18:28Curitiba, desperdício da nossa alegria

por Roberto Prado

Calma, calma, não estou inventando. Um dia desses eu pensei ou li em algum lugar que Curitiba, sempre que tem chance de aparecer na fotografia, simboliza a si mesma com imagens de parques, prédios públicos e obras viárias. Se não pensei, deveria ter pensado. E se li, deveria ter escrito antes, pois está na cara que nós, as pessoas, os atores, só servimos mesmo para atrapalhar este espetáculo produzido, escrito e dirigido por cenógrafos.

Alegria, alegria!

Pode virar cambota e dar pirueta à vontade. Aqui a plebe não tem tempo a perder com besteira. E a elite está muito ocupada mandando em você. No filme da cidade, fomos contratados como extras, orientados para não ficar na frente do cenário e limitados aos desafiantes papéis de passantes, populares e cidadãos genéricos. E lambam os dedos, pois os nossos chefes estão prestes a descobrir que, para isso, é mais negócio contratar um elenco em São Paulo.

O que é que o baiano tem?
Parece exagero? Acha que eu inventei? Então faça o teste: procure algum anúncio ou cartaz com o título ao menos próximo de “Curitiba, terra de Dalton Trevisan”, mande cópia e concorra a uma viagem com tudo pago para a maravilhosa terra de Jorge Amado.

Tubo de imagem queimado.

Agora, vamos calcular juntos e sem inventar moda: se nem mesmo os portentos da literatura, da arte, da ciência e do esporte servem como ícones de coisa alguma, imagine eu, você e o tal do povão. Nós todos, esse bando de pobres coitados que insiste em andar por aí enfeando a paisagem, não temos nem o direito sagrado de aparecer vendendo acarajé, batucando pandeiro, manobrando as velas do Mucuripe, tostando um boi no espeto, assando na praia ou comendo chineque no Centro Cívico.

Queimando o filme bonito.

Nossa principal função simbólica consiste em estrelar comerciais dos governantes dizendo variações da frase: “Ih, tá bem mió. Arresorveu. Coéssa obra cabo o pó, gora tá mir di bão. Celente mesmo!”. E nada de invencionices. No final, devemos fazer um tímido sinal de positivo e sorrir amarelo. Nunca em close, claro, seria pedir demais, pois sabemos que o essencial é dar destaque ao trator de esteira em primeiro plano, à perfeição da nova malha asfáltica e às dimensões do caminhão cegonheira que passa, simbolizando o tamanho da utilidade da obra. Feita com o dinheiro de quem, espertalhão? Dos extras.

Falta na entrada da área, quem vai bater?

E se tudo isso não fosse, como parece, uma grande sacanagem, mas, sim, a alta pedagogia de uma elite sábia, que assim evita nos estragar com elogios, mimos e carinhos? Esqueça: é sacanagem mesmo. E se você acredita no sofrimento como método de aprendizado, pode tirar o coitado do cavalinho do granizo: a necessidade, definitivamente, não é a mãe da invenção. Sofrer ensina a ser sofredor, necessidade ensina a ser necessitado. É científico. Ou você acha que o Neymar treinou cobrança de falta descalço, chutando paralelepípedos, enquanto lhe passavam a mão no traseiro e davam tapões na orelha “pra ficar esperto”? Então você dirá: “esse rapaz não jogava aqui, mas em Santos e o título deste post não é seu, mas de um compositor magrinho de Irará, no interior da Bahia.” E eu serei obrigado a concordar. Pois agora você me pegou. E, pior, me pegou em flagrante, tentando inventar.

 

 

Uma ideia sobre “Curitiba, desperdício da nossa alegria

  1. Sergio Silvestre

    Banheiro com hidromassagem no centro e penicos por todos os lados na periferia.Cidade modelo enganoso.

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