21:02ZÉ DA SILVA

Olhei para o céu e vi como ele estava lindo. Só vi. Olhar e sentir, às vezes ficam distantes. Não havia uma nuvem, estrelas brilhavam mais porque, num raio de quilômetros, não havia luz elétrica, nem faróis, nada. À frente, um precipício. Negro como o que eu tateava nas entranhas daquilo que chamam alma – e aprendi ser eu mesmo, o outro, o estranho. No horizonte surgiu a lua amarela. Pensei num doce. Ela me apresentou os contornos de uma montanha. A mão segurava o cabo de uma herança maldita. Sentia o peso das balas. No passado uma igual àquelas tinha arrancado o tampo da cabeça de alguém. Não apertei o gatilho daquela vez. Não tive coragem, apesar do pedido de alguém sem saída e corroído pela dor da doença fatal. Nunca soube porque guardei o enviado daquela mensagem final. Agora sabia. Um vulto bateu asas e atravessou a luz que a lua empresta do sol. Ergui o revólver. Atirei-o no buraco negro. Voltei para mim mesmo. Mais uma tentativa de me salvar.

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