8:34Com Temer, renasceu a anarquia militar

por Elio Gaspari

O juiz Sergio Moro mandou levar Lula a cadeia. Releia o que disse o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, na terça-feira:

“Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.”

Essa frase é um retumbante truísmo. Ela pesa, e muito, pela ocasião: a véspera do julgamento do habeas corpus de Lula pelo Supremo Tribunal. Basta fazer um exercício: se o general dissesse a mesma coisa amanhã, o inuendo permitiria supor que estivesse falando da Operação Skala, que colocou na cadeia amigos de Michel Temer.

Falar por meio de elipses é um conhecido recurso da retórica de militares que se metem em política. Em 1955, depois de depor dois presidentes (Café Filho e Carlos Luz), o ministro-general Henrique Lott disse que pretendeu “garantir a volta aos quadros constitucionais vigentes”. Quem souber o que isso quer dizer ganha um fim de semana em Caracas.

A nota do general Villas Bôas expôs o pior legado da breve Presidência de Michel Temer. Ele replantou a semente da anarquia militar, adormecida desde o fim do século passado.

Em 2015, no governo de Dilma Rousseff o general Hamilton Mourão condenou “a maioria dos políticos de hoje” e pediu um “despertar para a luta patriótica”. Foi exonerado do comando das tropas do Sul por Villas Bôas e nada aconteceu. Em setembro passado o mesmo general fez uma conferência escalafobética e nada lhe aconteceu.

Meses depois, numa “jogada de mestre”, Temer militarizou a questão da segurança do Rio, para conforto do governador Pezão e do MDB do estado.

Nunca é demais repetir a classificação feita pelo presidente Castello Branco, um general que falava claro: “Vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bolir com os granadeiros e provocar extravagâncias do Poder Militar.”

*Publicado na Folha de S.Paulo

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