12:02Carlos Maranhão lança “Roberto Civita: O dono da banca”

Do jornal O Globo

‘Roberto Civita: O dono da banca’, a biografia do editor e empresário que, junto com o pai, Victor Civita, levou o grupo Abril a tornar-se a maior editora da América Latina, chega às livrarias do país nesta quinta-feira. Publicada pela Cia. das Letras e escrita pelo jornalista Carlos Maranhão, a obra proporciona, em paralelo à saga dos Civita, uma rica viagem pela evolução da mídia no país, tendo como pano de fundo as transformações políticas, econômicas e sociais dos últimos quase 70 anos.

Com narrativa fluida e direta, o livro passa pela cidade de Reggio Emilia, na Itália, onde, em 1878, nasceu Carlo Civita, pai de Victor e avô de Roberto. Resgata a história da ascensão empresarial do patriarca, após viver nos Estados Unidos, no início dos anos 1900, e voltar à Itália. E discorre sobre a fuga dos Civita, então uma próspera família com sólidos negócios estabelecida em Milão, para os EUA, em 1938, escapando da perseguição nazifascista aos judeus na Europa, pouco antes da Segunda Guerra.

Circunstâncias, acasos e coincidências — às quais Roberto Civita sempre deu muita importância — conduziriam a família ao mundo dos empreendimentos editoriais. Primeiro, com a fundação da Editorial Abril, em meados dos anos 1940, em Buenos Aires, pelas mãos de Cesar Civita, irmão de Victor. Que, anos mais tarde, o convenceria a se mudar para o Brasil para comandar a empresa, cuja firma havia registrado em São Paulo, em 1947, e dirigia à distância.

“VC (como era chamado Victor Civita pelo irmão) era um homem sofisticado. Para ele, as fronteiras do mundo limitavam-se a Milão, Cortina D’Ampezzo, onde esquiava, Paris, Londres e Nova York”, conta Cesar em raro livro de memórias, intitulado “La mia vita”, obtido por Maranhão.

Em dezembro de 1947, a Abril lançaria nas bancas do país a revista em quadrinhos “O Pato Donald”.

No livro, Maranhão detalha conflitos e dúvidas com que Roberto lidou até decidir-se a trabalhar com o pai. Aos 22 anos — recém-saído de um estágio na revista americana “Time”, após se formar em jornalismo e Administração na Universidade da Pensilvânia, nos EUA — ele ficou dividido entre um convite para ser correspondente da revista em Tóquio e voltar ao Brasil, para ajudar a dirigir a Abril.

“Você não acha que está na hora de vir para a casa e começar a trabalhar?”, disse o pai, Victor Civita.

“Mas eu vou trabalhar na ‘Time’, em Tóquio”, retrucou.

“O que você quer, mudar o mundo?”, perguntou o pai.

“Quero”, respondeu.

Ao que o pai emendou: “Pois aqui você terá muito mais espaço para isso. No Brasil, sua alavanca será maior. E você estará trabalhando para algo que é seu, não dos outros.”

No dia seguinte, Roberto diria ao pai que ficaria no país. “Quero fazer três revistas, uma semanal de informações, uma de negócios e uma revista masculina”, afirmara. Dez anos depois, em setembro de 1968, lançava a “Veja”.

Rico em detalhes e recheado de intrigas, desavenças, conflitos familiares, disputas e traições, o livro percorre de maneira dinâmica a evolução do grupo Abril, desde o lançamento de títulos pioneiros, como “Quatro Rodas” (1960), “Manequim” (1961) e “Claudia” (1962), que, como “Veja” e “Exame” (1967), permeiam a vida de gerações. Aborda ainda as arriscadas incursões no mundo da televisão, com a criação de TVA e DirecTV, que quase levaram o grupo à falência no início dos anos 2000.

— A Veja foi lançada com tiragem de 700 mil exemplares, em setembro de 1968, mas a circulação caiu vertiginosamente nos meses seguintes, dando um prejuízo colossal. Roberto dizia ao pai que precisava de mais três meses. Em novembro, vieram o AI-5 e a censura. Seu Victor bancou o projeto com lucros de outras publicações. Um pesadelo do qual a revista se livrou aos poucos, até que tiveram a ideia de fazer assinaturas — resume Maranhão.

IDEIA PARTIU DO EMPRESÁRIO

Maranhão, que por mais de 40 anos trabalhou na Editora Abril, tendo passado pelas redações de “Placar”, “Playboy” e, na maior parte do tempo, na “Veja”, diz que a ideia de uma biografia nasceu do próprio Roberto:

— Em 2012, ele me chamou para falar que tinha pensado num projeto de escrever suas memórias e perguntou se eu topava.

Projeto aceito, combinaram entrevistas semanais, geralmente, às sextas-feiras. Ao todo, Maranhão fez oito entrevistas, das 37 agendadas. A última, em fevereiro de 2013, quatro dias antes de Roberto Civita submeter-se a uma cirurgia. Aos 76 anos, o empresário e editor permaneceria três meses no hospital, onde morreu em 26 de maio.

De posse de um “depoimento muito rico, mas incompleto”, Maranhão pediu consentimento aos três filhos de Roberto — Giancarlo, Victor e Roberta — para publicar “uma biografia independente da Abril”. Com o sinal verde, em agosto de 2013, deixou a editora e pôs-se a trabalhar no livro. Com 528 páginas (além de caderno de fotos), a biografia custa R$ 69,90, versão em papel, e R$ R$ 39,90, e-book.

 

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