18:53ZÉ DA SILVA

Quantos fui? Por várias noites, puta velha, gorda e acabada, enfrentando o frio da madrugada na avenida iluminada. Matador de aluguel estourando o tampo da cabeça de políticos que se acreditavam blindados pelo poder. Criança descalça pisando no barro da rua na vila, enquanto acompanhava o barquinho de papel navegando na correnteza da enxurrada depois da chuva. Vítima de tortura, agulha enfiada embaixo da unha. Anjo da guarda de drogados noiados e prontos a cheirar todo o pacote de um quilo do brilho na bandeja de prata. Agora estou aqui no camarim da boite de beira de estrada. Minha estreia como cantor. Dois rabos de galo destravam a alma. Ouço o mestre de cerimônia no “e agora com vocês…” Entro. Uma luz no meu rosto. Não vejo ninguém, mas sei que a casa está lotada. O cheiro é de puteiro. O barulho também. Alguém liga o gravador. Entro na hora certa da música. Começo a cantar “Boneca Cobiçada”. Daqui não sei para onde vou dentro de mim.

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