6:23José Pastore mostrou a bomba

por Elio Gaspari

Faz tempo que o Brasil vive no desvão que separa o conservadorismo do atraso

Poucas vezes se ouviu uma advertência tão grave como a que o professor José Pastore fez em sua entrevista à repórter Érica Fraga. O Brasil tem 50 milhões de pessoas no desemprego e na informalidade, sem qualquer tipo de proteção social: “Nada, zero. Nem proteção trabalhista, nem CLT, nem Previdência, nem seguro saúde, nada. Elas dependem de assistência. Felizmente, temos dois ou três planos de assistência social que quebram o galho.”

Quem acha que esse tipo de capitalismo selvagem tem futuro, talvez faça melhor cuidando da papelada para conseguir um visto português. Até porque falta à selvageria nacional o ingrediente capitalista, coisa em relação à qual o andar de cima tem secular repulsa. A advertência de Pastore ganha atualidade quando se sabe que mais da metade do valor das deduções do Imposto de Renda com despesas de saúde vão para pessoas com renda superior a dez salários mínimos. Com elas, em 2018 a Viúva deixou de arrecadar R$ 44,4 bilhões. Quem não tem o plano de saúde que permite o rebate, dispõe do malfalado SUS. Desde 2009 ele perdeu 43 mil leitos de internação, equivalentes a 12,7% da rede.

Pastore exemplificou a selvageria que se está estabelecendo no mercado de trabalho com uma cena hospitalar: “No novo mundo do trabalho, você tem três enfermeiras num mesmo hospital. Uma é fixa, outra é terceirizada e a outra, freelancer. Fazem a mesma coisa, mas têm remuneração e benefícios diferentes. Isso é um escândalo para o direito do trabalho convencional.”

Faz tempo que o Brasil vive no desvão que separa o conservadorismo do atraso. Quando os conservadores ingleses criaram a rede de proteção social para seus trabalhadores e combateram o trabalho escravo, o andar de cima nacional dizia que eles queriam tornar seus produtos industriais mais competitivos. (Alô, alô, agrotrogloditas.) E assim Pindorama só aboliu a escravidão em 1888, 23 anos depois do fim da Guerra Civil americana. Deu no que deu.

A advertência de Pastore ganha mais peso quando se sabe que há décadas ele propõe a modernização das relações trabalhistas nacionais. O que o professor sempre quis foi modernização, mas o que se está colhendo é atraso. O ministro Paulo Guedes tem sido um ativo coordenador de seminários neoacadêmicos, mas sua quitanda ainda não começou a vender berinjelas.

Está na moda um renascimento cultural dos 21 anos da última ditadura, e puseram na vitrine a censura de costumes e o DOI-Codi. Pena, poderiam ter posto o Fundo de Garantia, o PIS e o Funrural, primeira iniciativa nacional de amparo aos trabalhadores de campo, filha do governo do general Médici. Havia na ditadura um elemento modernizador que ainda não mostrou o ar de sua graça nos tempos atuais.

Pastore diz que “nosso mercado de seguros e previdência ainda não despertou para o fato de que 50% da população economicamente ativa está na informalidade.” Como ele conhece o mercado, tomara que tenha razão, pois nesse caso as seguradoras e a banca poderiam acordar. É possível, contudo, que eles não despertem porque preferem dormir em paz, como os fazendeiros do Vale do Paraíba no século 19, dançando sobre hipotecas.

*Publicado na Folha de S.Paulo

5 ideias sobre “José Pastore mostrou a bomba

  1. SERGIO SILVESTRE

    Quando familias inteiras batem a sua porta,e dissendo não querer dinheiro,mas um prato de comida,é por que está acontecendo alguma coisa errada com esse Eldorado.
    Quando se ve a lista de jatinhos na faixa de 50 milhões cada e nela não tem nenhum petista,nem algum filho do Lula,tem que sentar na soleira e pensar um pouco sobre o que está acontecendo,por que a policia federal não investiga ou por que só investiga um lado.

  2. Jose

    Texto confuso como sempre, esquece de um ponto básico: quem jamais quis a modernização foi e é justamente a esquerda, incluindo aí a “social democracia” de sarney, collor e fhc. Ou ele esqueceu o “Tudo pelo social” do sarney?
    O caso das três enfermeiras é bem esclarecedor do atraso que vivemos: como vc pode contratar uma pessoa para a mesma função de outra custando menos? É o caso da terceirizada.
    Ser “PJ” não significa estar fora da rede oficial, eu mesmo sou PJ e contribuo com o INSS pelo teto. Além disso reservo uma parte para a emergências e quando fiz meu cálculo salarial incluí as férias e 13°; ou seja, basta conhecer e fazer as contas. Sim, tem que ter educação financeira, matéria que deveria ser obrigatória em todas as escolas.
    Quem sabe seria o primeiro passo para acabar com um conceito que vem desde a nossa colonização, o conceito de Estado Provedor, segundo o qual o governo tem que dar tudo.
    Se na escola ensinassem honestamente de onde vem o dinheiro do Estado talvez em duas ou três gerações tivéssemos uma melhora.

  3. juca

    Todo mundo mostrou a bomba, isso de um explosivo material social, economico e financeiro que foi ativado já a 15 anos passados.
    Agora tem muita gente dizendo

    O estranho é que essas pitonisas da atualidade não tiveram a competência de pelo menos tentat desativar esta bomba, pelo contrário muitos acenderam mais um ou vários pavios! eu já falei….eu avisei…..”
    Agora é muito cômodo dizer … “eu avisei, eu falei… eu sabia”. Se sabia de tudo porque não botou a boca n o trombone denunciando nos u
    últimos anos.?

  4. Tuca Bituca

    “Eu tenho um pressentimento de uma América da época de meus filhos ou netos — em que os Estados Unidos é uma economia de serviços e informação; em que quase todas as principais indústrias manufatureiras foram para outros países; em que poderes tecnológicos impressionantes estão nas mãos de algumas poucas pessoas e em que ninguém que represente o interesse público sequer compreenda os problemas; uma época em que as pessoas perderam a capacidade de determinar suas próprias pautas ou, com conhecimento, questionar as figuras de autoridade; em que, agarrando nossos cristais e consultando nossos horóscopos, com nossas faculdades críticas em declínio, incapazes de distinguir o que parece bom do que é verdade, deslizamos de volta, quase sem perceber, à superstição e à escuridão.”

    — Carl Sagan, O Mundo Assombrado Pelos Demônios, 1995.

  5. Anônimo

    Perfeitos os comentários acima. Sempre acreditamos no mais fácil em detrimento do melhor, no Estado Painho providenciando tudo (escola, roupa, merenda, transporte, leite) e cada vez mais inchado (e incompetente), e ainda reclamam da esmagadora carga tributária. Nestas últimas décadas houve muito gogó da esquerda que não sabe ou se recusa a fazer contas. As coisas não caem do céu (religiosidade ibérica) e a natureza não provê tudo (indígenas na idade da pedra). A conta sempre chega…

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