12:41O espírito da boquinha

por Rogério Distéfano, no blogO Inusulto Diário

NÃO PRECISAVA, o rapaz ia bem, trabalhava direito – assim pensávamos -, surgia como a redenção do civismo e da probidade nas denúncias da Lava Jato. Dava suas derrapadas no estrelismo das entrevistas e no powerpoint bombástico que soou ridículo. Quem via achava errado, aquilo ia dar aquilo que a gente costuma dizer que vai dar, seguido daquele vocábulo escatológico.

Mas fazia-se o cálculo do custo-benefício, o resultado final da caça aos corruptos, sempre engasgados na garganta brasileira, justificava o desgaste do exibicionismo, a reprovação do estrelismo – e até as derrapagens no devido processo legal. É que o devido processo, historicamente, tem sido a rede que protege os espoliadores da nação. Como os sans culote da Revolução Francesa, aplaudíamos a guilhotina.

Então surgem as gravações do Intercept Brasil e o mundo vem abaixo, esboroam-se as ilusões. O que os meninos faziam era bom demais, havia algo errado. Infelizmente quem viu o erro foram exato aqueles que sempre considerávamos errados: réus, advogados de defesa e ministros de tribunais. Desvendou-se o senso ilusório da onipotência, temperado pela vaidade, salgado na imaturidade.

O protagonismo foi a doença infantil da Lava Jato. Sergio Moro, o juiz, e Deltan Dallagnol, o procurador – figura de proa, a primeira a bater no cais – esbaldaram-se em conchavos, como eles dizem, cibernéticos, protegidos pelo messianismo que ofereciam ao Brasil. Hoje, afora os cegos que tateiam com o bastão Bolsonaro, cresce o número dos que põem em dúvida o trabalho dos dois apóstolos.

Dallagnol e Moro jogaram eles mesmos a pá-de-cal em nossa admiração. A maratona de entrevistas e palestras, a cada dia soando mais como investimento pessoal, a quase empresa como um delírio e cegueira, o utilitário da viagem com a família, mais honorários, pela palestra no Ceará – divulgada hoje -, exigidas pelo primeiro; mais o ministério oportunista do segundo, não fossem cediços seriam chocantes.

Cediços e chocantes, habituais e desprezíveis, as práticas não foram inventados por Moro & Dallagnol. É o espírito da boquinha, como denunciou do PT um entendido e praticante do costume, o ex-governador Anthony Garotinho. Lula fez isso com o sítio, o triplex, as oportunidades para os filhos, sempre entregue gozosamente às externalidades do poder. O feio aqui foi imitar o que se reprova no inimigo.

Os heróis da Lava Jato encarnaram a moralidade classe média, que reprova mordomias, nepotismos, oportunismos, aquilo que se obtém de posições de poder ou da proximidade com o poder. Mas acabaram por fazer o mesmo, não na intensidade, na frequência e na nocividade geralmente criticada. No entanto, fazer da função pública trampolim para interesses alheios a ela, não os faz diferentes dos outros.

Feito o estrago nas reputações, o que resta? Resta a Lava Jato e seus resultados. O temor neste momento é que – como sempre no Brasil – o desvio de comportamento da autoridade invalide o que a autoridade fez de correto. Se as denúncias irão desmoronar as condenações e as provas obtidas – elas em processo de desmoralização com as gravações somando-se às denúncias de pressão sobre os delatores.

A expectativa neste momento está em saber se Moro & Dallagnol foram o joio que, separado do trigo, permite que a fornada seja aproveitável. Não se pode dizer com segurança mínima que o joio contaminará de tal modo que a fornada será lançada fora. Há fatores que podem determinar a subsistência da fornada: opinião pública, bolsonara ou não, espírito de corporação de magistratura e ministério público, por exemplo.

É esperar para ver. E vendo, aprender. O aprender, infelizmente, sempre foi a grande dificuldade dos brasileiros. Não só no geral como no particular de situações como as emergentes das gravações do Intercept Brasil. Já tivemos catões que desmoronaram depois de empolgar a opinião pública: Jânio Quadros, Fernando Collor, os mais visíveis. E Lula, Aécio, Serra, sem dúvida. Esta lição nos será, finalmente, útil?

4 ideias sobre “O espírito da boquinha

  1. SERGIO SILVESTRE

    Ainda não sabemos nada sobre esses supostos justiceiros,como foi arquitetada essa conspiração dos homens de bem,o que sabemos é que conseguiram recuperar algum bilhões,foi forjada uma multa malandra que retornou para as mãos deles e o pais caiu num abismo de difícil volta.
    O deslumbramento,a abdicação pelos norte americanos,o culto ao salve-se quem puder,menos nós que temos a opinião publica ao lado numa mentira forjada pelas grandes redes de intrigas.
    Se vier tudo a tona,vai escandalizar até a mais eloquente seguidor desses falsos justiceiros;,onde na verdade o que almejam é dinheiro e poder fazendo até corar de vergonha os amadores que pegavam 1% de comissões da Petrobras.

  2. Jose

    Silvestre, caia na real pelo menos uma vez na vida, para de escrever tanta besteira.
    Que conspiração p… nenhuma: lula roubou e está preso por isso.
    Vc mesmo disse algo sobre fascismo dias atrás, leia lá o que vc mesmo escreveu. Sua atitude tem sido exatamente igual.
    O resto é só fumaça, mais nada.

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