8:44A Brasília dos avoados

por Mario Sergio Conti

Lá se vão 30 anos desde que Joaquim Pedro de Andrade reescreveu a última cena e pôs o ponto final em “O Imponderável Bento contra o Crioulo Voador” (Todavia*, 100 págs.). Começou então a desgraceira. A primeira delas foi a morte do cineasta dias depois. Tinha 56 anos.

Joaquim Pedro trouxera o modernismo literário para o cinema. Dirigira dois filmes engajados e antirrealistas, “Macunaíma” e “Os Inconfidentes”, e outros dois de esculacho erótico, “Guerra Conjugal” e “Vereda Tropical”, no qual Claudio Cavalcanti transava com melancias.

Os filmes podem ser vistos e revistos com deslumbre porque são insolentes. As atrizes e os atores se arriscam, mas nunca Dina Sfat e Lima Duarte, Ítala Nandi e Jofre Soares, estiveram tão bem. Os enredos surpreendem —não se sabe o que acontecerá na próxima cena.

Ao contrário de 99 % dos filmes nacionais, os seus fazem rir sem serem escabrosos. São obras políticas, embora prescindam de denúncias rombudas ou celebrem causas brônzeas. Que os tenha criado sob o regime das hienas fardadas, e contra elas, é quase um milagre.

Joaquim Pedro estudara física no Rio e cinema em Paris, Londres e Nova York. Sua sensibilidade estava à esquerda, era sardônica, surreal. Respirou fundo o ar do tempo e aprendeu com o cinema novo e a tropicália. De modo singular, porém, sua imaginação transcendia os movimentos.

Um câncer no pulmão interrompeu, em 1988, essa obra atrevida, de apenas meia dúzia de longas-metragens. Pouco depois foi publicada a primeira edição de “O Imponderável Bento contra o Crioulo Voador”. Deu-se então outra desgraça: o pessoal do cinema menosprezou o voador místico.

Como se houvesse bons enredos dando sopa, ninguém se animou a filmar o roteiro póstumo de Joaquim Pedro. Não houve nem a desculpa que a realidade se alterou a ponto de a história imaginada pelo diretor envelhecer inapelavelmente. Bem ao contrário.

“O Imponderável Bento” fala do presente. Seu cenário é a Brasília de todas as tramoias. Dos coquetéis com políticos, grã-finas e gays decorativos, nas quais se trocam serviços por notinhas na imprensa. Do misticismo piramidal dos arrabaldes. Da miséria das cidades-satélites.

Reler o roteiro é constatar que a vida imita a arte e o florão da América dorme um sono pesado em seu berço esplêndido. A Brasília da Nova República de Joaquim Pedro é a mesma do Vampirão Neoliberalista. A bagaceira, a jequice e a estupidez continuam soltas no céu da pátria.

Há até um comandante, o bestial Larroque, que é Bolsonarus Rex cuspido e escarrado. Ele se faz acompanhar por um jumento de carga enfezado, e não por um mico que se crê Godzilla. É como se Machado fosse reescrito por Oswald: melancólico, e de rolar de rir.

O escárnio de “Bento” não está datado porque o roteiro revolve velhos temas de Joaquim Pedro. Como epígrafe de seu belo posfácio, Carlos Augusto Calil cita uma explicação do cineasta para o filme: “a castidade é uma invenção delirante do espírito para negar o próprio corpo”.

Esse tema estava presente em “O Padre e a Moça”, adaptação de um poema de Drummond que Joaquim Pedro dirigiu em 1965. Nele estão os choques entre sexo e fé, pedofilia e patriarcalismo, incontinência e pureza, poder eclesial e exploração. Outra vez, são assuntos de hoje. Pergunte a João Paulo 2º.

Se “O Padre a Moça” é de um neorrealismo pesado, “Bento” é um milagre de leveza. Até porque o protagonista, em estado de graça, levita. Mas desce do céu para, qual um beija-flor, se deleitar com lúbricas beldades brasilienses. A graça é divina, mas não deixa de ser engraçada.

Fazendo-se de avoado, o pessoal do cinema deixou o roteiro de lado. Preferiu filmar… —cala-te boca, para que amuar mais gente? O repto permanece, porém: há que se levar “O Imponderável Bento” às telas. Tal filme terá tudo para ser arte popular.

Joaquim Pedro passou por uma terceira desgraça post mortem: o pessoal da literatura também desprezou o pobre Bento. Compreende-se. Roteiro não é um gênero literário canônico. É o esqueleto de um corpo visual —e ninguém admira omoplatas, tíbias e caveiras.

Ocorre que “Bento” não é bem um roteiro. Escrito sem as indicações técnicas típicas, ele preserva a sequência fluida das cenas com uma prosa que, de tão lépida, faz com que a imaginação da leitora levite. Do alto, ela contemplará e rirá das mazelas brasilienses.

Só um romance do alto modernismo seria capaz disso. Joaquim Pedro escreveu tal romance, na forma de um filme que não foi feito.

* A editora tem entre os sócios meu filho André.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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