20:02ARNALDO ANTUNES

Eu apresento a página branca. 
Contra: 

Burocratas travestidos de poetas 
Sem-graças travestidos de sérios 
Anões travestidos de crianças 
Complacentes travestidos de justos 
Jingles travestidos de rock 
Estórias travestidas de cinema 
Chatos travestidos de coitados 
Passivos travestidos de pacatos 
Medo travestido de senso 
Censores travestidos de sensores 
Palavras travestidas de sentido 
Palavras caladas travestidas de silêncio 
Obscuros travestidos de complexos 
Bois travestidos de touros 
Fraquezas travestidas de virtudes 
Bagaços travestidos de polpa 
Bagos travestidos de cérebros 
Celas travestidas de lares 
Paisanas travestidos de drogados 
Lobos travestidos de cordeiros 
Pedantes travestidos de cultos 
Egos travestidos de eros 
Lerdos travestidos de zen 
Burrice travestida de citações 
Água travestida de chuva 
Aquário travestido de tevê 
Água travestida de vinho 
Água solta apagando o afago do fogo 
Água mole sem pedra dura 
Água parada onde estagnam os impulsos 
Água que turva a lente e enferruja as lâminas 
Água morna do bom gosto, do bom senso e das boas intenções 
Insípida, amorfa, inodora, incolor 
Água que o comerciante esperto coloca na garrafa para diluir o whisky 
Água onde não há seca 
Água onde não há sede 
Água em abundância 
Água em excesso 
Água em palavras. 
Eu apresento a página branca. 
A árvore sem sementes. 
O vidro sem nada na frente. 
Contra a água.

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