18:17HORÓSCOPO

por Zé da Silva

Capricórnio

Sorria! Ele não sorriu. Aquele caixote com um olho na frente e alguém escondendo a cabeça atrás envolto num pano preto era de meter medo. Sorrir como? O dia estava lindo, o passeio também, a tia que não teve filhos e o amava visitava a cidade e levou-o para passear, coisa que os pais não faziam. Tomou guaraná – e isso só acontecia quando ficava doente. Andou de táxia – e até hoje o som do motor do DKW, que abria ao contrário as portas da frente, não saíram de suas lembranças. O parque tinha nome sonoro: Xangai. Ele já tinha ouvido falar, até em história de um crime, mas todos aqueles brinquedos eram como um mundo mais mágico que a primeira imagem da televisão que viu na tv da padaria do largo da matriz. Comeu pipoca, o carrossel o transportou para o encantamento feito de luzes – e a roda gigante o fez ver a cidade grande e o rio como serpente marrom ali perto. Foi aí que veio a ideia da foto. Era para registrar o momento, disse-lhe, carinhosa, a tia. Mas ele fechou-se como sempre fazia ao ser invadido por um medo que não sabia de onde vinha. Um dia chegou a pensar que ele não vinha, ele estava ali. Como naquele momento. Então, saiu correndo entre aquelas pernas gigantes de adultos, resvalando e sentindo o tecido e as carnes das mulheres, enfim, apavorado. Foi alcançado. Não soube explicar nada. Não houve muitas perguntas. Em casa, no dia seguinte, foi ao album de fotografias da mãe, tirou uma feito no ano anterior, menino de cabeça grande e só de calção, barriga imensa estufando o umbigo para fora. Rasgou tudo sem que ninguém visse. Anos depois, comprou sua primeira máquina fotográfica. E entrou nela. Para se proteger.

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