9:55A grita das massas

por Ruy Castro

Cancelar a charge editorial pode ser o mesmo que cancelar a própria voz

Uma charge do português Antonio Moreira Antunes, publicada recentemente na edição internacional do jornal The New York Times, mostrava o presidente Donald Trump, de quipá e óculos de cego, sendo conduzido por um cachorro com o rosto do primeiro-ministro de Israel, Binayamin Netanayhu. Há dias, o jornal anunciou que estava suspendendo sua seção diária de charges editoriais. O motivo para isto, segundo uma fonte, foi a grita da comunidade judaica pelas redes sociais, considerando a charge antissemita. É de se imaginar o volume dessa grita sobre um jornal que, até então, todos víamos como infenso a qualquer ameaça.

Nos anos 50 a 70, a imprensa americana teve um quadrinista, Walt Kelly, cuja tira diária, “Pogo”, se passava num brejo e em que os personagens, desenhados como animais cruéis, podiam ser a Ku-Klux-Klan, o premiê soviético Nikita Kruchev, o ditador Fidel Castro, o presidente Richard Nixon, seu vice Spiro Agnew e os generais da guerra do Vietnã. Todos os dias, “Pogo” era ofensivo para alguém. Eu me pergunto se Kelly poderia produzi-lo hoje.

A imprensa, desde que nasceu, há uns 500 anos, convive com a pressão. Faz parte do risco. Faz parte também resistir, sob pena de se reduzir a um armazém de secos e molhados, como dizia Millôr Fernandes. Mas nunca houve uma pressão como a atual. As grandes massas são moralistas e, agora, têm voz. O problema de um veículo se submeter a elas é que não há assunto sobre o qual elas, as massas, não tenham opinião.

Para mim, a melhor charge até hoje foi produzida pelo nosso Jaguar. Mostra Cristo, na cruz, dizendo a alguém aos seus pés: “Hoje não vai dar, Madalena. Estou pregado”. Quantos bilhões não se ofenderiam atualmente com ela? Pois, na época, o mundo não acabou.

Cancelar a charge editorial pode ser apenas o primeiro passo para um jornal cancelar de vez o editorial —a sua própria voz.

*Publicado na Folha de S.Paulo

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