6:48A hora do Judiciário chegará

por Célio Heitor Guimarães

Ela sabe o que diz porque esteve lá. No covil dos lobos. Segundo Eliana Calmon, ministra aposentada do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e ex-corregedora do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), juízes e magistrados estão sendo preservados, mas “muita coisa virá à tona”, no devido tempo.

Eliana Calmon é uma baiana atrevida e corajosa. Em 2011 já havia sido alvo de críticas, quando declarou que havia bandidos escondidos atrás da toga. Agora, volta à cena para garantir que o Judiciário está sendo preservado como estratégia para não enfraquecer a investigação.

Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, a ex-ministra exibiu a costumeira sinceridade afiada:

– No meu entendimento, a [Operação] Lava Jato tomou uma posição política. Ou seja, pegou o Executivo, o Legislativo e o poder econômico, preservando o Judiciário, para não enfraquecer esse Poder. E emendou: “Entendo que a Lava Jato pegará o Judiciário, mas só numa fase posterior, porque muita coisa virá à tona”.

Tem lógica o pensamento de dona Eliana. Como a patifaria que ora se revela no território nacional depende da atuação do Poder Judiciário (através do batalhão do bem), não convém tumultuar o ambiente puxando para o caldeirão da fritura os meliantes que lá se abrigam. Isso pode ficar para mais tarde, principalmente quando os delatores abrirem o bico contra a banda podre da toga. Será inevitável, apesar do poder de corpo da categoria e do melindre dos investigadores de examinar tão augustas figuras.

Ao promover a justiça, sanar conflitos e zelar pelo cumprimento da lei, é admirável e digna de louvor a função do Poder Judiciário. No entanto, ele não é divinizado nem se compõe de semidesuses, como imaginam alguns.

Na qualidade de filho de promotor de justiça, neto de escrivão, bisneto, sobrinho, primo e genro de magistrados e, sobretudo por haver servido por trinta e cinco anos ao poder togado, posso garantir que os homens de toga são seres humanos como outros quaisquer. E, como tais, sujeitos a defeitos, erros, tentações e malfeitos. A atividade confere a seus integrantes certas prerrogativas, mas em razão do cargo e não por dádiva dos céus, e por isso não são eles imunes à responsabilidade e punição. Até porque integram o sistema político-administrativo brasileiro, que, na avaliação da ministra Eliana Calmon, com a concordância de todos nós, está apodrecido.

A higienização do Judiciário deveria ser feita pelo Conselho Nacional de Justiça. Segundo o site do próprio CNJ, o objetivo do órgão é “aperfeiçoar o trabalho do sistema judiciário brasileiro, principalmente no que diz respeito ao controle e à transparência administrativa e processual”. No início, até foi assim. Hoje, como se sabe, não é mais. Hoje – sobretudo depois que teve na presidência o preclaro Enrique Ricardo Lewandowski, o Conselho tem se prestado muito mais para defender a magistratura e criar ou abençoar vantagens aos seus componentes, alguns desses benefícios discutíveis e até vergonhosos, se me permitem o atrevimento da opinião.

Muita coisa poderia ainda ser dita sobre o tema, mas vou parar por aqui. Como já lhes disse, esse assunto causa-me engulho e desarranjo intestinal. E, neste exato momento, por uma necessidade de reparo na rede hidráulica, o fornecimento de água para minha unidade habitacional está interrompido.

Por fim, mais uma afirmação da ministra Eliana Calmon: “Os políticos corruptos nunca temeram a Justiça e o Ministério Público. O que eles temem é a opinião pública e a mídia”.

O mesmo se pode dizer dos homens da toga.

2 ideias sobre “A hora do Judiciário chegará

  1. Juca

    Perfeito. Não cairá a máscara e sim a toga.
    Tirando qualquer apreço que eu não tenho ao senador Requião, ontem sem estrar no mérito se vale ou não se estão se protegendo, ele falou muitas verdades, mesmo sendo um tremendo boçal.

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