7:47Antônio, o brasileiro que o Brasil não quis presidente

por Célio Heitor Guimarães

 

Às vezes, me pergunto: se o capitalismo é irremediável e estamos fadados a viver com essa desgraça até o final dos tempos, por que nunca elegemos Antônio Ermírio de Moraes presidente do Brasil? Empresário de sucesso e de comprovada capacidade gerencial, ele haveria de fazer muito pelo país na chefia da República. No entanto, em vez de irmos direto à fonte e entregarmos o poder a um autêntico representante do sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção, no lucro, etc., ficamos aí perdendo tempo com títeres e lacaios do tal sistema, como – para citar apenas os mais recentes – Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

 

Antônio Ermírio de Moraes até tentou, nos idos de 1986, ser governador de São Paulo, mas os paulistas preferiram eleger Orestes Quércia. E Antônio sentiu na carne o quão sórdido, falso, pérfido e canalha é o mundo da política. Muito mais do que o mundo dos negócios. E lembrou, arrependido, o conselho repetido de seu pai, que dera início ao império Votorantim e fora senador por Pernambuco (1963-1070): “Filho, nunca entre para a política”.

 

Ainda que seja um dos homens mais ricos (se não o mais rico) do Brasil, Antônio Ermírio é um empresário sui generis: tímido e discreto, com inteligência fervilhante e temperamento explosivo, ele tem um jeitão desengonçado; não frequenta colunas sociais, pouco aparece em eventos, e é de uma simplicidade e de uma franqueza desconcertantes, além de um otimista incorrigível; adora caminhar a pé por São Paulo, nunca teve seguranças e não tem a nenhuma preocupação com a aparência pessoal – ao contrário, seus trajes apresentamse normalmente amarfanhados e suas gravatas dificilmente estão no lugar certo; formou-se engenheiro metalúrgico na Escola de Minas do Colorado, nos EUA, não para exercer a profissão, mas para colher conhecimento. E o que é mais surpreendente: é um capitalista que privilegia o trabalho ao capital. Já está no batente às 7 horas da manhã e trabalha doze horas por dia – é um obstinado pelo trabalho. Comanda a Companhia Brasileira de Alumínio e as demais 95 empresas do Grupo Votorantim, e ainda atua como presidente do Hospital Beneficência Portuguesa. Quer dizer, era, estava, comandava, tinha e atuava, porque, no momento, aos 85 anos de idade, Antônio se encontra adoentado e recolhido ao leito. Acometido de hidrocefalia e mal de Alzhheimer, é um guerreiro fora de ação. Não podia ter recebido castigo pior. E mais cruel.

 

O sociólogo José Pastore, amigo de Antônio Ermírio há 35 anos, acaba de escrever um livro, já nas livrarias (“Antônio Ermírio de Moraes – Memórias de um diário confidencial”, Editora Planeta, 350 p.*), que o autor chama de “coleção de memórias”, sobre esse brasileiro que, além do trabalho, ama o Brasil. E conta coisas interessantes sobre ele. Algumas delas:

 

• Sempre que um político pedia a Antônio Ermírio para financiar alguma coisa, como, por exemplo, a construção de uma escola, ele dizia para que lhe trouxesse o projeto. Aí, conferia a sua finalidade, depois o entregava aos técnicos da sua equipe. Eles verificavam todos os detalhes e contratavam uma empreiteira que construía a escola por um terço dos recursos que o político solicitava. Quando a obra ficava pronta, deixava o político “faturar” a iniciativa.

• Segundo o seu ideário, “governar não é dar ordens, e sim fiscalizar, cobrar, acompanhar e fazer acontecer”. Justificava: “Se eu fosse só dar ordens em minhas empresas, poderia entrar na Votorantim às 7h e sair às 7h30…”.

• Quando administrava a Beneficência Portuguesa, Antônio sabia de cor quantos quilos de roupa haviam sido lavados no dia anterior, quantos litros de leite consumidos, quantos pacientes internados, quantas bolsas havia no banco de sangue, como estava o estoque da farmácia. Ainda comparava os dados com os do mês anterior, buscando por eficiência máxima. E indagava: “Por que não se faz o mesmo nos hospitais públicos? Basta querer”.

• Ele se casou com Maria Regina da Costa, uma bonita campineira que conheceu assim que voltou dos EUA, com quem teve nove filhos. A lua-de-mel do casal aconteceu na Europa. Isto é, Antônio “aproveitou” a estada no Velho Mundo para visitar fábricas e conhecer os avanços tecnológicos no campo da metalurgia. Garante, porém, que não foi uma viagem perdida para a mulher: “A Regina aprendeu coisas interessantes sobre alumínio…”.

• Durante anos dirigiu (até 2006, ele dirigia pessoalmente os seus carros) uma perua Variant da década de 1970. Depois, adquiriu outros carros, sempre simples, sem ar-condicionado e de pouca potência. Por muito tempo, manteve uma Caravan. Em 1995, trocou a Caravan por um Santana usado, ano 1991. Na mesma época, ganhou um Volvo dos filhos. Preferiu deixar o carro novo na garagem. E mais: nunca teve veículo blindado. A uma indagação do apresentador Jô Soares, respondeu: “Se tiver que comprar um carro blindado, irei embora deste país, porque nem eu nem o Brasil merecemos isso”.

• Outro assunto, além da saúde, que mais entusiasmava Antônio Ermírio era a educação. Sempre demonstrou grande preocupação com a baixa escolaridade dos brasileiros. Via na má qualidade do ensino sério entrave para o crescimento econômico do país, para o exercício da cidadania e, consequentemente, para o amadurecimento da democracia.

• Quando resolveu enveredar para o campo da dramaturgia (escreveu três peças de repercussão), Antônio descobriu um mundo novo, o mundo da emoção. E mudou radicalmente como pessoa: perdeu a tradicional sisudez, tornou-se mais paciente e mais complacente e ganhou um monte de novos e queridos amigos. O ator/autor Juca de Oliveira, por exemplo, garante que ele “é o único super-herói de verdade que tenho a honra de conhecer!”

• Aos amigos, dava sempre um conselho que pessoalmente nunca seguiu: “Você precisa aprender a viver mais a vida, a ficar mais com a família, a ter menos estresse”.

• Antônio Ermírio nunca tirou férias na vida. No máximo, um fim de semana em Bertioga (litoral de SP). Certo dia, surpreendeu o amigo Pastore: “Vou dar uma parada. Estou me sentindo cansado. Preciso dar um tempo para a cabeça. Vou viajar e descansar”. “Para onde você vai?” – quis saber Pastore. E Antônio, com suprema valentia: “Vou passar o próximo fim de semana em Serra Negra” (interior de São Paulo). Às vezes, ia a Águas de Lindóia, ali perto.

 

Esse é o homem que o Brasil capitalista nunca quis eleger presidente da República. Sinto que já começou a arrepender-se.

 

(*) O prefácio é de Fernando Henrique Cardoso, mas você pode pulá-lo.

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