11:15A Revolução de Outubro, 100 anos

Por Ivan Schmidt

Fascismo e comunismo foram movimentos e regimes desconhecidos como tipos de governo antes do século passado, pois eclodiram após a Primeira Guerra Mundial, desenhando-se como novidades na política europeia. “Portadores de ambições imensas, a um tempo comparáveis e inversas, alimentam o anúncio do homem novo, que lhes é comum, de ideias antagonistas que os contrapõem”, observou o historiador francês François Furet em O passado de uma ilusão – Ensaios sobre a ideia comunista no século XX (Editora Siciliano, SP, 1995).

Segundo ele, de movimentos logo evoluem para a configuração de regimes e, a partir de suas vitórias imprimem traços absolutamente novos na história da Europa. “O investimento político total que exigem e celebram juntos só torna mais formidável o combate que travam como sucessores incompatíveis da humanidade burguesa. O que os une agrava o que os contrapõe”, acrescentou.

Furet aponta esses dois notáveis movimentos, lembrando que os mesmos sequer chegaram a ser inventariados por Aristóteles, Montesquieu ou Max Weber, sublinhando a característica peculiar de ambos como versão renovada do combate a favor e contra a democracia sob a dicotomia fascismo/antifascismo: “Essa tendência encontrou um amplo eco nas paixões políticas de nossa época e assumiu um caráter quase sacramental a partir do fim da Segunda Guerra Mundial”, permanecendo “como um exemplo clássico das dificuldades particulares da história totalmente contemporânea, porque mostrou coerções exercidas sobre as mentes ao mesmo tempo pelos acontecimentos e pela opinião pública”.

Um dos mais celebrados historiadores de seu tempo, François Furet (1927), dedicou-se ao estudo das “ruínas” acumuladas pelos regimes citados, responsáveis pelo ressurgimento a intervalos regulares do “espectro do fascismo para unir os antifascistas, na falta de objetivos menos abstratos”, estabelecendo que “o que ainda serve para os políticos perdeu, pelo menos, seu emprego na ordem intelectual. O fim do comunismo transformou-o num objeto histórico oferecido à autópsia, como o fascismo (ou o nazismo). Já se foi a hora dos disfarces recíprocos de que se serviam os grandes monstros do século para combaterem e para iludirem. De qualquer forma, essa hora da verdade foi precedida, preparada por homens e livros lúcidos, cujo inventário podemos traçar hoje”.

O adjetivo ‘totalitário’ espalha-se na década de 20, destaca Furet, a partir do fascismo italiano para rapidamente ganhar espaço entre os teóricos do nazismo na Alemanha, os quais passaram a empregar o termo para caracterizar o nacional-socialismo proposto por Adolf Hitler. Aos poucos, o adjetivo é também usado como sinônimo de despotismo ou tirania e na comparação entre fascismo e comunismo, ou mais exatamente, entre “a Alemanha hitleriana e a União Soviética de Stalin”.

“O conceito de totalitarismo, portanto, não é uma invenção tardia dos propagandistas da Guerra Fria, destinada a desonrar a União Soviética igualando-a a Alemanha Nazista, condenada pela humanidade no processo de Nuremberg. Na realidade, o adjetivo ‘totalitário’ começou a ser usado entre as duas guerras para designar um tipo de regime até então inédito. É bem verdade que ele ainda não adquiriu a precisão analítica que vão querer dar-lhe, no pós Segunda Guerra Mundial, Hannah Arendt e os politólogos americanos que se inspiram nela”, esclarece o historiador.

Assim, fascismo e bolchevismo se seguem, se geram, se imitam e se combatem, “mas antes disso eles nascem do mesmo solo, a guerra, são filhos da mesma história”, sintetiza Furet. Ele diz que o bolchevismo, o primeiro a chegar à cena pública, pôde radicalizar as paixões políticas. Mas o medo que ele desperta à direita e além dela não pode bastar para explicar um fenômeno como o nascimento dos “feixes” italianos em março de 1919.

Furet lança mão da lógica ao ratificar que “filhos da guerra, bolchevismo e fascismo tiram dela o que possuem de elementar. Levam para a política a aprendizagem recebida nas trincheiras: o hábito da violência, a simplicidade das paixões extremas, a submissão do indivíduo ao coletivo, enfim, o amargor dos sacrifícios inúteis ou traídos”.

Lenin e Mussolini têm origem na mesma família política, o socialismo revolucionário, ao passo que Hitler pode ser considerado um irmão tardio do líder da Revolução de Outubro na Rússia czarista.

Furet admoesta seus leitores: “Existe um modo mais filosófico de exprimir esse parentesco secreto, se extrairmos do bolchevismo um conceito mais vasto que o regime russo, marcado pela marginalidade geográfica e pelo atraso histórico. Pois se a essência do bolchevismo não está nem no marxismo nem na herança russa ou russo-asiática, e sim na prioridade absoluta conferida à ordem política e à modelagem da sociedade, então o regime oriundo de Outubro de 1917 pode ser considerado a primeira aparição do Partido-Estado, investido pela ideologia de uma missão escatológica”.

Anos depois a hostilidade dos nazistas ao bolchevismo russo alimentou-se menos da realidade crua da dominação de Stalin, do que este conservou da doutrina marxista. Enquanto o bolchevismo pretendia ser uma ruptura com o passado, conservadores e burgueses alemães admitiam ver no nazismo uma espécie de continuidade da tradição. A tese logo se transformou numa falácia, porquanto o nazismo voltou-se com unhas e dentes contra o bolchevismo e Hitler passa a cumprir melhor do que Stalin a promessa totalitária de Lenin, colocando nesse aspecto a Alemanha muito à frente da União Soviética. O historiador não tem dúvida ao garantir que “é, portanto, na Alemanha nazista que se vê o bolchevismo mais perfeito: o poder político engloba ali, realmente, todas as esferas da existência, da economia à religião, da técnica à alma. A ironia da história, ou sua tragédia, é que os dois regimes totalitários, idênticos quanto às suas pretensões de poder absoluto sobre seres desumanizados, se apresentam cada um como um recurso contra os perigos que o outro apresenta. Tiram o que sua propaganda tem de mais forte da hostilidade ao que os assemelha”.

Quinze anos depois de nascer, o comunismo soviético passara por várias circunstâncias: a paz, a revolução internacional, o retorno do jacobinismo, a pátria dos trabalhadores, a sociedade livre dos burgueses, o homem desalienado, a derrota da anarquia capitalista e a economia devolvida aos produtores, numa sequência imaginada por François Furet.

Entretanto, na década de 30, o império soviético já acusava o desgaste do tempo e dos acontecimentos: “Stalin sucedeu a Lenin, Trotski está exilado, os desencantados começam a falar, os partidos comunistas vegetam ou são vencidos: o socialismo num só país mudou a partitura revolucionária”.

Para sobreviver, a ditadura stalinista voltar-se-ia contra o fascismo.

 

 

Uma ideia sobre “A Revolução de Outubro, 100 anos

  1. Sergio Silvestre

    Pois é, nossa guerra mundial interna já matou 1 milhão e 800 mil pessoas desde anjos por balas perdidas e adultos por balas achadas,acho que estamos depois da peste negra sem ficar com vergonha de disputar lugares mais a frente nessa gloriosa sina.

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