11:37Gaeco investiga alvarás e descobre trama eleitoral que derrotou Leprevost

por Celso Nascimento, no jornal Gazeta do Povo

O Gaeco, braço policial e de investigação do Ministério Público Estadual, aponta um importante secretário municipal como envolvido numa trama ardilosa que pode ter alterado o resultado final da eleição de 2016 – isto é, de provocar a derrota do candidato Ney Leprevost (PSD) e assegurar a vitória de Rafael Greca (PMN) no segundo turno, disputado em 30 de outubro. Outros envolvidos são uma ex-secretária e servidores de carreira da área de urbanismo da prefeitura.

Para melhor explicar o caso, vamos começar refrescando a memória do eleitor: uma semana antes da eleição, pesquisa Ibope retratava uma tendência visível dos eleitores curitibanos ao apontar que a chance de Leprevost ganhar a eleição era iminente. Sondagem divulgada no dia 21, registrada no TRE, indicava que Leprevost vinha crescendo em relação às pesquisas anteriores e já somava 53% das intenções de voto contra 47% de Greca.

Foi quando se acendeu nos comitês de campanha de Greca o pavor da derrota iminente. A situação periclitante exigia resposta tão rápida quanto bombástica para frear o crescimento do adversário. Nem que para isso fosse necessário arranjar meios escusos para atingir o fim desejado.

Foi o que fizeram os luas-pretas de Rafael Greca. O que se fez nos dias finais da campanha foi anunciar insistentemente que “verdades surpreendentes” contra Leprevost seriam reveladas no programa eleitoral gratuito do domingo anterior ao da eleição.

A “bomba” explodiu na data marcada. Consistiu em afirmar que, com a ajuda do deputado Ney Leprevost, seu irmão João Guilherme, empresário do setor de entretenimento, havia feito acordo espúrio com o Instituto Paranaense de Cegos (IPC) ao alugar um terreno de propriedade da instituição filantrópica para nele construir um centro de eventos – suposto desvio de finalidade e contrário às antigas disposições presentes nos atos de doação da área pelo município ao instituto.

A partir daí, de fato, os números começaram a virar contra Leprevost. No dia 29, véspera da eleição, o Ibope concluiu nova rodada de pesquisa indicando a “virada”, mas ainda em situação de empate técnico: 51% para Greca, 49% para Leprevost. No dia seguinte, contados os votos, Greca venceu com 53%.

Pano rápido: como o Gaeco descobriu, talvez sem querer, os bastidores da tramoia eleitoral?

Foi assim: o Gaeco recebeu denúncias de que, na gestão do prefeito Gustavo Fruet (PDT), alvarás (de construção ou funcionamento) eram expedidos pela secretaria municipal de Urbanismo mediante pagamento de propinas a funcionários e ao próprio então secretário, Reginaldo Cordeiro. Recolhidos indícios de que tais irregularidades, de fato, teriam sido cometidas, o Gaeco obteve autorização judicial para fazer escutas telefônicas tendo como alvos o próprio ex-secretário e alguns servidores. Estava deflagrada a Operação Al Barã.

As escutas produziram, além de frutos, motivo para que a prefeitura, já sob a gestão de Greca, festejasse a condução coercitiva de Cordeiro e prisões temporárias de servidores da secretaria de Urbanismo e de intermediários. Quando o Gaeco divulgou os fatos, aspones da prefeitura imaginaram que as revelações deveriam ser festejadas pelos atuais mandatários.

No entanto, os depoimentos colhidos em seguida pelo Gaeco inocentaram Cordeiro e comprovaram que não era só em recebimento de pequenas propinas que servidores do Urbanismo atuavam. Atuavam também para favorecer a campanha de Greca.

A coluna teve acesso, por meio de uma fonte oficial, a uma parte do inquérito da Al Barã. Nela estão transcritas várias conversas telefônicas durante as antevésperas do 2.º turno entre pelo menos uma ex-secretária do Urbanismo, funcionários da repartição e um dos coordenadores da campanha de Greca – nomeado logo após a vitória eleitoral para uma das mais importantes secretarias do município.

As conversas revelam que os servidores foram encarregados de escarafunchar arquivos da secretaria de Urbanismo que caracterizassem a suposta fraude na locação do terreno do Instituto Paranaense de Cegos para o irmão do candidato Ney Leprevost. Os documentos assim obtidos transitaram entre a sede da prefeitura e o porão da sede da Paranaprevidência, situada na rua Inácio Lustosa, e daí seguiram para um certo “Luiz”, encarregado de alimentar a campanha de Greca.

Foi a partir desses documentos surrupiados clandestinamente que nasceram as “verdades surpreendentes” que estouraram no programa eleitoral de Greca na noite de sábado, 25 de outubro. E repetidas nos programas seguintes a despeito dos desesperados – e já ineficazes – “esclarecimentos” de Leprevost e de medidas judiciais tentando barrar a repetição da peça de propaganda nos programas eleitorais seguintes e nos intervalos comerciais de televisão.

Além dos crimes previstos na legislação eleitoral, outros estão inscritos no Código Penal e nos estatutos do funcionalismo. Pelos quais podem responder os envolvidos.

2 ideias sobre “Gaeco investiga alvarás e descobre trama eleitoral que derrotou Leprevost

  1. Sergio Silvestre

    Depois que a vaca foi pro brejo eles descobrem sempre com atrazo,ganham pouco mas são bem eficientes.

  2. joao marcos

    As investigações somente ocorrem se existir denúncias….
    Quando deveria ser uma rotina por se tratar de serviços públicos, vejam a LAVA JATO o maior exemplo que retrata a realidade moral de empresas e serviços públicos. Aonde tem político tem sujeira, briga de titâs pra conquistar o poder e não por acaso, controlar e manipular interesses.
    Somos o pais das manobras e interesses espúrios.
    Ambos os prefeitos dizem que instauraram isto ou aquilo, mas, não citam protocolo, ofício , algo que provem que estão falando a verdade. A prefeitura não é só o urbanismo….

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