5:44Tempos estranhos

por Célio Heitor Guimarães

“Tanto riso, oh quanta alegria / Mais de mil palhaços no salão…”. Ao compor a maravilhosa marchinha carnavalesca “Máscara Negra”, Zé Keti jamais imaginou que, em duas frases, estaria descrevendo com exatidão o cenário político/administrativo de Brasília, no distante ano de 2020.

Ele apenas se esqueceu de citar os outros 210 milhões de palhaços que, na arquibancada, assistem à farsa, enquanto o arlequim continua chorando pelo amor da colombina no meio da multidão.

Outro dia, o nosso Luís Fernando Veríssimo registrou, com a costumeira precisão, no Estadão, e foi reproduzido aqui pelo Zé Beto: “É impossível observar o Brasil de hoje sem a sensação de estar assistindo a uma pantomima tragicômica, à decomposição de um Estado que, dissessem o que dissessem de governos anteriores – inclusive os lamentáveis –, mantinha, pelo menos, a linha, o que é mais do que se pode dizer da atuação de Bolsonaro & Filhos no palco do poder”.

Vivemos tempos estranhos, como diria o ministro Marco Aurélio, do STF, ele próprio um boquirroto, que não resiste a um holofote. O boeng Brasil está sendo pilotado por um comandante com brevê de comissário de bordo. A rota é imprecisa e enfrenta turbulência a cada esquina. A ministrada bate cabeça. Um fala mal do outro, para esconder as suas próprias asneiras, e todo mundo se salva, ainda que o país balance mais do que uma escola de samba na avenida.

Veríssimo tem razão quando deduz que o presidente Messias quer montar o seu próprio regime militar, “enchendo o Planalto de generais de fatiota que deixam seus tanques no estacionamento e entram pela rampa principal, rindo da gente”. Tarefa difícil quando agride um dos alicerces do cartilha militar, o princípio da hierarquia. O que hoje se vê, com alguma surpresa, é um capitão reformado dando ordens a generais da ativa! E quando se imagina que, pelo menos, exista um pouco de bom-senso e inteligência na turma fardada, um dos mais graduados habitantes do Planalto, com o uniforme cheio de medalhas e galardões, vem à tona para acusar o parlamento de “chantagista”. Mas era só a deixa para o chefe dele tomar a palavra e, através das redes sociais, convocar seus seguidores para um protesto público contra os poderes Legislativo e Judiciário. Não há mais dúvida: ele está precisando de tratamento. Urgente.

Veríssimo acha que essa gente está apatifando o Brasil. E justifica: “O apatifamento de uma nação começa pela degradação do discurso público e pela baixaria como linguagem corriqueira, adotadas nos mais altos níveis de uma sociedade embrutecida. Apatifam-nos pelo exemplo”.

No Brasil de hoje, a ordem é estabelecida por milícias armadas; todos têm licença para matar; a cultura é aviltada; a educação é conduzida por quem sequer conhece o vernáculo e é capaz de escrever “imprecionante” com c, além de confundir Kafka com kafta. Enquanto isso, a Amazônia vai sendo dizimada, tal qual as áreas indígenas; e a política para o meio ambiente envergonha a Nação aos olhos do mundo. E a culpa – claro – é toda da imprensa.

Está difícil, Luís Fernando. Mas isso não poderá durar para sempre. Por isso, precisamos continuar na batalha, e não perder a confiança, inspirados, talvez, em Dietrich Bonhoeffer, prisioneiro de um campo de concentração nazista, que encontrou escrito na parede de sua cela, por alguém que ali o antecedera, a frase de esperança desesperada: “Dentro de cem anos tudo isto terá terminado”.

 

2 ideias sobre “Tempos estranhos

  1. SERGIO SILVESTRE

    Eu estou com minha consciência limpa,não fui enganado,sempre segui um padrão para votar,sempre naquele que distribui renda e nesse caso todos aqui do Sul demonizaram a Dilma,deram um GOLPE sim,tiraram uma presidente honesta e democrática e colocaram lá dois bandidos,o Temer e o Bozo.
    ps,salario minimo tempo da Dilma 350 dólares,hoje 5 anos depois 220 dolares.

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