6:31Esse viking é uma figura

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por Célio Heitor Guimarães

Adolfo Aizen, o homem que trouxe os heróis de papel para o Brasil, dizia que quadrinho era coisa de criança. Sempre concordei com o saudoso mestre. Mas necessário se faz um pequeno adendo àquela afirmação: há quadrinhos e quadrinhos. Superman, Batman, Homem-Aranha, Capitão Marvel, O Fantasma, Mandrake, Pato Donald, Tio Patinhas e outros personagens, mascarados ou não, que usem fantasia, voem, tenham chegado de outro planeta, escalem paredes, façam ilusionismo, habitem Patópolis ou morem em cavernas são destinados às crianças. Crianças de todas as idades, ressalve-se.

No entanto, há aquelas figuras desenhadas que ultrapassam o mundo infanto-juvenil e, ainda que também agradem e animem a petizada e os adolescentes, destinam-se aos mais crescidinhos. E não decepcionam. Muito ao contrário. Aí situam-se, entre outros, Spirit, de Eisner; Peanuts, de Schulz; Mafalda, de Quino; Asterix, de Goscinny e Uderzo; Lucky Luke, de Morris e Uderzo; Recruta Zero, de Mort Walker; A Arca de Noé, de Addison (Mort Walker), B.C., de Hart; Zé do Boné (Andy Capp), de Smythe; Os Fradim, de Henfil; e Garfield, de Davis.

Outro personagem exemplar que sempre deu alegria a grandes e pequenos e que andava meio sumido ultimamente era Hagar, o Horrível, tira criada por Dik Browne em 1973 e que chegou a ser distribuída pela King Feature Sindicate para mais de 1.900 jornais, em 58 países e 13 idiomas.

Hagar é um guerreiro viking, saqueador por profissão e prazer. Grande, gorducho, glutão e beberrão, é, na verdade, uma criança crescida, que apenas teme a esposa. Mandona, criativa e inteligente, Helga é o cérebro que faltava ao marido. Mas Hagar tem também outras preocupações: o fiel escudeiro Eddie Sortudo, leal a toda prova; o filho Hamlet, de uns 10 anos, limpinho e estudioso, que gosta de cortar o cabelo e é um devorador de livros – a grande decepção do pai; e a filha Honi, 16 anos, terrivelmente dividida entre tornar-se um valkiria e encontrar um marido.

Segundo os filhos Chris e Charce Browne, Dik era o próprio Hagar. “Grande e forte, gordo e barbudo, durão e afetuoso, divertido e esperto, e humano o tempo todo”. O colega artista Mort Walker, pai do Recruta Zero, vai além de afirma que a semelhança física e da barba de Dik e Hagar “é só a ponta do iceberg”. E garante que “a postura de Hagar em relação à vida, seu apetite incontrolável, seu comportamento infantil, seu amor pela diversão, tudo isso é o mais puro Dik Browne”.

Como já começava a ter problemas de visão, Dik preferiu criar uma tira limpa, com traços grossos e de fácil visualização; eliminou os detalhes inúteis e destacou os balões das falas. Quer dizer, a tira “saltava da página aos olhos do leitor”, como bem expressou Brian Walker, fundador do Museum of Cartoon Arte.

Mas o que valia mesmo era a verve de Dik Browne, capaz de em dois ou três quadrinhos produzir um humor refinado, simplesmente irresistível ao leitor. Modesto, creditava a sua inspiração à Mark Twain: “A fonte do secreta do humor não é a alegria, e sim o sofrimento. Não existe humor no paraíso”.

Quando Dik faleceu, em 1989, o filho Chris, que já colaborava com o pai, assumiu o personagem, com idêntico resultado.

Todo esse introito é para comemorar a volta do genial Hagar às livrarias e gibeterias nacionais, graças a uma notável iniciativa da L&PM. A exemplo do que já vem fazendo com Peanuts, com a publicação definitiva da obra completa de Charles M. Schulz, atualmente no oitava volume (anos 1965 e 1966), a editora gaúcha está brindando o grande público com o primeiro volume das tiras diárias completas de Hagar, o Horrível (de 5 de fevereiro 1973 a 8 de junho de 1974), com tradução de Alexandre Boide e edição muito bem cuidada, como de praxe (formato 21 x 16 cm, 224 páginas, R$ 42,90).

A diversão é garantida e proveitosa, como provam as tiras acima, aqui reproduzidas a título de divulgação e em homenagem ao autor e à editora.

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