16:43O banqueiro anarquista

de Fernando Pessoa

A gente nasce homem ou mulher – quero dizer, nasce para ser, em adulto,
homem ou mulher; não nasce, em boa justiça natural, nem para ser marido, nem para
ser rico ou pobre, como também não nasce para ser católico ou protestante, ou
português ou inglês. É todas estas coisas em virtude das ficções sociais. Ora essas
ficções sociais são más por quê? Porque são ficções, porque não são naturais. Tão
mau é o dinheiro como o Estado, a constituição de família como as religiões. Se
houvesse outras, que não fossem estas, seriam igualmente más, porque também
seriam ficções, porque também se sobreporiam e estorvariam as realidades naturais.
Ora qualquer sistema que não seja o puro sistema anarquista, completamente, é uma
ficção também. Empregar todo o nosso desejo, todo o nosso esforço, toda a nossa
inteligência para implantar, ou contribuir para implantar, uma ficção social em vez de
outra, é um absurdo, quando não seja mesmo um crime, porque é fazer uma
perturbação social com o fim expresso de deixar tudo na mesma. Se achamos injustas
as ficções sociais, porque esmagam e oprimem o que é natural no homem, para que
empregar o nosso esforço em substituir-lhes outras ficções, se o podemos empregar
para as destruir todas?

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