, aos seus promotores e aos seus artistas (o artista pretensioso, vestindo blazer e pijama, é uma óbvia paródia a Julian Schnabel).

O homem com Tourette é uma espécie de bobo moderno. Não no sentido pejorativo do termo; no sentido histórico, cultural, medieval. Tal como os bobos antigos, que diziam as verdades ao rei em clima de farsa, o “bobo” do filme também diz as suas verdades —aquelas que o nosso superego reprime— mostrando à audiência que o rei, na verdade, está nu.

Confesso: The Square - A Arte da Discórdia” não está ao mesmo nível da obra anterior de Östlund (“Força Maior”, uma história sutil sobre o animal escondido e amedrontado que existe em nós).

Mas brindo a um diretor “progressista” que prefere perder vários amigos a perder a piada.

*Publicado na Folha de S.Paulo

 

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