15:35Dom Pita, o arquiteto, e o drama da contemporaneidade

por Yuri Vasconcelos Silva

Dom Pita vai longe e sua visão cria uma realidade. Seus sentidos criam outras camadas ilusórias e sua mente deseja aquilo tudo. Mas não é uma verdade última – ainda é um falsete. A máquina que calcula bilhões em curto tempo recebe instruções para emular a realidade. Uns e zeros em mais uma linguagem inventada pelo homem a codificar um sistema de outras linguagens e, enfim, reproduzir em um monitor algo que parece a fotografia de um lugar não existente. Deste jeito, a arquitetura mergulha na hiper-realidade, afundada no desejo da perfeita reprodução de um objeto construído numa realidade que transcende a verdade. O pensamento, a memória, a retórica, a fala, o croquis, o gesto, o protótipo e a imagem, é uma sequenciamento de proto visões de mundo que, muitas vezes, morre em uma representação em duas dimensões num papel fotográfico. Ele expressa o que pretende ser, num mundo natural com relvas e aves num céu da manhã. Até mesmo a imperfeição da natureza é transportada com sucesso por algoritmos, carregando consigo atmosferas, pessoas e uma ideia que nunca será de fato. A investigação imaginativa do observador é podada logo na raiz. Nada precisa ser completado pela especulação imagética do espectador. A coisa está pronta e mastigada e digerida, para uma imediata absorção nestes tempos de instagram, notícias rápidas e não tão verdadeiras, e efeitos especiais. Mas, como são imagens produzidas através de uma máquina com inteligência binária, a hiper-realidade apresentada em todos os projetos são permeados com a repetição mecânica e falta de algum grau de originalidade vital proporcionada pela paixão e mãos do homem que cria. A perfeição na representação atual em arquitetura é esmaecida pela própria busca do fidedigno. No final de tudo, Dom Pita constrói sua visão projetada e, ao comparar o desejado com o objeto real construído, desaponta-se com o resultado. A imagem é muito melhor que a realidade porque nela cabe o universo, e na obra construída, apenas o factível. Este é o drama da contemporaneidade.

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