21:07ZÉ DA SILVA

O voo cego é como briga de foice no escuro. Pode ser um resumo de vida ou um longo momento de pânico,  como a morte no caminhão seguindo o motorista do carro em Encurralado. Ouvi o grito da mulher sendo espancada na casa vizinha. O maluco era um policial com folha corrida e missão burocrática para não atentar mais contra a segurança das pessoas nas ruas. Um telefonema, a chegada da viatura, o despiste da vítima, aterrorizada com o que poderia acontecer depois. De repente, de facão na mão, ele, o maluco do filme verdade, cuspindo ameaças, na frente de casa. Por que fiquei frio e não fugi da raia como em outros momentos bem menos tensos? Como têm forças as palavras! Dali, da pequena área, impassível como Bruce Lee, gritei: “Se colocar um pé pra dentro do portão, eu te queimo!” O voo cego deve ter atingido sei lá que parte do alucinado. Ele ficou quieto, baixou a arma, se virou e foi embora descansar da zoeira. O que eu tinha para queimá-lo? Uma caixa de fósforo com três palitos.

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