11:30Cunha põe, Cunha tira?

por Bernardo Mello Franco

“Alguém tem dúvida que se não fosse minha atuação, [não] teria processo de impeachment?”. A pergunta foi feita por Eduardo Cunha na sessão em que a Câmara cassaria seu mandato. A resposta era óbvia. Sem a ajuda do correntista suíço, Michel Temer nunca teria chegado à Presidência da República.

Cunha acionou a máquina que instalou o “vice decorativo” no comando do país. Pouco mais de um ano depois, ele pode virar peça-chave em outra derrubada de presidente. Preso em Curitiba, o ex-presidente da Câmara negocia um acordo de delação.

A promessa, informou a colunista Mônica Bergamo, é detonar os velhos parceiros do PMDB da Câmara. No centro da mira, está o presidente Temer. Ao lado dele, os ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco.

O correntista suíço está na cadeia há quase nove meses. Ele já se queixava de abandono, mas resistia a entregar os comparsas. Começou a mudar de ideia em março, ao receber a primeira condenação. Pegou 15 anos pelos crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Sem um habeas corpus do Supremo, a paciência do ex-deputado foi acabando. O copo transbordou com a notícia de que o doleiro Lúcio Funaro decidiu falar. Cunha percebeu que o bonde da delação estava passando e agora corre para garantir seu lugar.

Apesar da negativa do advogado presidencial, o governo entrou na UTI com a prisão de Geddel Vieira Lima. Uma delação do correntista suíço equivaleria a desligar os aparelhos e encomendar a alma do paciente.

No século passado, Carlos Lacerda (1914-77) ganhou a alcunha de “derrubador de presidentes”. Cunha se candidata a herdar o título, mesmo sem as qualidades do udenista.

A negociação deve fermentar o debate sobre as delações. Um personagem com a folha corrida do ex-deputado, envolvido em escândalos desde o governo Collor, merece ter a pena reduzida em troca de informações à Justiça? Se a lógica for chegar ao topo da quadrilha, é possível que sim.

*Publicado na Folha de S.Paulo

2 ideias sobre “Cunha põe, Cunha tira?

  1. Zé Ninguém

    Se as delações do ainda poderoso ex-presidente da Câmara Federal puserem vagabundos e ladrões na cadeia o cara merece até o perdão das suas culpas. Vagabundos de bem menor calibre como os irmãos açougueiros foram muito bem aquinhoados; os caras ainda se recusam a entregar o verdadeiro dono dos frigoríficos que eles fingem ser deles. Agora que o trem das delações começa a chegar no ponto final e aí a viagem perde a graça, ou a tigrada que deve que comece a pagar.

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