11:37Escrito inconcluso

por Mário Montanha Teixeira Filho

No silêncio pestilento da tarde, meus olhos contemplam escritos inconclusos. Um deles, que me parece agora muito antigo, arriscava impressões sobre uma entrevista concedida pelo ministro da Justiça, Sérgio Moro, ao canal Globonews. Foi há duas semanas, creio, não mais do que isso. Anotei alguns pontos que me pareceram importantes, afirmações reiteradas e superficiais do ex-juiz da república de Curitiba sobre corrupção e castigo, itens básicos do seu discurso reducionista.

Pretendia concluir uma análise breve, centrada no vazio teórico que acompanhava as palavras ditas pelo entrevistado durante quase uma hora de martírio televisivo. Ou na insistência com que ele, a cada observação gentil da equipe de perguntadores, distribuía responsabilidades a outros ministérios ou ao presidente (?) da República, precavendo-se, com argumentos risíveis e primários, de eventuais embaraços.

Minha reflexão, porém, foi interrompida pelo avanço esperado e avassalador da peste contemporânea. Moro desapareceu de cena, engolido pelos fatos e pela mediocridade do personagem que incorporou. Esqueci-me dele, até o reencontrar na tela da tevê, dias depois, na bancada da morte reunida para expor aos brasileiros a face de um governo que não existe mais. Os rostos cobertos de máscaras, algumas delas transferidas para o tampo da grande mesa, ou para os olhos do chefe de Estado (?), ou penduradas desajeitadamente em suas orelhas, tudo parecia compor um cenário de ficção.

Para o meu alívio – e o do mundo –, não concluirei a resenha planejada. Ela perdeu significado diante das duras tarefas que nos cabem: sobreviver, resistir à barbárie e respirar. Numa obra que retrata parte da história de Moçambique – um período de guerras seguido da paz enfim alcançada –, o poeta Mia Couto empresta de um de seus atores a frase que sintetiza as agruras do tempo que enfrentamos: “Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos”.

Seguiremos, viventes, em busca da liberdade que nos foi subtraída, do abraço e do beijo proibidos, da superação do medo, da luta que não cessa. A luta para vencer os canalhas – o maior e mais irresponsável deles ocupa a Presidência do País – que insistem em transferir o custo da tragédia aos que trabalham e aos que não têm nada. 

Fecho este texto enquanto Messias Bolsonaro, o “seu Jair”, ocupa a rede nacional de televisão para espalhar mentiras, expor argumentos que menosprezam a ciência e os protocolos internacionais de combate e prevenção ao coronavírus e incitar a população a sair do isolamento e voltar à “normalidade” – ou caminhar para a morte. O que falta para ser interditado e preso pelos crimes reiterados que pratica? Que tipo de tolerância institucional ainda o mantém no cargo? A barbárie é aqui.

Uma ideia sobre “Escrito inconcluso

  1. SERGIO SILVESTRE

    Seus seguidores,Madero,Justus e veio da Havan bateram palmas pelo comunicado de ontem.

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