16:11Dalva, peixe-mulher canoro

por Renato Borghi

Agora, habitando as ruínas do antigo Cassino da Urca como o velho Hamm da peça “Fim de Jogo”, de Samuel Beckett, paralisado em uma arcaica cadeira de balanço de minha mãe (paralisia cênica, apesar de minha coluna de titânio), por trás dos óculos escuros que me fazem de cego, olho para o templo de meus ídolos, meus pais, meus tios, as paredes se desfazendo, a água da chuva abrindo caminho pelas frestas, o majestoso morro da Urca quase invadindo o prédio pelo buraco no teto.

Na trilha fantasmagórica que ressoa no que restou do glorioso palco espelhado, Carmen Miranda, Chacrinha e minha amada Dalva de Oliveira. Ouço, penso e vejo essas pessoas, que eram semideuses pra mim, e eles estão lá, entre os morcegos e sombras dos animados frequentadores das noites de orgia. Quando meu companheiro de cena, Elcio Nogueira Seixas, meu Clov, o prego de meu martelo, vira minha cadeira na direção do tablado, das cortinas, da orquestra e das coxias que não mais existem, minha musa está lá, diante do microfone prateado. Sempre esteve, mas fisicamente, quero dizer.

Levei para as ruínas a capa do primeiro disco 78 rotações de minha diva, que ganhei aos sete anos de idade. O disco foi dado por minha mãe, Maria de Castro Borghi, em 1944, na nossa casa na rua Carlos Vasconcelos, na Tijuca, no Rio. Ali eu desenhei a caneta notas musicais sobre seu belo rosto de olhos verdes e, na contracapa, escrevi a lápis os nomes de todas as canções do lado A e do lado B.

E, quando imagino Dalva pelos corredores, escadarias e camarins que se tornaram pouco mais que poeira, entendo algumas palavras que dediquei a ela em texto que escrevi e reescrevi para o teatro, para dizer a minha estrela no palco, encarnada para mim (em 2017, quando Dalva faria 100 anos, será por Laila Garin; há 30 anos, foi por Marília Pêra): Ah, o que eu não fazia pra te ver cantar! Um Indiana Jones semanal. Atravessar a cidade até chegar ao sindicato do crime. Caras que eu nunca tinha visto: bandidos, prostitutas e muitas bichas; pretas, brancas, mulatas, loiras oxigenadas. Eu passava quase correndo… Um corredor de veados maquiados, encostados nos postes, fumando cigarros, com as calças bem puxadas para a cintura e os cintos bem apertados, valorizando as nádegas. Algumas eram gordas, outras idosas, eu tinha medo de olhar pros lados, mas não conseguia resistir, aquilo tinha a força de um ímã inevitável.

Era um outro mundo, um Fellini antecipado que eu nunca tinha visto. Aí, entrar na fila das macacas que ficavam gritando seu nome, dando escândalos, desmaiando, trocando fotografias… E eu bem quietinho, humilde, discreto, mas feliz porque, em poucos minutos, ia te ver cantando só pra mim. Você me viciou, Dalva. Eu te acompanhei a vida inteira. Quando você cantava no porto de Santos, as putas paravam o trabalho e caminhavam apressadas em direção à boate, tropeçando os saltos frouxos nas ruas esburacadas do cais do porto. E eu também estava lá. Eu sempre estive com você.

Dalva, você foi minha progenitora, minha mãe na arte. Quem diria? Um atorzinho metido a besta, a revolucionário do teatro, foi cria de Dalva, que a bossa nova chamava de cafona, que escorregou do samba-canção pro bolero traduzido às pressas, rimando amor com dor.

Dalva, que se fosse preciso, se arrastaria até o microfone, apoiada em cadeiras, para poder cantar as dores do amor traído, tatuado em versos banais na alma das putas e dos veados daquele tempo. De repente, o milagre! Uma aura de luz te iluminava inteira, e você era uma deusa, uma entidade trágica, uma Medeia incorporada vociferando blasfêmias num canto agudo de sereia desembarcada na praça Mauá. E todos olhavam o peixe-mulher canoro, aquela estrela-do-mar, olhavam e calavam o grito de espanto pra não estragar o final.

Este texto é para Dalva de Oliveira, minha Iemanjá de luvas pretas e pulseira de falsos brilhantes!

RENATO BORGHI, 79, é ator e dramaturgo, está em cartaz com “Fim de Jogo”, no Teatro do Cassino da Urca, no Rio, até 17/9

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