10:44A palavra do ano é ‘ódio’

por Sérgio Rodrigues

Então é isso: a eleição presidencial antecipou a escolha da Palavra do Ano aqui na coluna. Por que esperar dezembro se o termo mais marcante de 2018 já é, por aclamação, “ódio”? Esse mesmo, leitor, que você sente agora por todos aqueles que sentem o mesmo por você.

Calma. Antes de odiar o colunista, saiba que isso não é uma acusação de cumplicidade pessoal com a cultura do ódio, mas uma singela constatação. Uma das características desse sentimento é sua fertilidade: responder a ele com mais ódio pode ser, muitas vezes, a única postura cabível, mas ainda é odiar.

Não se trata de relativismo. É fundamental —cada vez mais— separar os tipos de ódio de acordo com seu objeto. Desejar o mal de ditadores sanguinários é bem diferente, do ponto de vista moral, de desejar o mal de pessoas cujo único “pecado” é serem distintas de você na cor da pele, na vida sexual ou na orientação política.

Mesmo assim, como o ódio tem certas dinâmicas que independem de seu conteúdo, vale a pena jogar o holofote sobre essa palavrinha que entrou na língua portuguesa no século 14, vinda do latim “odium” e um dia grafada como “hodio” e “odeo”.

A pincelada erudita não disfarça o fato de que estou tentando dar conta de algo que respiro, que vejo no olhar das pessoas à minha volta. Não foi nos livros que encontrei a palavra do ano: foi nas ruas do meu país.

Diante da amplitude do tema, busco refúgio no dicionário. “Aversão intensa, geralmente motivada por medo, raiva ou injúria sofrida”, define o “Houaiss”. Boa. O “Aurélio”, mais popular e menos preciso, não menciona as sementes do ódio.

Medo, raiva ou injúria sofrida parecem bons termos para qualificar as motivações do eleitor responsável pelo tsunami de extrema direita que varreu a desacreditada, cínica, pelancuda e botocada política brasileira no último domingo.

Se grande parte das peças que esse eleitor escolheu para renovar “tudo o que está aí” traz estampados na testa seu despreparo ou sua pura maluquice, fazendo prever mais encrenca, nenhuma surpresa. O ódio nunca foi bom para construir nada, mas que bela máquina de demolição!

É isso que faz dele uma arma política tão poderosa, com a qual é possível, de forma populista, dirigir multidões contra o “inimigo” —em geral, alguma personificação grosseira dos tais medo, raiva e injúria que fizeram brotar o ódio.

O PT usou bastante essa arma, um traço que se agravou à medida que o partido passava por seu conhecido declínio ético (“nós contra eles”, liberais rotulados de fascistas, campanha de desmoralização da imprensa etc.). No entanto, coube a Bolsonaro levar o ódio a um novo patamar.

O perigo que hoje ronda as ruas brasileiras nem chega a ser propriamente político. O personagem mais temível do país neste momento, entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial, é o boçal aleatório empoderado pelos quase 50 milhões de votos amealhados por um candidato que fundou sua carreira no discurso de ódio às minorias.

Na hipótese provável de uma vitória do candidato do PSL no segundo turno, o novo presidente vai enfrentar o desafio imenso de domar essa força bruta vinda das profundezas trevosas do país.

Talvez lhe seja útil nessa hora a advertência do americano James Baldwin, que além de escritor brilhante era ativista social, negro e gay: “O ódio, capaz de destruir tanta coisa, nunca deixou de destruir o homem que odeia, e essa é uma lei imutável”.

*Publicado na Folha de S.Paulo

2 ideias sobre “A palavra do ano é ‘ódio’

  1. Parreiras Rodrigues

    O ódio começou com a construção de A casa grande e a senzala. Depois, embarcou a ninguenzada em aviões. E dê-lhe o mesmo perfume das patroas para as diaristas, cozinheiras, arrumadeiras, lavadeiras. E sempre instigando o Nós contra eles.
    Agora, os semeadores dele, do ódio, não conseguem contê-lo. E tanto se espraiou que são eles mesmos os que sentem os seus efeitos.

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