14:30Marielle e o bolsonarismo

por Celso Rocha de Barros

É bem fácil ser gentil quando morre um adversário político. O sujeito já morreu, não está mais disputando nada com você. O procedimento padrão é desejar condolências, dizer algo como “apesar de nossas divergências, sempre respeitei a firmeza com que lutou por seus ideais”, e ainda sair com cara de bom esportista.

A reação dos bolsonaristas diante do assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL-RJ) foi o oposto disso. É um negócio muito esquisito, inédito no Brasil e raríssimo no mundo.

No dia do assassinato, o presidente disse que não se manifestaria porque sua opinião seria muito polêmica. Os bolsonaristas entenderam a dica e foram para a internet espalhar mentiras sobre Marielle, como o de que ela teria sido namorada do traficante Marcinho VP. Ninguém que fez isso, até agora, foi preso. Têm que ser.

Dois bolsonaristas, Rodrigo Amorim e Daniel Silveira rasgaram uma placa com o nome de Marielle em um ato político na última campanha eleitoral —e se elegeram, respectivamente, deputado estadual e deputado federal.

Amorim guarda uma das metades da placa rasgada enquadrada em seu gabinete. Silveira participou de um ato, na última quinta-feira, que procurou atrapalhar uma homenagem a Marielle no Salão Verde da Câmara tocando uma gravação de latidos em alto volume. Os bolsonaristas mentiram que se tratava de um ato em defesa de animais maltratados.

O ato só não causou mais escândalo porque os passantes acharam que os bolsonaristas estavam reunidos assistindo a aula do Olavo.

Na verdade, a histeria é compreensível. Os bolsonaristas não querem que você discuta o assassinato de Marielle Franco porque não querem que você discuta milícias.

Lembre-se: o bolsonarismo é tão próximo das milícias que, quando o Vélez tentou fazer a garotada cantar o hino, temi que mudassem a letra para “Ouviram do Das Pedras as margens plácidas”.

O líder da milícia “Escritório do Crime”, Adriano Nóbrega, tinha mãe e esposa trabalhando no gabinete de Flávio Bolsonaro (e assinando cheques em nome do senador). Adriano Nóbrega, lembremos, recebeu a medalha Tiradentes na cadeia por iniciativa de Flávio, e foi homenageado no plenário da Câmara pelo atual presidente da República.No pedido ao STF (Supremo Tribunal Federal) que levou à suspensão da investigação contra Queiroz, Flávio Bolsonaro alegou ter foro privilegiado no Supremo e pediu a anulação das provas recolhidas pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). O ministro do STF Luiz Fux determinou nesta quinta-feira (17) a suspensão das investigações, mas não chegou a analisar o pedido para a anulação das prova

Há fortíssimos sinais de que o organizador de mutreta e bode expiatório da família Bolsonaro, Fabrício Queiroz, é enrolado com milícias. Flávio Bolsonaro, afinal, foi quem disse que a mãe e a mulher de Nóbrega lhe foram indicadas por Queiroz.

E recentemente descobrimos que nosso amigo Rodrigo Amorim, um dos que rasgou a placa de Marielle, tem foto no Instagram com Queiroz, a quem chamava de “irmãozão”.

Não, não há indícios de que a família Bolsonaro, Rodrigo Amorim ou Daniel Silveira estejam envolvidos no assassinato de Marielle Franco. Mas quanto mais as investigações prosseguirem, mas as milícias serão notícia; e, quanto mais aparecer milícia, mais vai aparecer bolsonarista em situação constrangedora.

Sim, pensei a mesma coisa que você: é incrível que um sujeito que alimentava a pretensão de ser presidente da República tenha se metido com essa gente. Mas aí é que está: quando se enfiou nessas histórias, nem Jair Bolsonaro era maluco o suficiente para acreditar que os brasileiros um dia votariam nele para presidente da República.

* Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra).

** Publicado na Folha de S.Paulo

 

4 ideias sobre “Marielle e o bolsonarismo

  1. SERGIO SILVESTRE

    A impressão é que estão segurando o sicário ,escondendo do povo a verdade por vergonha,já que deram um golpe na democracia e escolheram isso que ai está.

  2. Parreiras Rodrigues

    Ei, mataram um prefeito petê ainda no início do século e ninguém, ninguém mesmo reclama o culpado, ou os culpados. E olha que na sequência, morreram mais uma dúzia. Queima de arquivo.

  3. SERGIO SILVESTRE

    Para clarear sua cabeça antes Richista,hoje Bolsonarista ,tem 20 pessoas presas do Caso Celso Daniel,essas pessoas não delataram apesar da insistência ,o principal acusado mofa na cadeia e o caso foi esclarecido em 25 dias já se sabia quem matou Celso Daniel.
    VAi cair o resto dos seus cabelos,o resto dos seus dentes e não veras o verdadeiro assassino da Marielle,não os bagrinhos ai,os mandantes .

  4. leitor

    esse pessoal que não pode ouvir crítica a bolsonaro que já fala do lula é doente. o lula tá preso, babaca! podemos falar do atual governo?

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