5:41A escalada do ódio

Por Ivan Schmidt 

Por esses dias acabou de desembarcar nas prateleiras das livrarias brasileiras um livro  extraordinário – Racismos Das Cruzadas ao século xx – por decisão acadêmica e mercadológica elogiável dos editores da Companhia das Letras (SP), responsável pelo lançamento do monumental tratado publicado originalmente pela Princeton University Press, em 2013. A tradução para o português foi feita por Luís Oliveira Santos e João Quina.

O autor é o português Francisco Bethencourt, cujas credenciais de professor de história no King’s College, em Londres, diretor do Centro Cultural Calouste Gulbenkian em Paris (1999-2004) e da Biblioteca Nacional de Portugal (1996-98), reforçam a crença de se estar diante de intelectual plenamente reconhecido em refinados centros culturais.

Observe-se que o autor optou pelo emprego plural da expressão que denomina o tema predominante na longa e documentada pesquisa histórica – racismos – certamente para plasmar na mente dos leitores uma ideia preliminar, posto que amplamente comprovada, de que o fenômeno social, humano e histórico em questão não pode ficar represado a uma visão estreita e preconceituosa.

E, acima de qualquer outro critério de avaliação, sobrepõe-se a extensão linear do período pesquisado que se inicia com as cruzadas e se estende ao século XX, baseado em alentada bibliografia que fornece o fundamento documental que referenda “o enfoque amplo e comparativo aliado à rara audácia intelectual deste historiador rigoroso”, conforme revelação de Luiz Felipe de Alencastro, também historiador e autor de O trato dos viventes.

O foco de Bethencourt é o mundo ocidental, embora haja espaço para comparações com tipos de segregação e discriminação presentes em outras regiões do mundo (África, Japão, China e Índia), além da perseguição aos chamados cristãos-novos e mouros na Península Ibérica, escravos negros e libertos nas colônias e nos cenários pós-coloniais, ameríndios, armênios no Império Otomano e judeus na Europa moderna.

Pretendo repartir com os leitores alguns tópicos sobre o antissemitismo, tema que tenho estudado há muitos anos e, como não poderia ser diferente, motivo de percuciente investigação por parte do historiador lusitano que teve acesso a documentos oficialmente disponibilizados aos pesquisadores em épocas recentes, numa clara vantagem sobre os acadêmicos que se debruçaram sobre o mesmo fenômeno anos antes, como Hannah Arendt, Pierre Vidal Naquet e tantos outros.

São fartas as referências sobre Arthur Gobineau (1816-82) e seu famoso ensaio sobre a desigualdade das raças humanas, embora a divulgação maciça somente ganhasse  destaque ao perpassar a propaganda nazista na Alemanha dos idos de 1930. Bethencourt escreve que Gobineau não era antissemita e, ao contrário, perfilhava boas referências aos hebreus, tidos por ele como excelentes guerreiros, agricultores, comerciantes, médicos, criadores de Estados e migrantes bem-sucedidos.

“As revoluções americana e francesa contribuíram decisivamente para colocar a noção de direitos civis no centro do novo sistema de valores. O fosso entre as promessas e as realidades tornou-se patente: no caso americano, os direitos civis só diziam respeito aos brancos, estando as mulheres excluídas em ambos os casos”, lembra Bethencourt ao assinalar que os Estados Unidos (1788) e a França (1791) “haviam sido os primeiros países a reconhecer direitos civis e igualdade de cidadania para os judeus”, fato que se alastrou durante o século XIX com a difusão da ideologia liberal na Europa Central “chegando ao Império Austro-Húngaro (1867), à Confederação da Alemanha do Norte (1869) e ao Império Alemão (1871)”.

O historiador acrescenta que “isso não constituiu uma concessão especial, mas sim o resultado da emergência das noções de cidadania e de direitos civis, que ganharam ímpeto contra a mistura tradicional de privilégios nobres e de isenção de impostos, de obrigações feudais e deveres de servidão e de direitos concedidos a classes e comunidades específicas – de forma resumida, contra o princípio de desigualdade legal que definira o Antigo Regime. A noção de estatuto igual para todos os estratos e comunidades limitava-se a incluir os judeus, libertando-os da opressão secular dos encargos com impostos, bem como da exclusão de profissões e de cargos”.

No Império Russo, incluindo Polônia e Ucrânia, no final do século XIX viviam cerca de 5,2 milhões de judeus. “O termo pogrom, uma palavra russa, foi cunhado nesse período para designar um tumulto ou um ataque a uma comunidade judaica, seguido de saque ou massacre. Tais atividades já haviam ocorrido no passado, sobretudo na Ucrânia – em Odessa, por exemplo, registraram-se pogroms em 1821, 1849, 1859 e 1871, antes dos grandes massacres de 1881 e 1905, mas a instabilidade política após o assassinato do tsar Alexandre II, em 1881, criou as condições para a disseminação de ações de ódio em grande escala, que afetaram regiões diferentes e envolveram dezenas de povoações”, escreveu Francisco Bethencourt.

O clímax da propaganda antijudaica chegou quando a polícia secreta imperial, por volta de 1903, usou “a infame falsificação conhecida como Os protocolos dos sábios de Sião, que atribuía aos judeus a autoria de planos para o domínio mundial”. Uma farsa inominável, pouco tempo depois completamente desmoralizada.

Na Alemanha, a campanha contra os judeus foi bem estruturada com o concurso de ações de intelectuais como Wilhelm Marr (1819-1904), que condenou o suposto controle judaico das finanças e do sistema industrial, instrumentos fortes na exploração do Estado e da população. Pouco depois criou a Liga Antissemita, sendo essa palavra de sua autoria, com o objetivo de expulsar os judeus do território alemão.

A teoria racista que execrava o povo judeu, na aloprada concepção de Adolf Hitler e seus aduladores, acabou se transformando numa atividade política letal: “A eliminação de todos os adversários, já definira o seu grande objetivo: o extermínio do marxismo (nunca se deu ao trabalho de distinguir entre sociais-democratas e comunistas), embora as políticas características desses últimos fossem patentes desde o início do século numa divisão criada pela revolução bolchevique”.

A escala crescente do ódio racista contra os judeus evoluiu até ser considerada como a                  “solução final” que desencadeou o genocídio de milhões de homens e mulheres, crianças e idosos nos campos de concentração e extermínio. “Não há como negar que Hitler acreditava nas suas políticas raciais, já que ordenou a morte de todos os judeus em campos de concentração em caso de revolta civil para erradicar possíveis líderes. Também estendeu o programa de extermínio de judeus a todas as áreas ocupadas pela Alemanha”, encerrou Bethencourt.

A pastilha de cianureto que fez cessar a vida do fanático cabo austríaco, jamais esconderá sua profunda covardia e, tampouco expiará seu nefando crime contra a humanidade.

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