17:09Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata!

por Jardel N. Lopes [1]

O Grito dos Excluídos é fruto da caminhada construída na segunda Semanal Social Brasileira da Igreja Católica, que encerrou em 1994, com o tema “Brasil, alternativas e protagonistas”. Em 1995 deu-se início ao Grito dos Excluídos, cujo tema “Vida em primeiro lugar”. Até então são 22 anos de história. O Grito é pensado por uma equipe de pastorais sociais e movimentos populares, que organizam a temática, subsídios de formação, cartazes, vídeos, camisetas, jornais.

No decorrer dessa história viveu-se gritos, gemidos, sussurros, silêncios, mas, nunca perdeu a sua dimensão profética de denunciar as mazelas do capital ao apontar os excluídos e marginalizados. Sobretudo, ao dar voz aos sujeitos principais desse movimento.

O tema do 22º Grito dos Excluídos vem do discurso do Papa Francisco, dirigido aos movimentos populares do mundo, reunidos na Bolivia em julho de 2015. “Este sistema é insuportável”, disse o Papa. Os pobres, os trabalhadores, os camponeses, as periferias, os indígenas, os quilombos, enfim, a Mãe Terra não suporta o sistema.

Mas, que sistema é este? Qual é o sistema que precisa matar para constantemente para ele sobreviver? Qual a nossa capacidade de reconhecê-lo? Disse o Papa: “pergunto-me se somos capazes de reconhecer que estas realidades destrutivas correspondem a um sistema que se tornou global”. E continua ele, “Reconhecemos nós que este sistema impôs a lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza?”.

Na história da sociedade deparamos com diferentes modos da humanidade se organizar. Desde a comunidade primitiva até o modo de produção capitalista, tem sido marcada por lutas de classes, e exploração de uma classe social – os pobres. Historicamente o capitalismo tem provocado a pobreza de muitos e a riqueza de poucos, sobre a exploração do trabalho e dos bens naturais. No entanto, hoje a natureza grita por conta das mazelas do sistema que “exclui, degrada, mata”.

O sistema capitalista com dois mecanismos de acumulação: exploração da natureza e a exploração dos trabalhadores. Portanto, o resultado é sempre exclusão, degradação e morte.

Exclui 

A estrutura piramidal do sistema não permite que todos se apropriem dos mesmos bens. O topo da pirâmide cabem poucos. Sustentados por uma base de empobrecidos e explorados. O instituto Oxfam[2] aponta que em 2016, as 62 pessoas mais ricas do mundo concentra a riqueza equivalente à de mais da metade da população do mundo, ou seja, 3,6 bilhões de pessoas. Vale lembrar que nesse grupo de 62 pessoas, há dois brasileiros (um banqueiro e um empresário do ramo de bebidas). Além do mais, na sua maioria são dos Estados Unidos.

A pergunta é: quem produziu toda a riqueza dessas pessoas? Não resta duvida que emana da exploração da força do trabalho humano e da exploração da natureza. Para uns esbanjarem o luxo imensurável, outros rastejam as migalhas e as mazelas de um vale de lagrimas. Aí estão os pobres, marginalizados, das periferias, os negros, historicamente excluídos. Sobre esses, o Papa Francisco proclama: “Que o clamor dos excluídos seja escutado na America Latina e em toda a terra”. Por isso, o Grito dos Excluídos é um lugar teológico da mística dos pobres.

 

Degrada

 

A natureza tem denunciado as mazelas do sistema capitalista. A grande quantidade de lixo, de descartáveis, poluição, lançado a céu aberto, tem provocado impactos socioambientais gravíssimos. Enquanto apenas os pobres sobreviviam dos lixões, disputando com aves abutres, essa problema não tinha tanto impacto, como o que esse mesmo lixão causa para as mudanças climáticas.

O Papa Francisco com a Encíclica Laudato Si, denuncia este sistema e chama atenção para o cuidado com a Casa Comum. “As mudanças climáticas são um problema global com graves implicações ambientais, sociais, econômicas, distributivas e políticas, constituindo atualmente um dos principais desafios para a humanidade” (LS, 25).

O caso do crime da mineradora Samarco, terceirizada da Vale, no município de Mariana, distritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Minas Gerais, representa estruturalmente a capacidade que o sistema econômico tem de destruir comunidades, povos, rios, animais, vegetação, e tudo fica por isso mesmo. As leis e o governo, continuam “beijando os pés” da Vale, da Samarco, para não perder os impostos sonegados da empresa.

Quem se importa com as populações ribeirinhas? Quem se importa com a extinção de espécies de peixes no rio Doce? Quem se importa com as famílias que perderam suas casas, suas terras, sua história? Quem se importa com trabalhadores, crianças, idosos, que morreram assassinados pela lama do capitalismo da Samarco-Vale? Quem se importa se foram 18 pessoas assassinadas pela Samarco-Vale, e a justiça não vê isso como crime?

 

Mata

 

“Vó que barulho tão alto é esse? Parece que o mundo está acabando… estou com medo… será que Jesus esqueceu de nós… meu Deus”. Com essas palavras, Thiago Damasceno dos Santos, 7 anos, morreu engolido pela lama da Mineradora Samarco-Vale. Não Thiago, Deus não esqueceu de você. Como Deus não esqueceu do menino imigrante Aylan Kurdi, de 3 anos, encontrado morto na praia da Turquia, levado pelas ondas até ali. Como também não esqueceu dos Matheus, Felipes, assassinados nas periferias do Brasil pela polícia do estado. Também não esqueceu de Margarida, Padre Gabriel, Santo Dias, entre tantos sem terras, indígenas, quilombolas, trabalhadores rurais, assassinados pelos sistema do agronegócio.

Este sistema mata! E há várias formas de matar. Quando nega os direitos à vida, e sobretudo quando oprime, quando se faz indiferente, quando investe na cultura da violência, da vingança, e portanto incentiva cada vez mais a confecção e porte de armas. Mata quando nega os direitos da saúde, da educação, do trabalho, e tantos outros. Mata quando determina qual a religião lhe e mais útil (para o sistema). Quando exclui o negro, a mulher, os pobres, a população LGBT, os moradores de rua, os migrantes, os catadores, e tantos outros. Este sistema não serve! Um outro mundo é possível e necessário.

 

As facetas do Sistema

 

O sistema capitalista no mundo está em crise. No Brasil essa crise está começando a se agravar, a entrar em colpso. A práxis do sistema capitalista no mundo em tempos de crise, tende a provocar dois movimentos: 1) guerras; 2) pressão/exploração sobre os trabalhadores. O mundo já vivenciou várias guerras, e ainda temos assistido diversas guerras no momento, provocando imigrações forçadas. “Existe guerra de interesses, existe guerra pelo dinheiro, existe guerra pelos recursos da natureza, existe guerra pelo domínio dos povos: esta é a guerra”, disse o Papa Francisco durante sua viagem para Polônia, em Julho de 2016.

O segundo movimento do sistema capitalista é sobre os direitos dos trabalhadores. E isso tem acontecido na Grécia, na Espanha, entre outros, e recentemente esse movimento se intensificou no Brasil. O mecanismo de exploração recente no Brasil começou pela política. Os três maiores orçamentos do governo são: Saúde, Educação, Previdência. São exatamente esses que estão na mira das reformas do governo Temer. Mas, não é só do governo, e sim de toda a política neoliberal, do agronegócio, dos bancos, do petróleo, das armas que golpeia a política para saquear direitos. O governo é apenas o instrumento, pois com ele se muda leis históricas e suadas, se retira benefícios, entre outros. Em tempos de crise, a burguesia que sempre esteve de barriga cheia, não permite que ganhar menos para que o outro coma ao menos as migalhas.

É por isso, que os trabalhadores, a juventude, as mulheres, enfim, todos que de alguma forma estão tendo seus direitos retirados, assassinados, precisam se unir e ocupar as ruas. Para dizer NÃO à política que atende as regras do capital financeiro do mundo. Para isso, uma nova política é necessária. Mas, só será possível, com a união dos povos, e a com a construção coletiva. O grito dos excluídos é esse espaço, de unir os generosos e as generosas, como dizia Dom Helder Camara, para dizer que “este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata”! Vida, em primeiro lugar!

 

[1] Coordenação Nacional da Pastoral Operaria, Coordenação regional das Pastorais Sociais do Paraná, Assessor da Pastoral da Juventude.

[2] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2016/01/1730524-62-bilionarios-tem-patrimonio-igual-ao-de-36-bilhoes-mais-pobres-diz-ong.shtml

6 ideias sobre “Este sistema é insuportável: exclui, degrada, mata!

  1. marcio ferreira

    Nos anos 1960 cerca de 95% da população brasileira se declarava católica. Nesta década começou o tal do grito e como consequência hoje se declaram católicos algo no entorno de 50%. Isto é causa e efeito.
    Um lembrete de que há uma falácia na argumentação do articulista, ou seja, uma nação não é pobre porque outra é rica, eu não sou pobre porque o meu vizinho é rico, as causas são outras, inclusive e principalmente o paternalismo aos necessitados, utilizados como massa para fins políticos. Ao invés de conversa politiqueira, deveriam há muito impor uma educação técnica e financeira. Isto é o que ocorre nas nações ricas.

  2. marcio ferreira

    O articulista deveria se informar melhor, pois os países que mais degradam o meio ambiente foram justamente os do antigo Pacto de Varsóvia. Exemplos :
    Quando da reunificação alemã, a antiga Alemanha Ocidental teve que dispender um Trilhão de dólares na antiga Alemanha Comunista, para corrigir as questões ambientais e sociais.
    O acidente da usina nuclear de Chernobyl ocorreu porque as normas de segurança eram soviéticas, se fossem ocidentais não ocorreria.
    O acidente de Fukushima não foi pior graças a legislação ambiental e de segurança.

  3. marcio ferreira

    Mais um detalhe, por pior que seja o sistema da democracia, morre-se menos do que no sistema soviético, no sistema cubano, Kmer Vermelho, China de Mao tse Tung, q

  4. Carla Abreu

    Padres, bispos, papa, todos falando de seus palácios de ouro conquistados na Idade Média , a custa de muito sangue!!!! Vão trabalhar sério e usar o rico $$$$$$ da igreja efetivamente para os pobres!! Hipocrisia pura

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