10:24A política de papai

Por Ivan Schmidt

 

Volto à temática tratada no artigo da semana passada, não apenas por sua relevância para os leitores contemporâneos que são filhos ou netos dos que tinham 30 anos ou menos em 1968, mas também pelo elevado teor premonitório embutido no pensamento dos que constituíam – à época – a vanguarda intelectual que sempre esteve presente e atuante nos grandes movimentos da história.

Hoje o mundo pós-moderno vivencia uma experiência radical de dominação tecnológica apenas esboçada a partir do início dos anos 70 do século passado, mas que analisada do ponto de vista atual nos mostra a lucidez meridiana dos pensadores de então.

Tenho em mãos uma raridade (creio) adquirida em 1972, ao ser lançada no Brasil pela Vozes de Petrópolis (RJ). Trata-se do estupendo livro A contracultura, escrito por Theodore Roszak (1933-2011), professor de teoria da comunicação na Universidade de Harvard (Massachusetts) e, provavelmente, o principal intérprete (ou melhor, profeta) do galopante processo de transformação comportamental da sociedade ocidental, a partir do grande laboratório representado pelos Estados Unidos.

O livro de Roszak, cujo subtítulo, a meu ver foi sugerido pelo editor brasileiro “reflexões sobre a sociedade tecnocrática e a oposição juvenil”, foi considerado por Alan Watts, um dos gurus da época “o mais valioso guia para os problemas humanos deste fim do século vinte”. A premissa sobre a qual o autor desenvolveu sua argumentação rezava que “a maior parte das coisas que atualmente vêm acontecendo e que são novas, provocativas, relacionadas à política, educação, artes, relações sociais (amor, família, comunidade) é criação da juventude – juventude profundamente, ou até fanaticamente, alienada da geração próxima passada – ou daqueles que voltam sua confiança para os jovens”.

Assim, o pesquisador encontrou nas contribuições de quem mais influenciava os universitários da época a matéria bruta para a escrita do livro, no qual detalhou o pensar de Herbert Marcuse, Norman Brown, Allen Ginsberg, Alan Watts, Timothy Leary, Paul Goodman e outros, notáveis questionadores do que chamou de “visão cósmica científico-convencional, visando a minar as bases da tecnocracia”. Foram esses os personagens, que no entendimento visionário de Roszak deram vazão ao fenômeno da contracultura.

“O conflito das gerações é uma das constantes óbvias da vida humana. Por isso, corre-se o risco de certa presunção quando se sugere que a rivalidade entre os jovens e os adultos na sociedade ocidental, nesta década, tenha dimensões singularmente grandes”. Essas são as primeiras palavras do capítulo inicial, valendo lembrar que foram postas no papel em 1968, ano do aparecimento do livro nos Estados Unidos, casualmente “a mais importante fonte contemporânea de inconformismo radical e de inovação cultural”.

Roszak já dizia que a juventude estava aberta à crítica social e, conduzida por essa percepção passou a nutrir o conceito de que aos jovens estava reservada a competência de “agir, provocar acontecimentos, correr riscos e, de forma geral, proporcionar os estímulos”, sublinhando que “seria interessante que o processo imemorial do conflito das gerações já tivesse deixado de ser uma experiência periférica na vida do indivíduo e da família e se transformado numa alavanca importante de reforma social radical”. Lidas depois de quase duas gerações terem chegado ao mundo as palavras do professor de Harvard ainda transportam uma impressionante carga de realismo e atualidade.

Era muito claro, então, que os jovens alienados davam forma a alguma coisa que se afigurava “como a visão salvadora exigida por nossa periclitante civilização” e, “nesse caso não há como evitar a necessidade de entendê-los e educá-los para aquilo a que se propuseram”. Quanto à assertiva final de Roszak, ao que parece, desde então foram raros os países (talvez os Tigres Asiáticos), incluindo os mais industrializados, a terem a iluminação de entender e educar a juventude no sentido de canalizar seu extraordinário potencial, direcionando-o a carreiras universitárias apropriadas à formação de massa crítica para a vida profissional, política, intelectual e artística, entre outras.

Como era lógico, na época, Roszak se referiu ao movimento estudantil de 1968 em Paris, lembrando que os jovens foram obrigados “a assistir o conluio entre a amolecida CGT e o PC, que passaram a agir como órgãos de confiança do presidente De Gaulle na manutenção do governo responsável e ordeiro, face à ameaça de ‘anarquia’ nas ruas. Se estudantes rebeldes marcham aos milhares para as barricadas, seus pais cautelosos marcham às dezenas de milhares em defesa do status quo e votam aos milhões pela manutenção da elite gerencial que o velho general recrutou na Ecole Polytechnique, com o intuito de controlar a nova prosperidade francesa”.

“Até mesmo os operários”, escreveu, “que engrossaram aos milhões as fileiras de estudantes durante as primeiras fases da greve geral de maio de 1968 parecem haver chegado à conclusão de que a essência da revolução consiste num envelope de pagamento mais polpudo”.

Cortando para as manifestações havidas no Brasil em junho e que prosseguem com menor intensidade, embora tenha surgido algo novo com os Black Blocs, nem um vislumbre se percebeu da participação de operários. Dias depois o que se viu foi uma tentativa de ensaio de greve geral convocada pelas centrais de trabalhadores, especialmente a Força Sindical chefiada pelo deputado federal Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), o Paulinho, cujo resultado foi um acachapante fracasso.

Antes, até mesmo a presidente Dilma Rousseff procurou deixar-se embalar pelo vento soprado pela onda de protestos, anunciando cinco pactos que igualmente se esfumaram, em primeiro lugar pelo debochado oportunismo e, depois, pela extrema inocuidade de suas pretendidas virtudes. Talvez um próximo estudo sobre o despertar da consciência coletiva da juventude brasileira, recém-iniciada a segunda década do século XXI (a primeira infelizmente já está perdida), venha a ratificar a perenidade do conflito das gerações que estimulou milhões de rapazes e moças em todo o País a ir às ruas para reivindicar mudanças efetivas e eficazes no cenário que os líderes das barricadas de Paris apelidaram de “política de papai”.

Do pouco que sabemos sobre os motivos que levaram os jovens a gritar nas ruas, um pormenor é indiscutível: são comuns para a maioria o subemprego e o baixo salário, além da precariedade do nível de ensino fornecido pelas instituições em que estão matriculados. Assim como são revoltantes as condições de moradia e locomoção de grande quantidade deles ou seus pais, irmãos e parentes, para não falar na abominável qualidade dos serviços públicos de saúde e segurança, cancros sociais que nenhum governo até agora teve a capacidade de corrigir.

Roszak, coberto de razão, ensinava que a tecnocracia, ou o regime dos especialistas tem como característica principal, valendo-se de seu amplo poder coercitivo, levar o homem à submissão “explorando nossa profunda lealdade para com o cientificismo e manipulando as seguranças e bens materiais que a ciência nos deu”.

E advertia: “Tão sutis e racionalizadas se tornaram em nossas sociedades industriais desenvolvidas as artes da dominação tecnocrática, que até mesmo aqueles que ocupam funções na estrutura estatal e/ou empresarial que domina nossas vidas, devem julgar impossível se verem como agentes de um controle totalitário. Em lugar disso, consideram-se com toda naturalidade os conscienciosos gerentes de um munificente sistema social que, pelo simples fato de sua propalada opulência, é incompatível com qualquer forma de espoliação. Na pior das hipóteses, o sistema pode apresentar algumas deficiências de distribuição. Mas essas deficiências serão certamente sanadas… oportunamente”.

Qual seria, então, a resposta das ideologias esquerdistas tradicionais que historicamente usaram o recurso da propaganda para aparelhar a opinião pública a protestar contra o bem-intencionado uso da técnica com a finalidade de tornar nossa vida mais confortável e segura? O próprio Roszak dá a resposta e sua exegese: “Elas não o fazem. Afinal, prisioneiros dessa descomunal máquina industrial, a quem pediremos soluções para nossos dilemas senão aos especialistas? Ou deveremos, a essa altura do jogo, perder a confiança na ciência? Na razão? Na inteligência técnica que foi a criadora do sistema?”.

Como profeta dos tempos modernos, Roszak pressentiu e antecipou realidades que seriam observadas no Brasil desse início de século: “Partidos e governos vão e vêm, mas os especialistas continuam sempre no mesmo lugar. Pois sem eles o sistema não funciona”. Quem tem ouvidos para ouvir ouça, já sentenciavam oráculos da antiguidade judaica.

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