10:14CIRCULA NA INTERNET

por Eduardo Affonso.

Alguns anos vivi em Curitiba.
Principalmente não fui lá muito feliz em Curitiba.
Mas não guardo mágoas.
Imagina.

Curitiba é uma espécie de Montevidéu ou Buenos Aires – uma cidade limpa, bonita, onde dá pra usar luva e cachecol, com uma língua e uma cultura relativamente parecidas com a nossa, só que mais perto do Brasil. E com a vantagem adicional de não ter que passar pela Imigração nem precisar de passaporte ou fazer câmbio (nossa moeda é aceita normalmente).

O povo é mais claro que o brasileiro, talvez fruto das ondas de imigração polonesa, russa, alemã, ucraniana. Ou talvez porque lá não bata sol.

Morei em Curitiba por 8 anos e retornei ao Brasil há quase 20, mas ainda me lembro do impacto de todas as mulheres serem louras e usarem topete (para dar mais ênfase à lourice). Que a maioria se vestia de preto e usava joias ou bijuterias douradas (o preto era para dar mais ênfase ao dourado das joias e do cabelo). Já me disseram que essa moda passou, mas só acredito vendo. Curitiba, para mim, é e sempre será uma imensidão de topetes louros e de vestidos pretos adornados de jóias douradas. E filas nas farmácias para comprar tintura amarela (há, claro, louras verdadeiras, mas para distinguir quais são quais, só chegando às vias de fato, o que não é tão simples quanto no Brasil – mas isso fica para outra postagem).

Um brasileiro que chegue por lá há de estranhar a comida: pinhão, pierogue, eisbein, bratwurst (esses dois, no Schwarzwald) e sopa. Lá, sopa é considerada comida. Tem até rodízio de sopa!

Pinhão tem gosto de hóstia, só que mais sem graça, e a gente come para não fazer desfeita – meio assim como gringo prova farofa quando vem ao Rio. Pirogue tem gosto de pinhão, só que com recheio. O recheio costuma ter gosto de hóstia.

Um dos pontos altos da alta gastronomia curitibana é o almoço de domingo em Santa Felicidade. Quem provou sabe do que estou falando; quem não passou por essa provação, não tem como fazer ideia. Os outros hits culinários são o cachorro quente com duas vinas e o cuque.

Cuque tem cara de bolo, é feito com receita de bolo e tem gosto de bolo. Mas não é bolo: é cuque. Tem o cuque simples (com gosto de bolo simples) e o cuque de banana (com gosto de bolo de banana). Se no Brasil é inescapável ouvir “é pavê ou pá comê?” a cada vez que servem pavê, em Curitiba cada vez que tem cuque de banana alguém comentará que “banana no cuque é bom”. É uma tradição local. Ria, se não quiser passar por um gringo sem senso de humor.

A Adriana Zadrozny partilhou ontem esse delicioso glossário do curitibanês e deu vontade de acrescentar algumas coisas.

Em Curitiba as calçadas são de lousinha. Lousinha é uma espécie de azulejo de pedra (granito, basalto, sei lá). Como se fosse pedra portuguesa, só que grandona, tipo um palmo por um palmo. Elas apenas fingem estar cimentadas no chão, mas são, na realidade, armadilhas. Você pisa numa ponta, a outra ponta levanta e espirra água pra todo lado.

Sim, porque em Curitiba chove. Não digo que chova diariamente, porque seria injusto. Chove várias vezes ao dia. Se você sente que não dá uma dentro na vida, vá ser meteorologista em Curitiba: é só prever chuva e suas chances de acertar são de 114%. E quando chove infiltra água sob as lousinhas. E a água fica ali, empoçada, o ano inteiro, de tocaia, só esperando você pisar. Indo a Curitiba, finja que tem TOC e só pise bem no meio das lousinhas – assim espirra água do mesmo jeito, só que nos outros, não em você mesmo/a.

Existe também o calçamento de pedra portuguesa, que eles chamam de petipavê. O carpete eles chamam de carpê. O papel manteiga, de sulfurizê. Sim, curitibano que se preza estudou não só no Goethe, mas também na Aliança Francesa.

As duas principais ruas do centro são a Marechal e a Marechal. Mas não tem como confundir. A Marechal é a que vem de lá pra cá e acaba na Praça Tiradentes. Já a Marechal é transversal a ela. É pelo contexto que você deduz a qual Marechal a pessoa se refere.

Todo mundo de uma geração atrás sabe o que estava fazendo quando o Kennedy morreu. Todo mundo da nossa geração lembra o que estava fazendo quando caíram as torres gêmeas. Em Curitiba, o evento histórico indelével na memória das gentes é a neve de 1975.

Não há propriamente um Museu da Neve de 75, ou um ’75 Snow Memorial, mas toda banca de revistas (que lá se chama revistaria) tem uma pilha de cartões postais mostrando a Praça Tiradentes coberta de flocos brancos. Deviam estar na lista do Guinness como os cartões postais mais reimpressos do planeta.

A neve de 1975 foi para Curitiba o que o encontro com Janis Joplin foi para Serguei: aquele momento fugidio que justifica uma vida. Todo curitibano terá algo épico para contar daquele evento memorável.

Tomada de Constantinopla? bah!
Queda da Bastilha? buh!
Invasão da Normandia? bleah!
Neve de 1975? Ahhh!

Daqui a 10 mil anos, durante a próxima Era do Gelo, ainda haverá revistarias vendendo cartões postais com as araucárias nevadas da Praça Tiradentes.

Por fim (e para não atrasar ainda mais a leitura do sensacional glossário elaborado pelo Solan Valente), há os curitibanos e os curitibocas.

Os curitibanos são os nascidos em Curitiba. Os curitibocas são os piá e as guria que acham que ganharam a megassena acumulada por tomar gasosa, fingir não reparar no Oil Man ou no INRI Cristo, aplaudir de pé tudo quanto é peça de teatro, ir de salto alto e enganchar o pé na Ópera de Arame, chupar mimosa, abrir o porta-malas do carro e botar o som no volume máximo no Barigui e fugir do contato visual como todo curitibano que se preza foge de Curitiba no Carnaval.

(Esse texto cheio de maledicências é uma singela homenagem a meus amigos curitibanos e curitibocas).

 

10 ideias sobre “CIRCULA NA INTERNET

  1. Carla

    Curitiba é a Paris do Sul do mundo. Quem desdenha Curitiba não quer dar o braço a torcer que aqui é a melhor cidade do Brasil.
    Ah, obrigado pela visita, mas não volte.

  2. Adriano Koehler

    Curitibano que não gostou do teu texto é que devia abandonar a cidade. E perfeita a clivagem entre os que viram a neve de 75 e se lembram e aqueles que ou não viram ou não se lembram. É assim que nos dividimos! Muito bom o texto!

  3. cetico

    Mas um Curitibano raiz sabe muito bem que o verdadeiro cuque não é feito com massa de bolo, mas com massa de pão doce.

  4. Reco Marder

    Texto ótimo, perfeito. Gostaria de completamentar minha curiosidade com o Dicionário de Adriana Zadrozny, que não consigo encontrar.
    Me ajude!
    Sou paulista e estou aqui há 50 anos. Só xingo o clima. O resto…. só vivendo aqui pra saber.
    Abraço.

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