11:18O Brasil operário de Leon Hirszman

por Mário Montanha Teixeira Filho

“ABC da greve” é um documentário clássico do cinema brasileiro, com roteiro e direção de Leon Hirszman, cineasta que morreu em 1987, antes do lançamento do filme. As cenas que aparecem na tela são originais, de 1979, e mostram a greve dos metalúrgicos da região industrial de São Paulo ocorrida naquele ano, com narração de Ferreira Gullar. O estádio lotado na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, as conversas da peãozada, o interior das fábricas, as condições precárias de trabalho, as expectativas e apreensões diante de um possível banho de sangue, as manobras dos empresários e do governo, a estética dos anos 1980, que se aproximavam, está tudo lá, a descrever a realidade dura de um operariado que lutava contra a carestia e a violência fardada.

Nas fábricas, os cuidados com a segurança quase não existiam. Para a produção do Fusca, o carro mais vendido na época, o esforço manual ainda era o que preponderava. Ruídos infernais e manipulação desordenada de fornos maltratavam as pessoas que viviam a maior parte do tempo naquele ambiente calorento e insalubre. A liderança e o discurso moderado de Luis Inácio da Silva, o Lula, o presidente do sindicato, também se destacavam.

Tempos de crise e convulsões sociais. Os trabalhadores pleiteavam salários com reajuste de 70%, mas o empresariado insistia em negociar índices muito menores do que a inflação gigantesca do período – a política salarial era controlada pelo governo. Veio a greve, a maior desde o início da ditadura, e a direção do sindicato foi afastada, atingida pela legislação que autorizava o Estado a intervir em entidades sindicais que constituíssem ameaça à “segurança nacional”. Esse quadro tumultuado impulsionou uma trégua de 45 dias, período no qual as fábricas se comprometeram a não fazer descontos nos salários dos seus empregados. Respaldada pelo governo, porém, a Ford foi a primeira a descumprir o acordo.

Quando o prazo ajustado estava prestes a se esgotar (e a categoria se preparava para a retomada da greve), um novo acordo foi costurado e submetido aos trabalhadores. Dá para ver, pelas lentes de Leon Hirszman, como aquele movimento era emocionalmente intenso. E como a direção sindical, adepta de uma alternativa de consenso, foi pressionada por uma base disposta a manter a paralisação. No final, prevaleceu o Lula, lá. Com o seu carisma indiscutível, o líder emergente comandou a assembleia que decidiria quase unanimemente pela volta ao trabalho. A situação não era fácil. O acordo (ruim) abria a perspectiva de acabar com a intervenção – algo que nunca havia acontecido desde a vigência da CLT – e restituir o sindicato aos trabalhadores, mas a impressão, mesmo que se considere o peso da conjuntura dificílima, é de que algo a mais poderia ter sido feito.

Outra cena. No local onde se formalizou o último acordo, Almir Pazzianotto, que era advogado do sindicato (e que depois se transformou em ministro do Trabalho de José Sarney e juiz do TST), cumprimentava um representante do grupo de empresários. E vinha com uma conversa conciliatória, típica dos causídicos: “enfrentamos as nossas divergências em clima respeitoso, tranquilo, profissional e blá-blá-blá…”. O pelego patronal, então, soltou: “nosso papel é buscar uma convergência de interesses”. E o Pazzianotto, ligeiro: “não falemos em convergência neste momento, por favor”. Risos discretos entre os sindicalistas que testemunhavam o diálogo. A ironia tinha endereço: os camaradas da antiga Convergência Socialista, o setor ideologicamente mais à esquerda daquele movimento. Eles eram os radicais, os malditos, os excluídos do “processo”.

Quarenta anos depois, muita coisa mudou. E muita coisa não mudou. As características do proletariado não são as mesmas, as máquinas ficaram modernas, a consciência de classe diluiu, Lula se tornou presidente da República e foi preso em Curitiba, numa cela onde permaneceu durante seiscentos dias, condenado por um juiz que virou ministro da Justiça de um governo de extrema direita. O “novo sindicalismo”, derrotado pelas instituições, não foi capaz de levar os operários ao paraíso. Venceram as milícias, o oportunismo aboletado em seitas variadas, os saudosos da tortura e os moralistas de fachada.

Quem viveu o “ABC da greve” dificilmente imaginaria o desdobramento do filme, inverossímil, dramático, que deu nos dias estranhos de agora, em que Lula é tido como o radical de esquerda que nunca foi e códigos sociais escritos com o sangue dos trabalhadores são rasgados em praça pública. Mas a tristeza não há de ser para sempre. Na Santiago de 1988, quando os chilenos se preparavam para expulsar do poder o monstro Pinochet, um poeta desconhecido gravou num pedaço de papel: “ruas e praças / poblaciones em festa / gente se abraça / Chile desperta”. O pequeno poema resistiu ao tempo, como resistem e são atuais os versos breves de outro poeta, um brasileiro famoso: “apesar de você /amanhã há de ser outro dia”. Que seja assim, tão simples como inexorável.

2 ideias sobre “O Brasil operário de Leon Hirszman

  1. Parreiras Rodrigues

    O carisma do Chefe da Orcrim era sustentado pelos mimos das montadoras. Quinta coluna é o que realmente o é.

  2. SERGIO SILVESTRE

    Pois é,vivi esses anos,hoje tudo parece cinza,aluz do Lula vai se apagando com a idade.os poetas já não recitam lindas frases,parece que tudo vai morrendo aos poucos,até a inspiração.

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