7:46Foz do Iguaçu e a Operação Pecúlio abrem espaço na piauí

Da revista piauí, em reportagem de Roberto Kaz

Quase todos presos – um ópera-policial ambientada em Foz do Iguaçu, em três atos

No dia 18 de janeiro, cinco vereadores deixaram a cadeia ─ algemados, sob escolta, e com uniforme de presidiário ─ para serem empossados. Vestiram terno, fizeram o juramento, assinaram o livro de posse e em seguida fizeram o caminho de volta da Câmara ao cárcere.

Essa é uma história brasileira. E, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura dinheiro público e privado. Essa é a história de uma cidade – Foz do Iguaçu – em que um prefeito, acusado de corrupção, acaba afastado do cargo. Mas é também a história de outro prefeito, ficha suja, que concorre ao terceiro mandato, é eleito e tem a candidatura indeferida antes de ser empossado. Essa é uma história brasileira e, por ser uma história brasileira, é uma história que mistura Polícia Federal, produtos Mary Kay e o cartunista Ziraldo.

Essa história poderia começar em dezembro do ano passado, quando doze vereadores – dos quinze que compõem a Câmara Municipal – são presos de uma só tacada. Ou em janeiro deste ano, quando cinco vereadores – dos doze levados ao xilindró – voltam à Câmara, conduzidos em viaturas policiais, para assumir um novo mandato. Essa história poderia começar com um grampo telefônico, com uma licitação fraudada ou com a prisão de um empreiteiro em caráter provisório. Mas, por brasileira que é, essa história começa de forma prosaica, três anos atrás, com o suborno de um servidor da Justiça Federal.

O dia era 9 de maio de 2014, uma sexta-feira. Roberto Basílio de Oliveira, o servidor, dirigiu até um posto de gasolina, onde recebeu dois cheques que somavam 5 mil reais. O signatário era Marlos Gasparin, dono do posto e sócio de uma empresa de transportes, a Transmatic, envolvida em ações que corriam na Justiça Federal do Paraná. O acordo era simples: Oliveira receberia o dinheiro e, em troca, adiantaria à Transmatic informações ainda sigilosas de processos judiciais contra a empresa, por cobranças de dívidas atrasadas.

A transação poderia ter ocorrido na surdina, não fosse o fato de que Oliveira já havia despertado o interesse das autoridades no oeste do Paraná – a ponto de grampearem o seu telefone. Sete meses antes daquele encontro no posto de gasolina, a Polícia Federal recebera a denúncia de que Oliveira se fazia passar por juiz, prometendo a quem interessasse – e lhe pagasse – intervir em processos que corriam na Vara Previdenciária. Houve também casos de pessoas que chegaram ao balcão de atendimento da Justiça Federal em Foz do Iguaçu requisitando os serviços do “doutor Roberto” – isso apesar de o cargo que ele ocupava, de servidor técnico, sequer envolver o contato com o público. Chegou o dia em que uma senhora apresentou na portaria um cartão de visitas no qual, sob o nome de Oliveira, constava o vago título de “bacharel”. Instaurou-se o inquérito.

O caso poderia ter ficado circunscrito à Vara Previdenciária – e então não haveria delação de empreiteiro, prisão de vereador, nem afastamento de prefeito. Mas calhou, em junho de 2014, de Oliveira conversar, por telefone, com um empresário chamado Dilceu Ledur. “Eles usavam muito a palavra ‘equipamento’”, explicou-me o delegado Fabio Tamura, da Polícia Federal. “Achamos que poderia ser algo ligado a contrabando.” Como o seguro morreu de velho, Tamura adicionou Ledur à lista dos grampeados. A ironia do destino é que justamente naquela conversa, como mais tarde ficaria claro para a polícia, nada de desonesto estava sendo tramado. O tal “equipamento” de que tratavam o empresário e o servidor público nada mais era do que um filtro para diminuir o consumo de energia, vendido de maneira legal.

Se essa história fosse uma ópera, baixariam as cortinas e terminaria, aqui, o primeiro ato. Ou, por outra: talvez houvesse, antes do fim, um breve monólogo. Seria um solilóquio funesto, daqueles que antecipam um desastre, proferido por um mendigo, um cego, uma ama ou uma bruxa. A orquestra tocaria um acorde macabro, as luzes se acenderiam e o público desfrutaria do intervalo.

Mas, como foi dito, a história é brasileira. Troca-se o monólogo por uma conversa grampeada; troca-se o mendigo por um político; e troca-se o desastre por uma licitação. Em meados de 2014 o empresário Dilceu Ledur, cujos telefonemas agora também estavam sendo monitorados pela polícia, ligou para Melquizedeque Souza, o então secretário de Tecnologia da Informação da Prefeitura de Foz. Queria vender os tais filtros de energia para as repartições da cidade.

“O Melquizedeque falou que compraria, desde que o Dilceu fizesse lobby com alguns deputados federais para ajudar a prefeitura a conseguir recursos com uma emenda parlamentar”, prosseguiu o delegado Tamura. “Suspeitamos que, se houvesse uma licitação para a compra dos filtros, ela poderia ser fraudada para favorecê-lo.”

O empresário chegou a procurar alguns deputados em Brasília, mas seu trabalho de lobby não foi bem-sucedido. Como não cumpriu sua parte no trato com o secretário, o acerto não foi adiante. Sorte de Ledur, que só por isso não foi denunciado pelo Ministério Público Federal. “Mas a essa altura o telefone do Melquizedeque já estava interceptado”, contou o delegado. “E era ele”, Melquizedeque Souza, braço direito do prefeito, “quem centralizava todas as licitações da cidade.”

Recapitulando: a polícia atirou no que viu – Roberto Basílio de Oliveira – e acertou no que não viu – Melquizedeque Souza, um dos donos do cofre em Foz do Iguaçu.

É aqui que começa o segundo ato.

Foi numa terça-feira, 19 de abril de 2016, que Foz do Iguaçu entrou de vez no mapa da corrupção nacional. No restante do país os assuntos eram o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, as manobras de Eduardo Cunha na Câmara, a delação premiada de Delcídio do Amaral. Mas em Foz, daquele dia em diante, a população passou a ter uma Lava Jato para chamar de sua. Com a deflagração da Operação Pecúlio, a cidade foi tomada por 250 policiais federais, incumbidos de cumprir quatro ordens de prisão preventiva e dez de prisão temporária. Um dos detidos era Melquizedeque Souza.

Essa era a segunda prisão preventiva de Souza em menos de um ano. A primeira, em setembro de 2015, decorrera de uma investigação tocada pelo Gaeco, o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado. Nela, Souza era acusado de fraudar contratos de transmissão de imóveis, num esquema que desviara pelo menos 178 mil reais do município. Dessa vez, a suspeita recaía sobre acordos com empreiteiras e prestadoras de serviço na área de saúde. “Descobrimos que a prefeitura licitava uma obra para que o asfalto tivesse 7 centímetros, mas só asfaltava 3”, contou o delegado Tamura. “Achamos uma licitação que tinha páginas 23 A, 23 B, 23 C, até 23 F, que certamente haviam sido colocadas depois. E encontramos a licitação de uma obra que já estava pronta.” Os desvios, estimou, alcançavam o montante de 4,5 milhões de reais.

Deu-se então o roteiro conhecido por todo brasileiro que acompanha o noticiário político-policial. Souza e mais três homens – todos presos em caráter preventivo – foram levados à carceragem da Polícia Federal. Dois eram empresários contratados pela prefeitura; o terceiro era o secretário de Planejamento. Como o cárcere preventivo não tem prazo para terminar, os quatro logo entenderam qual seria o caminho mais rápido para a liberdade. Semanas depois, assinaram acordos de delação premiada.

E então veio a segunda fase da Operação Pecúlio, com a prisão do diretor de Pavimentação e do secretário de Obras da cidade. E a terceira, com o encarceramento – sempre preventivo – de nove funcionários da prefeitura, dentre os quais o titular da Saúde e o seu antecessor no cargo. A tensão foi crescendo, até que no dia 14 de julho do ano passado, uma quinta-feira, a PF deflagrou a quarta fase. O alvo era o próprio prefeito, Reni Pereira, do PSB, acusado de chefiar o esquema de fraudes. Uma ordem judicial o afastou do cargo; outra o colocou em prisão domiciliar. A partir de então, Foz do Iguaçu passou a ser comandada interinamente pela vice-prefeita, a empresária Ivone Barofaldi, do PSDB, dona da maior rede local de sapatos, a Calce Pague.

No primeiro dia à frente do cargo, Barofaldi exonerou dezoito secretários e assessores ligados a Reni Pereira. Anunciou também que faria um levantamento das contas municipais. No mês seguinte, decretou situação de emergência na área da saúde. Os salários continuaram a ser pagos em dia, mas várias obras foram interrompidas até o fim do mandato.

Na ópera clássica, o segundo ato é geralmente encerrado com um trecho musical grandioso, chamado concertato. Os personagens principais voltam ao palco para anunciar, em melodias distintas – e por vezes simultâneas –, uma tensão a ser resolvida no próximo ato. Se o segundo movimento dessa história terminasse com a posse de Ivone Barofaldi, o concertato iguaçuense seria entoado por ela, pelo prefeito afastado, pelo quarteto de delatores e pelo servidor Roberto Basílio de Oliveira – que a essa altura já não estava mais ligado à trama, apesar de ter sido o personagem que deflagrara a história.

Mas não. No dia 13 de dezembro de 2016, o Tribunal Superior Eleitoral decidiu, por 4 votos a 3, que o registro de candidatura de Paulo Mac Donald, que acabara de concorrer a prefeito pelo PDT, deveria ser negado. Talvez não houvesse problema maior nessa decisão, não fosse o detalhe de que, em outubro, Mac Donald recebera o maior número de votos em Foz do Iguaçu e se sagrara, portanto, vencedor do pleito municipal. Uma nova eleição deveria ser realizada.

E este ainda não é o fim do segundo ato.

Apesar de ser uma cidade pequena, de 260 mil habitantes, Foz do Iguaçu é a quarta mais visitada por turistas no Brasil. É lá que estão as Cataratas do rio de mesmo nome e a Hidrelétrica de Itaipu. É lá que está a fronteira tríplice com a Argentina e o Paraguai. A proximidade com os países vizinhos, por sinal, transforma a cidade numa espécie de não lugar. Fala-se português. Mas nas lojas coladas à Ponte da Amizade são muitos os funcionários que atendem aos clientes em espanhol. A ponte é facilmente cruzada a pé ou de moto (há um cartaz, na saída do Brasil, que anuncia o curioso serviço de “Moto Táxi Internacional”). Não é preciso apresentar documento no ir e vir entre os dois países.

“Existe uma cultura de tolerância com a ilicitude”, contou-me o jornalista Gilmar Piolla, secretário do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Foz do Iguaçu, uma entidade civil que pensa em projetos a longo prazo para a cidade. “É um grau de informalidade absurda, principalmente no que envolve sonegação fiscal. As pessoas acham normal morar aqui, receber no Paraguai e trazer o dinheiro de volta.”

Nossa conversa ocorreu em fevereiro deste ano, na sede administrativa de Itaipu, onde Piolla chefia a equipe de Comunicação. Ele lembrou que após a construção da usina, a cidade viveu um longo ciclo econômico baseado no contrabando: “Trazia-se de tudo, de quinquilharias a armas e drogas.” A informalidade acabou por se entranhar também nos cargos municipais. “Salvo pela época do Paulo Mac Donald, a prefeitura sempre foi um cabidão de empregos”, disse. “Os caras loteiam cargo até na limpeza do hospital municipal.”

Paulo Mac Donald – o da candidatura indeferida – esteve à frente da prefeitura entre 2005 e 2012. Ouvi de vários políticos e empresários em Foz do Iguaçu que sua administração foi eficiente. Mac Donald pecava, no entanto, ao fazer a máquina pública andar rápido demais. “Se o Paulo via uma rua esburacada, ele mandava tapar antes mesmo de resolver a parte burocrática”, exemplificou-me Washington Sena, atual secretário de Comunicação. Assim foi em 2005, quando Mac Donald pagou 200 mil reais, sem licitação ou contrato formal, para o cartunista Ziraldo organizar um festival de humor na cidade. Assim também foi em 2007, quando contratou uma funcionária, por meio de carta-convite, para auxiliá-lo a conseguir recursos federais (a contratação inicial havia sido feita de maneira legal, mas não as renovações posteriores do contrato – cinco, no total –, que deveriam ter ocorrido por licitação).

Denunciado pelo Ministério Público, Paulo Mac Donald foi condenado pela Justiça Federal em primeira e em segunda instâncias. Tornou-se assim um político ficha suja. Num gesto temerário, decidiu de todo modo se lançar candidato a um terceiro mandato, esperançoso de reverter em última instância as condenações que recebera.

Antes que a Justiça comum se declarasse sobre o caso, contudo, a Justiça Eleitoral do Paraná impugnou o seu registro. Faltava um mês para o pleito. Mac Donald recorreu, fiando-se na possibilidade de ser absolvido no Tribunal Superior Eleitoral. Ainda pôde concorrer, e saiu vitorioso das urnas, mas não da disputa jurídica. “O mais preparado era o Paulo, mas ele precisava ter jogado limpo, dito que havia esse problema”, contou-me o arquiteto Leandro da Costa, que preside a Associação Comercial e Empresarial de Foz do Iguaçu.

Quando encontrei Mac Donald, na sede de sua construtora, ele parecia bastante amargurado. “Eu sou um ladrão, um mau-caráter”, comentou, em tom de evidente sarcasmo. “Trouxe 192 milhões de reais em recursos para a cidade, mas fui acusado de suposto prejuízo ao erário porque, se tivesse feito licitação, uma funcionária que custou 5 mil poderia ter saído por 3 mil reais.” Após uma pausa, desabafou: “Passam milhões de reais na minha mão, e sou condenado por uma merda dessas?”

Com a anulação de sua candidatura – e do pleito –, Foz do Iguaçu ficou à mercê do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná, responsável por agendar uma nova eleição municipal. A prefeita Ivone Barofaldi ocuparia a cadeira até a virada do ano. A partir de então, o cargo mais alto do Executivo iguaçuense teria de ser exercido, interinamente, pelo presidente da Câmara dos Vereadores.

Foi aí que surgiu um novo problema. Em meados de dezembro – dois dias após a impugnação de Mac Donald – a Polícia Federal deflagrou a quinta fase da Operação Pecúlio, prendendo doze dos quinze vereadores que compunham a Câmara Municipal. Alguns eram acusados de receber 10 mil reais por mês para votar em projetos de interesse do Executivo. Outros eram aquinhoados com 5 mil reais e um cargo de confiança. “O Reni teve que lotear vários cargos na prefeitura para aprovar os projetos”, explicou Gilmar Piolla, do Conselho de Foz. “Tirando um único vereador, o prefeito era uma unanimidade na Câmara. Parecia o político mais habilidoso do Brasil em termos de articulação.” O esquema foi apelidado pela PF de “mensalinho”.

E assim completou-se o elenco do concertato. Se essa história fosse uma ópera, o final do segundo ato contaria com Ivone Barofaldi (a prefeita que era vice), Reni Pereira (o ex-prefeito afastado) e Paulo Mac Donald (o prefeito eleito que teria sido e que não foi). No apoio vocal estariam o servidor Roberto Basílio de Oliveira (que, vale lembrar, nada tem a ver com a trama) e o ex-secretário de nome bíblico, Melquizedeque Souza (acompanhado de seu quarteto de delatores). A cantoria seria arrematada pelo coro dos doze parlamentares.

Descem as cortinas.

Foz do Iguaçu, domingo, 1 de janeiro de 2017: é a data em que começa o terceiro ato. Muda-se o ano, mudam os mandatos. O prefeito eleito não pode assumir porque teve a candidatura impugnada. A ex-prefeita permanece no posto, por ordem judicial, até que se escolha o presidente da Câmara. Para tal, um vereador precisa angariar oito votos. Mas só há dez parlamentares na casa (outros cinco, reeleitos, ainda estão encarcerados). É preciso achar um nome de consenso para que o critério de escolha não seja a idade. Oito vereadores se reúnem e decidem que um deles será o indicado. Alguém sugere que levantem a mão, entre eles, aqueles que almejam assumir a presidência da Casa e, portanto, a prefeitura, interinamente. Sete levantam. Inês Weizemann, a Inês da Saúde, é a única a deixar o braço abaixado. É ela a eleita.

“Tive dor de cabeça, fiquei assustada”, Weizemann me disse, numa manhã de fevereiro, no gabinete da prefeitura. “Eu não queria nem função na Mesa Diretora, por medo das negociações, do histórico de corrupção na Câmara.” Ainda assim, aceitou o encargo. “Fui empossada vereadora, presidente da Câmara e prefeita no mesmo dia”, disse, ainda abismada. Imediatamente alçada à gestão do Poder Executivo, o comando do Legislativo ficou aos cuidados do vice-presidente, Rogério Quadros.

Weizemann é uma empresária de 55 anos, presbiteriana, que trabalhou desde cedo como auxiliar de enfermagem. “Eu fazia plantão no aeroporto e na Santa Casa, até que entrei no ramo de roupas e calçados”, explicou. “Passei a ser ambulante. Mas ainda ajudava as pessoas, como voluntária.” Vez por outra, acompanhava algum paciente em viagens a hospitais de São Paulo. Foi assim que passou a negociar os produtos Mary Kay – uma marca de cosméticos com preços mais baratos. “Eu aproveitava a viagem para cadastrar outras vendedoras”, explicou. “Até que me formei diretora de vendas.” Seu sonho, neste ano, era ser agraciada com um carro rosa – bonificação da marca às diretoras mais eficazes. “Aqui em Foz tem oito.” O sonho foi interrompido para que assumisse a prefeitura.

Inês Weizemann já havia concorrido à Câmara em três ocasiões, sem sucesso. Sua única experiência na política ocorrera em 2014, quando exerceu a vereança por dois meses, como suplente. Em 2016, acabou eleita pela primeira vez, com 1 486 votos. Por desconhecida que era entre os demais vereadores, acabou sendo a única a não enfrentar rejeição para comandar a cidade (também contribuiu o fato de ela ser filiada ao PSD, o Partido Social Democrático, de Chico Brasileiro, candidato que ficou em segundo lugar no pleito municipal).

“Converso bastante com o Chico, mas ele não interfere”, ela me disse quando lhe perguntei sobre o risco de ser manipulada. “Pareço frágil, mas não sou.” No seu primeiro mês à frente da prefeitura, Weizemann nomeou um secretariado técnico, formado quase todo por funcionários de carreira. Também cortou vários cargos de subsecretário. “Quero deixar a prefeitura pronta para a eventualidade de o Chico ser eleito”, explicou. “Depois, não sei. Se Deus me colocar numa secretaria, vou aceitar.”

Conheci Inês Weizemann no dia 2 de fevereiro, durante a sessão de abertura do ano legislativo de Foz do Iguaçu. O clima na Câmara era tenso, pois duas semanas antes a cidade atravessara um episódio especialmente tumultuado. Por determinação judicial, cinco vereadores haviam deixado a cadeia – algemados, sob escolta, e com uniforme de presidiário – para serem empossados. Vestiram terno, fizeram o juramento, assinaram o livro de posse – e depois voltaram da Câmara ao cárcere. O ato fazia sentido jurídico, já que todos estavam presos em regime preventivo, sem que tivessem sido condenados. Mas, do ponto de vista moral, representou um trauma para a cidade. Do lado de fora, algumas pessoas, enfurecidas, batiam nas viaturas que transportavam os parlamentares. Outras gritavam, manifestando apoio às detenções: “Polícia Federal, orgulho nacional.” Houve vaia, correria, e duas pessoas chegaram a ser detidas.

Talvez por isso a cerimônia de abertura, naquele 2 de fevereiro, estivesse lotada. Sentei-me no meio da plateia, em frente a dois homens que não paravam de conversar. “Minha esposa conseguiu um cargo”, ouvi um deles dizer. “A condição foi dar 10% de caixa 1 para um projeto do deputado. Mas caixa 1, que nem doação para partido.”

Às 9h30 um locutor iniciou a sessão, convocando à mesa plenária o “excelentíssimo presidente da Câmara, vereador Rogério Quadros”. Um dos homens atrás de mim acrescentou: “Interino. Presidente interino. Ele esqueceu esse detalhe.” O locutor chamou então os demais vereadores, seguidos pelo padre Vincent, da Igreja São João Batista, e pelo pastor Sebastião, presidente do Conselho de Pastores da cidade. “Do Judiciário não veio ninguém, né?”, ouvi o mesmo homem perguntar. “Se vier, prende tudo”, respondeu seu interlocutor.

Todos se colocaram de pé para cantar os hinos do Brasil e de Foz do Iguaçu. Depois os clérigos foram convocados a benzer a casa. O padre Vincent escolheu ler um trecho do Evangelho Segundo São Mateus, ao passo que o pastor Sebastião sentiu-se à vontade para proferir um discurso de sua própria lavra. “Quero dizer a todos que Foz do Iguaçu tem jeito”, garantiu o líder religioso ao microfone. “Vocês, senhores vereadores, têm o poder de fazer o barco andar no meio da tempestade. Deus escolheu vocês para serem melhores para a população, e não melhores que a população.”

Em seguida falou o presidente interino da Câmara, Rogério Quadros. “É fato que os vícios vêm de décadas. Mas hoje as luzes se acendem para um novo dia, um novo grupo.” Lembrou que vinha de família simples e que fora “polido numa instituição policial” (ele integra o quadro da Polícia Civil). “Estamos aqui para resgatar a imagem desta casa de leis. Peço a Deus que nos ilumine sempre.”

Inês Weizemann foi a última a discursar. “Um mês atrás, Deus me deu o maior desafio da minha vida”, disse, em tom confessional. “Nunca passou pela minha cabeça disputar a cadeira de prefeita. Nunca almejei estar onde estou. Mas tenho trabalhado em torno de vinte horas por dia. E faço um pedido: não me deixem errar.” Lembrou que não permaneceria por muito tempo no cargo, mas que, enquanto o ocupasse, daria o melhor para a cidade. “Por isso trabalho cada dia como se fosse o último. Meu compromisso não é com o homem, é com Deus. E, no compromisso com Deus, a coisa é bem mais séria. Quando a gente segue a direção de Deus, não tem como errar, meus irmãos em Cristo, meus queridos vereadores.”

Voltei à Câmara dos Vereadores na manhã seguinte, para conversar com o presidente interino, Rogério Quadros. Quando cheguei, ele estava apresentando os gabinetes aos vereadores suplentes. No dia anterior, Quadros os convocara para assumir as vagas dos parlamentares ainda presos.

O primeiro a ser contemplado foi Adenildo Rodrigues, o Kako, do PTN, o Partido Trabalhista Nacional. Dono de uma sorveteria, Kako também preside uma associação de moradores num bairro pobre de Foz do Iguaçu. Após receber 1 318 votos, passaria a ocupar o gabinete de Anice Gazzaoui, onde num cartaz preso à parede podia-se ler: “Anice vereadora – Corrente do Bem!” O inexperiente edil foi informado de que a fechadura seria trocada. “O vereador pode pintar o gabinete”, explicou Rogério Quadros. “Também pode colocar móveis e papel de parede, desde que respeite o patrimônio da casa.”

Quadros se dirigiu então ao tenente-coronel Marcos Antonio Jahnke, também do PTN, que obtivera 953 votos. Jahnke passaria a ocupar o gabinete de Darci Siqueira, enfeitado com uma reportagem ampliada e enquadrada d’A Gazeta do Iguaçu, o maior jornal da cidade. O título da matéria jornalística dizia: “Darci Siqueira será ‘o vereador do povo’.” Rogério Quadros brincou que as paredes, vermelhas, já estavam ao gosto do novo inquilino, que é oficial do Corpo de Bombeiros. Jahnke riu. Depois foi levado aos fundos da Câmara, para ser apresentado à sua vaga na garagem.

Por fim, Quadros conduziu os novos integrantes do Legislativo, Jahnke e Kako, ao plenário, indicando onde deveriam se sentar. Aproveitei para perguntar como eles haviam recebido a notícia de que seriam vereadores. Jahnke contou que estava no carro, a caminho de Curitiba, quando ouviu pelo rádio que a polícia prendera doze parlamentares. Como parte da antiga vereança havia sido reeleita, calculou que passara a ter chance de assumir uma vaga. Já Kako soube pelo irmão, que lhe telefonou para dizer que ouvira seu nome na tevê. “Eu nem tinha traje”, explicou, referindo-se ao uso obrigatório de paletó para quem ocupa uma cadeira no plenário. “Comprei agora.”

A conversa foi interrompida pela chegada de mais uma suplente, a técnica de enfermagem Rosane Bonho, do Partido Progressista, que obtivera 1 153 votos. Ela foi levada ao gabinete antes usado pelo vereador Luiz Queiroga. “Seja bem-vinda”, disse Rogério Quadros. “Precisamos de muito trabalho, e vamos cobrar.” Ela respondeu: “Amém. Deus promete, Deus cumpre. A palavra do homem pode cair no chão. A de Deus nunca.” Quadros convidou-a a conhecer o plenário, mas a vereadora pediu um momento a sós com sua pastora, que a acompanhava. Chamava-se Ana, e pertencia à Igreja Internacional dos Milagres de Deus. Elas se deram as mãos para uma oração. Depois a pastora contou uma história:

“Quando eu vim aqui no ano passado, no encontro de pastores, o presidente da Câmara me chamou para subir na tribuna. E quando me sentei naquela cadeira, Deus me disse que ela ainda seria sua. Ele me disse que eu estava abençoando a cadeira.”

Rosane Bonho respondeu, emocionada: “Pois então, a minha cadeira vai ser justamente aquela em que a irmã sentou.”

“Você vai trazer Deus para essa casa”, disse a pastora.

“Deus promete, Deus cumpre”, repetiu a parlamentar.

Dias depois, com os suplentes já instalados, a Câmara abriria uma Comissão Processante para investigar – e eventualmente cassar – os cinco vereadores afastados.

Deixei Foz do Iguaçu num sábado, no início de fevereiro. Naquele momento, a cidade ainda não sabia se o prefeito seria escolhido em nova eleição ou se o candidato derrotado, Chico Brasileiro, conseguiria uma decisão favorável do Supremo Tribunal Federal para assumir o cargo. Tanto o seu partido, o PSD, quanto a Procuradoria-Geral da República haviam entrado no STF com ações diretas de inconstitucionalidade; argumentavam que, em casos como o de Foz, a vitória deveria ser dada ao segundo colocado.

Por toda a cidade, não eram poucas as obras paradas: entre elas, uma praça cercada de tapumes, uma avenida esburacada, outra com asfalto pela metade. Na quinta-feira, dia 2, a Gazeta noticiava que a construção ainda incompleta do Centro de Atendimento ao Turista – uma parceria da prefeitura com o governo do estado – havia se transformado em esconderijo para usuários de drogas.

Àquela altura, o ex-prefeito Reni Pereira já havia se mudado para Curitiba, após passar 106 dias em prisão domiciliar. Aguardava o julgamento em liberdade. Quem também se tornara réu e aguardava por julgamento era o servidor Roberto Basílio de Oliveira, que dera início à investigação, ao se passar por juiz da Vara Previdenciária. Tentei contatá-lo por meio de sua advogada. Ela me disse que Oliveira vinha sofrendo de síndrome do pânico e problemas de hipertensão. Não conseguia sair de casa, nem poderia me receber.

Os vereadores investigados enfrentavam uma situação curiosa. A maior parte dos que haviam sido reeleitos continuava atrás das grades, sob o argumento de que, caso voltassem a exercer a função pública, poderiam reincidir em atos ilegais. Aqueles que não tinham mais mandato, em contrapartida, foram contemplados com habeas corpus expedidos pela Justiça Federal.

Conversei com o advogado Silvio Alvarenga, que representava cinco parlamentares. “Vivemos um estado de exceção”, ele disse. “A insatisfação com a classe política é muito grande, e a Justiça resolveu agir, mas em alguns casos com a mão pesada.” Reclamou que os exageros haviam surgido com a Operação Lava Jato. “A prisão preventiva é o equivalente de uma tortura oficializada. Por enquanto não entro nem no mérito da inocência, mas do direito de meus clientes responderem em liberdade, porque não se trata de um crime hediondo.”

No dia 8 de fevereiro, uma quarta-feira, recebi uma mensagem do ex-vereador Nilton Bobato, filiado ao Partido Comunista do Brasil. Ele havia se tornado uma figura algo mítica na cidade: foi o único dos quinze vereadores da legislação anterior a não ter sido preso ou conduzido a depor na Polícia Federal. Bobato me avisava que o Tribunal Regional Eleitoral do Paraná afinal agendara novas eleições municipais.

O novo prefeito de Foz do Iguaçu será escolhido no dia 2 abril de 2017. Ao que tudo indica, a disputa ficará entre Chico Brasileiro, do PSD (cujo vice será o próprio Bobato), e Phelipe Mansur, da REDE (que teve a vice indicada por Paulo Mac Donald). Marcos Antonio Jahnke também concorre à vaga.

E assim chega-se ao fim dessa história brasileira em três atos. Uma história que, por brasileira, começa com um servidor público se passando por juiz e termina com o encarceramento, ainda sem condenação, de um prefeito e doze parlamentares. Uma história com escuta telefônica, delação, empreiteira, obra superfaturada e um festival de humor organizado pelo cartunista Ziraldo.

Se essa história fosse uma ópera, este seria o momento em que os atores, ainda caracterizados, voltariam ao palco para receber os aplausos. Primeiro entrariam os doze vereadores, de mãos dadas, qual um corpo de baile. Alguns vestiriam terno, outros usariam uniforme de presidiário. Depois viriam Melquizedeque Souza e seu quarteto de delatores. Estariam à paisana, quem sabe de camisa florida, aliviados pelos acordos alcançados em troca das delações premiadas. Na boca de cena, ainda haveria oportunidade para um último número: um breve pas de deux realizado pelos ex-prefeitos Reni Pereira e Paulo Mac Donald. Aplausos.

O grupo então abriria alas para a entrada de um derradeiro personagem. Roberto Basílio de Oliveira subiria ao palco – talvez de toga – para receber a salva de palmas final.=

2 ideias sobre “Foz do Iguaçu e a Operação Pecúlio abrem espaço na piauí

  1. Cadê o MP

    Um punguista detona o esquema federal?
    E cadê o Ministério Público Estadual e Gaeco que nunca fizeram nada em Foz?

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