20:27Amarcord

por Luiz Ruffato

Não poderia afirmar com certeza quantas vezes assisti a “Amarcord”, do cineasta Federico Fellini, mas seguramente passa de uma dezena. E em todas as ocasiões em que o revejo, me comovo como naquela primeira sessão, numa mostra de cinema promovida pelo Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Juiz de Fora. Eu não sabia o quanto aquele encontro fortuito reverberaria em minha vida —pessoal e profissional.

“Amarcord” é de 1973 e o vi pela primeira vez sete anos depois, mal acomodado no chão do Cine Festival, um minúsculo espaço alternativo que, claro, não existe mais.

Naquela sala lotada, no calor de março, reconheci, projetado na tela, o cotidiano da minha família, com seus personagens docemente patéticos, ternamente dramáticos. A mãe que ama acima de tudo o marido e os filhos; o pai que, turrão, enfrenta à sua maneira os poderosos —e perde; o tio, mau exemplo para os sobrinhos; o outro tio, perturbado; o avô senil; o peso da religião católica…

Deixei o escuro da sala de projeção zonzo e, quando desci as escadas que davam no calçadão da rua Halfeld, a luz da tarde me ardeu os olhos. Estava de tal maneira impregnado daquele ambiente tão próximo ao meu que não conseguia respirar direito.

Então a arte era capaz de transformar uma história singularíssima em experiência universal? Éramos, então, capazes de compreender uma narrativa que não se alicerçava no real, mas no onírico, e não se desenvolvia em tempo sucessivo, mas em fragmentos?

Naquela época, eu não pensava em ser escritor. O primeiro impacto de “Amarcord” foi afetivo. Dois anos antes havia deixado Cataguases (MG), minha cidade natal, para me arriscar no mundo, sozinho e sem rede de proteção. E doía —dói ainda— perceber que eu rompia os laços com a paisagem, com o sotaque, com os amigos, e, principalmente, com a família.

Fellini expunha a possibilidade de revivenciar a memória por meio da arte. Ou seja, o tempo que passou, torná-lo presente, para sempre.

“Amarcord”, no dialeto da Emilia-Romagna de onde vem Fellini, significa “eu me recordo”. Neste filme, ele se propunha a lembrar fatos da infância e adolescência de Titta —uma espécie de alterego do diretor— em Rimini, e, de maneira brilhante, contando essa história pessoal, descrevia a história da Itália na década de 1930. Mas para mim, Rimini era um misto de Cataguases e Rodeiro, a pobre colônia italiana dos meus pais. A Itália virava o Brasil e a década de 1930 magicamente se transfigurava na de 1970.

Pensando bem, talvez o propósito de me tornar escritor tenha nascido naquela tarde quente em Juiz de Fora. Em suas célebres “Confissões”, Santo Agostinho afirma que nem o passado nem o futuro existem, mas apenas o presente do passado, o presente do presente e o presente do futuro. E conclui: “O presente do passado é a memória; o presente do presente é a intuição direta; o presente do futuro é a esperança”. Fellini projetou o passado na perenidade do futuro.

Quando resolvi escrever minhas primeiras narrativas, algumas das premissas fellinianas, expostas de forma mais objetiva em “Amarcord”, nortearam minhas escolhas. A força da memória. A importância do cotidiano banal. A fragmentação do discurso. O clima de sonho como recurso para exacerbação do real. O todo compreendido a partir de suas partes. E, principalmente, o respeito pelos personagens, retratados em sua mais profunda dignidade.

Amo gatos. Sempre os tive, desde a minha infância mais longínqua. Há alguns anos, veio morar comigo um doce gato, branco e amarelo, olhos cor de cortiça, a quem dei o nome de Federico Felino, em uma óbvia homenagem.

Federico, por uma dessas inexplicáveis razões, adorava ser fotografado e filmado. Ele sabia se posicionar frente às câmeras e possuía um senso de oportunidade perfeito para aparecer nas imagens. Hoje meu gato está morto —como estão mortos meu pai, minha mãe, meu irmão… Mas, no momento mesmo em que escrevo estas palavras, eles se tornam de novo vivos para mim.

*Publicado no caderno Ilustríssima, da FSP

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