6:59A cara do Brasil

por Ivan Schmidt

“Pernambucano não brinca em serviço”, Lula disse certa vez na presença da mulher Marisa Letícia, ao revelar que a mesma havia engravidado na noite de núpcias, ao jactar-se de uma de suas muitas “qualidades”, num esbanjamento de ditos folclóricos registrados pela mídia e que constituem até hoje a marca registrada de sua passagem pela política brasileira.

Com quase nenhuma mudança para melhor em sua bestialidade verbal, ao contrário, cada vez mais destrambelhada, o ex-presidente que leva sobre as costas uma penca de processos na Operação Lava Jato, está cada vez mais acelerado em sua prosápia, Brasil afora, como se sobre ele estivesse depositada toda a esperança do povão.

Suas atitudes e palavras, não raro, são de profundo mau gosto e deboche às instituições ou agentes que as representam, talvez por esse motivo citado ainda na dianteira das pesquisas com vistas à disputa presidencial de 2018, mesmo que também seja o líder quando se trata da rejeição.

O jornalista Daniel Piza, falecido precocemente ao redor dos 40 anos de idade, foi o responsável pela coluna “Sinopse” que O Estado de S. Paulo publicou, aos domingos, desde 1996 até a morte do autor em 2006. Piza escrevia sobre política, comportamento, artes e cultura em geral.

Nos textos de abertura da coluna, onde desfilava sua sapiência de moderno iluminista com frequência tratou de política, num acompanhamento crítico equilibrado posto que mordaz, focalizando atos e fatos das presidências FHC e Lula, credenciando-se à época como o mais autêntico sucessor de Paulo Francis, aliás, cuja coluna editou durante anos no mesmo Estadão.

A editora fluminense Bertrand Brasil publicou em 2007 o volume Contemporâneo de mim, com a íntegra dos textos editados por Daniel Piza nos dez anos da coluna Sinopse, um ano depois da sua morte, fornecendo aos leitores a refinada farândola de conjecturas que uma dezena de anos depois serve como um alerta tardio, mas ainda plenamente válido, especialmente àqueles que alimentavam dúvidas sobre a persona política egressa do sindicalismo do ABC paulista e, mais tarde, do Partido dos Trabalhadores.

Em 25/11/2002 Daniel escreveu: “Não faz nem um mês que Lula foi eleito e até agora houve pouca novidade, mas o período está sendo um prato Fome Zero para a análise simbólica. Na verdade, desde a campanha já se podia ter discutido o assunto, porque ali ficou muito claro o que o PT e Duda Mendonça pretendiam. Está certo que as alternativas ajudaram: Roseana teve de renunciar, Ciro morreu pela boca, Serra pareceu não empolgar nem a si mesmo. Mas Lula conseguiu romper com seu tradicional índice de rejeição e ir além do desempenho do próprio PT, apesar do crescimento do partido no Congresso. E isso não pode ser tido como obra simples da moderação política, ainda que nossos articulistas insistam em ler resultados eleitorais como processos estritamente racionais”.

Daniel detectava a influência exercida sobre Lula pelos dois futuros ministros José Dirceu, o braço esquerdo, e Antonio Palocci, o direito: “Dirceu faz, como se diz hoje, a blindagem na política, a começar pela contenção das forças internas do PT e aliados como o MST; falou explicitamente na necessidade de o PT dialogar com instituições, não com pessoas. Palocci fica entre Lula e o mercado, dizendo muito do que este quer ouvir, com elogiável propriedade; como um Malan menos tecnocrático, impede aumento irreal do salário mínimo, defende o ajuste fiscal, descarta a centralização do câmbio”.

Vejam a conspícua correção que o jornalista utilizou para descrever as intenções reais do PT, passados dez anos: “O PT, que sempre se disse de esquerda, apenas aprimora essa tradição, instalando sua patota em todos os recantos do oceano público, da Embrapa ao Ministério da Cultura, sob o comando tentacular de Dirceu. Ou seja, como disse o próprio Lula em outro contexto (para defender seu arrocho fiscal) a esquerda brasileira é conservadora. Nesse sentido, os bingos é que podem ser boa metáfora – um lugar aonde as pessoas vão porque não têm o que fazer, sonham ficar ricas por sorte, não por suor, geram riqueza informal para poucos e saem mais pobres e vazias. O que pode ser mais a cara desse governo e do Brasil? A estatal do bingo, a Bingobrás já existe: é o próprio Estado brasileiro. A sorte já foi lançada, e os perdedores serão os de sempre”. O comentário saiu na edição do dia 29/2/2004.

Ainda nesse ano, no início de agosto, Piza sustentava que o governo Lula era conservador por sua conivência e comprometimento como o “status quo” da política nacional “dominada por oligarquias e corporativismos, e com a corrupção que grassa no país”. E avançava: “O governo também não se empenha a sério em reformas estruturais como a previdenciária, a tributária e administrativa, para não falar da política e da judiciária, as quais poderiam romper com o capitalismo de Estado brasileiro, com as desigualdades regionais, com a cultura da servidão que ainda marca o Brasil”.

Pois, no exato momento em que o governo Temer, ele sim herdeiro da massa falida que foi a caótica administração petista, especialmente com Dilma Rousseff, toma a iniciativa de mandar projetos de reformas ao Congresso, levantam-se vozes discordantes mesmo sancionadas pelo rito democrático, embora eivadas de felonia, vingança e lídimo ressentimento ditatorial.

“Não há um litro de sangue socialista em Lula”, concluía Daniel Piza no texto publicado em 21 de novembro do mesmo ano, ao comentar Entreatos, documentário produzido por João Moreira Salles nas últimas semanas da campanha de 2002. Em boa parte do filme Lula está muito mais preocupado com o que não pode falar e com que gravata deve aparecer. Segundo Daniel, o candidato “chega a dizer que jamais se acostumou com o macacão de metalúrgico, mas que no terceiro dia de terno e gravata já se sentia ótimo”.

Lula, todos sabem, nunca escondeu a personalidade do brasileiro típico, chegado numa cachaça e torcedor fanático do Corinthians, em impressionar a namorada com seu carro, em contar vantagem e piada, tirar sarro e soltar palavrão. É também o político brasileiro tradicional, que confunde conciliar e conchavar, que nada entende de administração, que fala o que as pessoas querem ouvir e não exatamente o que pensa. Deixa, por exemplo, escapar descrença nas estatísticas de crianças de rua e famintos. E diz temer, caso eleito, a força da máquina federal e da agenda institucional que poderiam afastá-lo dos alicerces do PT como os sindicatos, os teólogos da libertação e os estudantes e impedi-lo de mudar o modelo econômico, escreveu.

No encerramento desse texto, Piza sugeriu com enorme dose de prospecção, rememorando as greves no ABC em 1979/80 que “dariam origem ao PT”, ao mandar um recado para o presidente, sugeriu que o título mais adequado para o documentário seria: “Cuidado para não se enforcar na gravata”.

Não foi por falta de conhecimento que Emílio Odebrecht, ex-presidente da mãe de todas as corruptoras tupiniquins definiu o ex-presidente, em favor de quem mandou abrir uma reserva monetária chamada “Amigo”, com o rótulo pespegado pelo general Golbery do Couto e Silva: “Lula não é socialista coisa nenhuma. Ele é um bon vivant”.

Muito mais poderia ser dito sobre os anos sombrios dos governos do PT e da insaciável aliança que os apoiou o tempo todo. Basta lembrar que essa corja não teve competência para empreender um choque de gestão e de moralização “o que o atual governo já não tem credibilidade para fazer e, mais ainda, um debate cultural, pois a exaltação tupi do jeitinho, do conformismo e da patotagem é o meio onde se multiplicam os roedores do dinheiro coletivo”.

Escritas em 2005 essas palavras soam hoje como um cântico de meninos de primeira comunhão.

2 ideias sobre “A cara do Brasil

  1. Fausto Thomaz

    Como todo pé vermelho (e bunda tmbm) que comeu melado pela primeira vez, se lambuza…as botas de borracha foram trocadas pelos sapatos de couro de jacaré (brega pra cacete na minha opinião….mas….) a caninha de boteco pelos vinhos italianos (aqueles que o Silvestre e o Toledo adoram tomar juntos na varanda do ap no Batel, fumando charuto cubano e assistindo filme documentário do mamona), enfim, vir falar agora que eh o salvador dos pobres…por favor, o molusco não sabe mais o que essa palavra significa.

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