7:10Erar é umano

por Reinaldo Figueiredo

Na semana passada, esta coluna teve acesso a um material confidencial. Trata-se do rascunho de um comunicado produzido pela assessoria de imprensa do governo federal.

Utilizando um método pouco ético, mas que atualmente tem grande aceitação em todos os setores da atividade pública, demos um pixuleco para o pessoal da limpeza, que recuperou na lixeira de um computador o tal rascunho, reproduzido aqui, na íntegra:

Reconhecemos que essa porcaria, assim como outras porcarias editadas pelo governo, talvez devesse ser alvo de maior reflexão e de um debate prévio, com a participação de todas as partes envolvidas.”O Ministério do Trabalho vem, por meio destas mal traçadas linhas, constatar que, infelizmente, a sociedade ainda não entendeu bem o alcance da porcaria n. 1.129/2017, sobre a flexibilização do conceito de trabalho escravo.

Porém, muitos dos brasileiros submetidos a trabalhos em condições análogas à escravidão não teriam tempo de participar dos debates sobre essa porcaria, porque eles têm mais o que fazer, e muitas tarefas a cumprir, em horários incompatíveis com a prática do debate democrático.

No nosso entendimento, a porcaria que provocou toda essa polêmica é uma porcaria semelhante a várias outras porcarias criadas por este governo e não deveria ser alvo de tantas críticas.

Achamos que, a esta altura do campeonato, nosso povo já deveria estar acostumado com essas porcarias. Não tem sentido criar tanta celeuma só por causa de uma porcaria dessas. Até parece que vocês não sabem como as coisas acontecem no nosso país.

A gente vai lá, baixa uma porcaria qualquer e espera para ver o que acontece. Às vezes aquela porcaria passa batida, ninguém nem toma conhecimento e a vida segue em frente.

Mas, por motivos que fogem à nossa compreensão, algumas porcarias não são bem aceitas. Muitos alegam que essa porcaria foi baixada para agradar parlamentares que se comprometeram a apoiar o governo numa votação aí.

Mas isso não vem ao caso. Se vocês insistirem muito, tudo bem, a gente publica outra porcaria no lugar dessa e não se fala mais nisso, ok? Foi mal.”

Este é o comunicado que não foi publicado. Os psicanalistas talvez digam que isso é um caso típico de “ato falho”. Mas as pessoas comuns chamam isso de “cagada” mesmo. É como dizem os americanos: “shit happens”. E os tradutores automáticos da internet traduzem assim: “porcarias acontecem”.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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