5:29A verdadeira inteligentsia

Por Ivan Schmidt

Dizem que sou saudosista e não tiro a razão dos que assim pensam, mas não abro mão de lamentar a falta que fazem nos dias atuais, ainda mais à vista do que acontece em Botocúndia, jornalistas e pensadores do porte de Paulo Francis, Antonio Callado, Antonio Maria, Nelson Rodrigues, Cláudio Abramo, Samuel Wainer, Otto Lara Resende, Tarso de Castro, Plínio Marcos, Rubem Braga, Stanislaw Ponte Preta e Fausto Wolff, entre outros, que no intervalo de tempo de 1960 a 1990 do século passado, pintavam e bordavam com sua insuperável verve nos principais jornais e revistas do país.

Esse pessoal constituía a fina flor da inteligentsia brasileira, atormentando (alguns deles no pior sentido) a vida dos chamados “poderosos”, simplesmente pelo uso genial que faziam das vetustas máquinas de escrever das redações, destilando crônicas e reportagens diárias sobre as mazelas que viam brotar como cogumelos no ambiente mefítico frequentado pelos pais da pátria.

Não sei o que seria dos pavões que revoluteiam hoje na primeira fila do palco  iluminado das perdidas ilusões, como cantava um sambista daqueles tempos, ou melhor, quanto tempo resistiriam à artilharia pesada desferida pelos escribas que pontificaram na época de ouro do jornalismo brasileiro.

Tenho pena de Michel Temer, Romero Jucá, Eunício de Oliveira, Rodrigo Maia, Renan Calheiros, Sérgio Cabral, Aécio Neves, Edison Lobão, Eduardo Cunha, Lula, Dilma, Gleisi, Paulo Bernardo e tantos outros que estão a bordo da nau dos insensatos apresada pelos homens da Lava Jato.

Nessa lista de réprobos um nome se destaca pela esperança aberta no conceito popular de, finalmente, aparecer no meio desse deserto de homens e ideias políticas, como diria o sábio Oswaldo Aranha, alguém em condições de habilitar-se a disputar a presidência da República, o ex-governador carioca Sérgio Cabral, hoje vitimado pela vergonha inominável de envergar o uniforme da penitenciária de Bangu.

Pois também esse senhor lançou-se com inigualável cupidez à rapina do dinheiro público, com a competente colaboração da própria mulher, Adriana Ancelmo, e enquanto desfilavam por Paris em hotéis e restaurantes de luxo, iam botando no bolso milhões de dólares entregues com organização e método por um sistema corruptor jamais conhecido no Brasil.

A volúpia do ex-governador e sua mulher por joias caríssimas, técnica usada por malandros com retrato na coluna social para lavar dinheiro, se assanhou a tal ponto que passaram a agir com a mesma desenvoltura mostrada por personagens memoráveis, posto que fictícios, de romances policiais escritos por George Simenon, Raymond Chandler e P. D. James.

Ressalve-se que o presidente da República não está arrolado na operação da Justiça Federal, mas não deixa de enfrentar a ameaça da perda do mandato em função do processo aberto pelo PSDB a ser julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com base nas contas de campanha da chapa vencedora em 2014. Diz-se também que não será surpresa se os gastos de campanha forem separados, concedendo a Temer o indulto tão ansiado.

Acredito que nenhum desses personagens de ópera bufa resistiria mais que umas poucas semanas ante a saraivada desferida pelo Butantã da imprensa de então, valendo lembrar o que fizeram contra o presidente Getúlio Vargas, o sulfúrico Carlos Lacerda, na Tribuna da Imprensa, e na Câmara dos Deputados então no Rio de Janeiro, além de David Nasser na revista semanalO Cruzeiro, que circulava na maioria das capitais e era algo que se pode comparar à potência de fogo do Jornal Nacional.

A derrama de bandalheiras que parece não ter fim seria, sem a menor dúvida, a peça de resistência da pauta diária dos jornalistas das últimas décadas do século 20, podendo-se imaginar apenas por curiosidade a quantos volumes chegaria o impagável Festival de besteiras que assola o país, a imortal criação de Stanislaw Ponte Preta.

O que escreveriam ele e os demais sobre figuras como Eduardo Cunha, Renan Calheiros e Edison Lobão, para citar uns poucos nomes dessa longa história de fraudes e negociatas eleitoreiras e, a partir de certo momento, de enriquecimento vertiginoso com dinheiro público (é claro!) e, por isso mesmo, com toda a pinta de ilicitude? O STF está com a palavra e logo vamos saber qual é…

Um jornalista mais jovem e falecido prematuramente, Daniel Piza, que com enorme merecimento poderia integrar a lista citada na abertura, pois era a figura da nova geração (digamos) que mais se aproximava da genialidade de um Paulo Francis, por exemplo. Aliás, durante anos Piza editou a coluna “Diário da Corte”, escrita por Francis em Nova York e publicada nos jornaisFolha de S. Paulo e Estadão.

Para avivar a memória dos leitores e, especialmente em favor dos mais jovens que sequer sabiam de sua existência, para que se conheça até onde chegava a irreverência não raro debochada de Francis transcrevo algumas reflexões de sua famosa coluna, essencialmente as intervenções sobre temas nacionais, editadas na forma de verbetes por Daniel Piza no livro Waaal(Companhia da Letras, SP, 1996).

Bandeira do Brasil – Me convidam a participar de “uma revisão da visualidade da bandeira brasileira”. Fácil: bumba-meu-boi com pedaços da bandeira do Flamengo e do Corinthians. (FSP, 3/10/85).

Braga, Rubem – Rubem, se houvesse crítica literária no Brasil, seria o texto modernista de rigueur. O que suas crônicas nos dão em humor, ironia e ambivalência não tem, que eu conheça, equivalência, a não ser muito raramente, na literatura chamada séria do Brasil. (FSP, 4/11/90).

Braga, Sônia – Sônia é uma atriz amadorística, mas tem talento. Em pessoa é insignificante. Na tela, cresce e se torna uma presença sensual. Falando, Sônia é do maior charme. Como a estátua de Pigmalião, precisa de um sopro de vida. (OESP, 26/9/91).

Brasil – O Brasil vive numa cápsula suspensa no tempo, imune a qualquer fluido das estranjas. (FSP, 5/8/89).

O Brasil sempre foi a casa da mãe Joana de elites sub-reptícias que fazem o que querem. (OESP, 22/11/90).

A inanidade da nossa opinião pública mostra que o Brasil continua presa potencial de ditaduras. (OESP, 23/12/90).

Estou seguro de que se fossem liberadas as forças de produção, como dizem os marxistas, a miséria desapareceria ou ficaria em níveis toleráveis numa geração. (OESP, 25/4/91).

Brasileiros – Herdamos a desconfiança do português e o amor do francês à burocracia. (FSP, 26/1/89).

Brasília – O fato de a capital ser sido transferida para aquele monstrengo totalitário que é Brasília diluiu bastante a influência da imprensa, já que em Brasília só agora começa a aparecer imprensa séria. Tenho certeza de que se a capital não fosse Brasília o regime militar não teria durado 20 anos. O bafo quente de um jornal de manhã cedo faz maravilhas pela moral pública. (FSP, 8/6/88).

Posso acrescentar grátis um tema de campanha, para quem quiser adotá-lo, que deliciaria as massas. Como o velho Catão, ajeito a minha toga e berro: DELENDA BRASILIA! Acabemos com Brasília. Brasília foi uma ideia bem-intencionada desastrosa. Criar uma capital no centro do país que atraísse para lá atividade econômica. Atraiu miseráveis e burocratas. Sei, custaria muito desmontar aqueles prédios todos. Mas não seria necessário. Poderia se relegalizar o jogo e fazer de Brasília a Las Vegas do centro do Brasil. Seria um final feliz. (FSP, 17/6/89).

Campos, Roberto – O erro de gente como Campos é que foi prometido que o modelo de 1964 traria capital estrangeiro para o Brasil e que nos desenvolveríamos assim. O Brasil aumentou quantitativamente as exportações, mas nunca teve uma posição realmente favorável a um desenvolvimento orgânico. Campos impreca, e bem, contra a máquina estatal. A culpa é do modelo. Isso não quer dizer que a Petrobras não seja grotesca. É, mas por que Campos, apoiado por Castelo Branco, que ele tanto admira, não fez alguma coisa quando era o “tzar de todas as Rússias”? Não podia? Crítica fica melhor com autocrítica. (FSP, 13/11/83).

Capitalismo brasileiro – O negócio a fazer no Brasil é não pagar o que o Estado quiser gastar acima da receita. Uma reestruturação do aparelho do Estado. Uma enxugada na economia que levasse os capitalistas que mantêm hoje o dinheiro em especulação ou no exterior (cerca de US$ 150 bilhões, me dizem banqueiros dos EUA) a aplicar o dinheiro produtivamente. Só farão isso num mercado saneado de inflação e com liberdade para que tenham lucros compatíveis à aplicação de dólares ou no mercado de especulação. É assim que funciona o capitalismo moderno. (FSP, 6/7/85).

Carnaval – O Carnaval do Rio, nos anos 30, era muito divertido e civilizado, com corso e serpentina. Hoje, é só bunda. (FSP, 200/1/89).

Cinema brasileiro – A saída do cinema brasileiro é se aliar à televisão. Cinema com dinheiro do governo só pode dar em porcaria. Tudo em que o governo põe a mão vira porcaria. (FSP, 9/6/84).

Comunismo – A melhor propaganda anticomunista é deixar os comunistas falarem. (OESP, 6/7/79).

Constituição Federal – Acabei lendo a Constituição de 245 artigos. Os empreiteiros e senhores da terra levaram tudo o que quiseram. O de costume. (FSP, 29/10/88).

Cunha, Euclides da – É indispensável a leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha. É culto e não é modelo de estilo. Euclides escreve como Jânio Quadros fala. Mas o livro é de gênio. Nos dá a realidade do sertão, que é, para efeitos práticos, o Brasil quase todo, tirando o Sul; a realidade do sertanejo, e do nosso atraso como civilização, como cultura, como organização do Estado. Euclides começou o livro para destruir Antonio Conselheiro e a Revolta de Canudos, mas se deixou emocionar pela coragem e persistência dos revoltosos e terminou escrevendo um grande épico, em prosa, que o poeta americano Roberto Lowell, que só leu a tradução, considera superior a Guerra e paz, de Tolstoi. (OESP, 30/5/91).

Tendo em vista que o Diário da Corte vai até a letra Z, é necessário voltar oportunamente ao tema.

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