8:41Chicago, 42 km

por Fernando Muniz

Coreanos batendo bumbo e, cinco quadras adiante, japoneses batem bumbos também. Drags louquíssimas, com barbas lilás e rosa, vestidas feito vedetes dançam o que toca nas paradas de sucesso, aplaudidas por senhorinhas com cabelos da mesma cor daquelas barbas. No bairro seguinte, Elvis tira fotos com fãs sequer nascidas quando dizem que ele morreu, enquanto o som ambiente toca Jail House Rock. O Rei pode tudo, inclusive roubar a cena dos corredores naquela manhã. Na altura da Universidade Malcom X uma banda de rapazes ou garotas meio andróginos esgoela rock de vanguarda, e, em seguida, um baterista alucinado marreta seu instrumento e enche a rua de metal pesado. Mas não por muito tempo, pois, logo em seguida a mais um posto de hidratação, uma DJ tatuada até o pescoço mistura Katy Perry com Michael Jackson, seguido pelo hino oficial dos underdogs do mundo inteiro, Eye of the Tiger, dando força aos corredores, fazendo-os Rocky Balboa por trinta segundos, tempo suficiente para esquecerem a sensata ideia de abandonar a corrida naquele quilômetro trinta e poucos, maldito, excruciante, que arrebenta os fracos.

O corredor segue, apesar dos 11º C e um vento forte entre os cânions de prédios. O povaréu coalha as calçadas, em busca do seu corredor preferido, pai ou mãe ou filho ou amigo ou, quem sabe, um novo amor entre os cinquenta mil espalhados pelo trajeto. Mas ele não perde a concentração, apesar daquela gente balançando chocalhos, bonés e placas em dezenas de línguas, com bandeiras em punho, de todas as cores e cantos do mundo, até de países que não existem como o Tibete ou Curdistão, felizes por estarem ali, dia pleno de sol e céu sem nuvens.

Nos primeiros quilômetros ele ainda pensava em superar limites, baixar o tempo de corrida e com isso aumentar sua autoestima, ao conquistar mais uma razão para continuar apaixonado por si próprio. A claque, alvoroçada com os corredores, tenta ajudar. Motivos ele arrumou, às pencas, para avançar pelo décimo, décimo quinto e vigésimo quilômetros, com a razão e o bom-senso soar cada vez mais pálidos enquanto ele apertava o ritmo das passadas.

Nem se recorda por que começou a correr. Deu um trote em volta da quadra, decidiu parar de fumar e, de um dia para o outro, mais e mais treinos, provas e desafios, de uma cidade a outra, resolvido a imitar aquele grego que morreu ao entregar uma mensagem. Só que desta vez o esforço tem outro propósito: “Venci!”.

É obsessão, com certeza. E o corpo cobra. Caro. A morte ronda o percurso, logo ali, em busca de quem não se respeita e, muito menos, respeita a prova. Lembra-se de um conhecido, tão cheio de si, fulminado por um infarto logo no início de uma corrida de rua banal e corriqueira, como tantas lá em sua cidade. Mas a lembrança foge, espantada pelo barulho dos torcedores quando cruza o bairro chinês, com seus dragões, roupas coloridas e bandeiras vermelhas, de todos os tamanhos, enroladas nos pescoços e em crianças de colo. Nacionalismo pueril.

Passa por um dos últimos pontos de hidratação, em que vê de relance uma ambulância coalhada de paramédicos um tanto nervosos com uma mancha escura, inerte, espichada na maca da ambulância. Lá está ela, sorrateira, à espreita. Mas ele toca adiante, sem se abalar.

Só que o corpo não aguenta mais. Vão embora todas as esperanças de superação. Desta vez não vai ser. Na altura do quilômetro quarenta os pés, joelhos, coxas, quadris, braços e pescoço demandam a imediata cessação das hostilidades. Porém o cérebro enxerga a massa que o incentiva a terminar, as bandeirolas, os corredores caídos no gramado rente à rua, as bandas e avança. Pondera se não é o caso de andar; de jeito nenhum, humilhação suprema. Continua, nem se questiona como ou por que, com receio de desabar no asfalto.

Seu objetivo, no início pomposo e arrogante, vira um reles chegar, logo ali, uma questão de centenas de metros. E um alívio o invade. Despido de metas, objetivos, planos, promessas ou presunções, ele se reconhece. Apenas quer chegar. E ter o contentamento de conquistar a linha de chegada.

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